miedo en Baires

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Ônibus em Buenos  Aires não tem cobrador. E sim, eu bem que podia andar de metrô. Eles têm metrô lá – ou Subte, como eles chamam o metrô – desde 1900 e bolinha. Muito antes e muito mais do que nós, aqui em Sampa.

Como ia dizendo, eu podia andar de metrô lá, mas não ando. Tentei descer pra estação, mas era muito escura, barulhenta, assanhou minha claustro – que já deixou de ser fobia faz tempo mas ainda é claustro – então eu ando mesmo é de ônibus. Aqueles mesmos que, como eu dizia, não têm cobrador.

Têm uma maquininha que só aceita moedas. Então você tem que ter a passagem em moedas. Não precisa ter o troco exato, porque a maquininha é mágica e faz troco. Mas tem que ser em moedas. Não sei o que acontecerá se o fulano entrar só com dinheiro papel. Argentino é meio esquentado, talvez o motorista dê um pé na bunda do infrator, sabe-se lá…

Entramos no ônibus com moedas. A maquininha emperrou e me devolvia uma moeda ao  mesmo tempo em que pedia mais uma. Eu punha e ela devolvia. Fiz isso umas 3 vezes. O motorista já estava impaciente e eu apavorada com a impaciência dele. Até que um senhor que entrou depois de mim e estava ali, esperando que eu me entendesse com a maquininha, matou a charada. Eu estava botando,  junto com as outras, uma moeda de 25 centavos brasileira. Era extremamente parecida com a argentina e não sei por que estava junto. A máquina não quis nem saber, apesar de que nossos 25 centavos são mais valiosos do que os 25 centavos deles. Mas a máquina é nacionalista. Como todo argentino.

O senhor atrás de mim “trocou” os 25 centavos causadores do problema. Deu um dele pra mim e ficou com o meu. E a máquina e o motorista se aquietaram. Maridão perguntou se eu pegara o recibo.

Recibo? Qual recibo? Perguntei eu, já ficando nervosa de novo.

Deixa pra lá, disse ele. Maridão sabe que eu nervosa sou um problema.

O resto da viagem fiquei sentada, olhando a paisagem. Uns garotos, dois rapazes e uma menina, entraram depois de mim. Ficaram em pé, na minha frente. A menina, tendo pago, pegou dois papeizinhos daqueles de recibo e botou um deles preso no vidro da janela.

Ônibus argentino é velho. E chacoalha. Evidentemente, a janela chacoalha mais ainda. O papelzinho aquele caiu da janela e veio voando, qual uma pena ao vento, direto pra minha mão.

Olhei por olhar.

Era o meu recibo, aquele que eu esquecera de tirar da máquina. A garota deve ter pego dois juntos, o meu e o dela e botou o meu preso na janela.

Sinistro. Além da máquina mágica que faz troco, não aceita moedas de 25 estrangeiras e dá recibos, ainda os recibos vão pra mão do dono, esteja ele onde estiver.

Acho que vou ter que aprender a andar de subte…

matando na raiz

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Dia de levar brinquedo pra escola.

Toda professora de pequenininhos estabelece um dia assim. Dia de levar o bicho de estimação, dia de levar o brinquedo preferido, dia de levar uma coisa estranha.

Eu nunca tive tais dias. Antigamente não se podia levar nada pra escola que não fosse lancheira , livros e cadernos pedidos. Normalmente quando alguém levava outra coisa, a professora confiscava e só dava de volta na saída.

Mas esse garotinho é dos dias de hoje. Tem 6 anos e lê fluentemente. E lê há já bastante tempo. Tudo que encontra. Nos jornais, nas paredes, nos cartazes, na TV.

Ele é de hoje, mas nem parece. Ainda não se viciou no computador nem nos jogos eletrônicos.

Ele gosta é de livros.

Daí que chegou o dia em que a professora pediu pra levar o brinquedo preferido pra escola.

Ele pegou seu livro e ia saindo todo pimpão.

Aonde você vai com esse livro, pergunta-lhe a mãe.

Pro dia do brinquedo preferido! Responde ele com um largo sorriso.

Livro não é brinquedo! Retruca a mãe carente de imaginação.

Pra mim é! Responde o filho, sempre sorridente.

Não é. Vai lá dentro e pega um brinquedo de verdade! Finaliza a obtusa.

Acaba o sorriso do guri.

E talvez tenha acabado também um legítimo, honesto, sincero e real gosto pela leitura. Com tudo que esse gosto deve ter: alegria de um brinquedo, envolvimento de um jogo, atração de uma TV.

Espero que não.

Espero ardentemente.

Tem mãe que é um porre!!

 

OS: quem me contou esse episódio foi a tia. Afirmando que o sobrinho era “muito esquisito”.

E eu agüento uma coisa dessas?

pra você, que diz que não sou polêmica

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Quando  decidi, desde a mais tenra infância, qual seria meu time de futebol, fui polêmica.

Criada numa família de sãopaulinos roxos e de carteirinha, ter me tornado uma corintiana nem tão roxa nem de carteirinha, mas corintiana, já foi uma polêmica e tanto. Pode crer. Só não apanhei porque em casa existia a política da não violência.

Na adolescência confesso que não estabeleci muitas polêmicas. Comecei a fumar aos doze anos e de primeira aluna no primário inteiro, comecei a repetir no ginásio. Foram duas repetências, o bastante pra gerar outro problema em casa. Pela precedência do fato. Mas não boto isso na conta de polêmicas. Adolescente é quase tudo igual. Mesmo na rebeldia.

Casei cedo demais pra minha geração. E não estava grávida. Aliás, gravidez essa que só veio a acontecer depois de sete anos. Aí uma certa polêmica. Não era muito natural esperar tanto. Mas eu sou lerda nas decisões, acho.

Politicamente fui de esquerda. Esquerda radical, pra época. Luta armada e coisa e tal. Mas a época era outra e ser de esquerda na ditadura não considero polêmica. É sobrevivência pura. Mesmo que pra muitos de nós tenha significado a morte. Mas falo de sobrevivência intelectual, ética, o que não tem nada a ver com sobrevivência física. E não, não estou sendo nem fui polêmica na época.

Intelectualmente não estabelecia polêmicas no discurso. Não tinha bagagem intelectual pra tanto. Era uma época de muitos debates e tensões. Como estabelecer discussões se eu era capaz de chorar se alguém levantasse a voz pra mim? Sou até hoje. Nem precisa me torturar. É só gritar comigo.

Acho que você tem razão, amigo. Não sou polêmica. Existem umas coisas meio raras mas são só coisas superficiais: cabelo vermelho, adoração pela cor roxa, gosto por botecos malcheirosos e prato feito, nenhum gosto por qualquer tipo de jóia que não seja de sementes, mas todas essas coisas são gostos. E não polêmicas.

Pecados capitais? Ira, inveja, gula, avareza, rancor, luxúria, essas coisas? Não, nunca falo disso em minhas crônicas. Porque acho que isso tudo faz parte da vida. Como fazer cocô ou xixi, botar o dedo no nariz, peidar debaixo dos lençóis. Nada disso é bonito, mas faz parte da vida. E eu não sou escatológica. Em nenhum sentido.

Então, você está certo. Não estabeleço polêmicas, não sou séria, não consigo falar de tristezas, que dirá falar de pontos controversos…Não me incomodo em agradar aos outros. Não é por isso. Quero agradar aos outros até certo ponto. Mas sobretudo quero, nesta altura da minha vida, agradar a mim mesma. Ser leve, mesmo quando a vida fora das crônicas nem é tão leve assim. Mas ser leve nelas é tornar menos pesado o fardo total. Imagina se eu fosse ser séria e polêmica?!

Nem conseguiria. Falta vocação, falta vontade, falta estofo  e falta estômago.

Polêmica, eu? Tô fora!!

 

é da vida

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Já fomos seis. Não ao mesmo tempo. Éramos um pai, uma mãe e quatro filhos. Dois meninos, os mais velhos e depois duas meninas. Com intervalos estranhos entre eles. Os meninos, apenas dois anos. Depois de outros sete, uma menina. Morreu com um ano. Depois de mais sete, outra menina.

Essa outra menina sou eu. Meio que de saco cheio de sempre ter sido considerada uma “consolação” praquela irmã que eu tive, sem ter nunca conhecido. Mas fazer o que? É da vida. E as mães sempre precisam de consolo. Os pais também.

Depois foram vindo as baixas. A primeira do pai, era de se esperar, o mais velho. Muitos anos depois, e esta não era de se esperar, o irmão do meio, novo. Foi-se embora antes da mãe. Por vezes a natureza é muito cruel.

E agora o irmão mais velho.

E cá fiquei eu. Tal qual um mamute em extinção. E triste.

Tá bom, é da vida.

Mas tem vezes em que a vida dói.

amor, ódio e dígrafos

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De vez em quando eu embirro, esbarro e emburro ( gosto dos RR) com as chamadas “leis” do mundo. Uma é a da oferta e da procura.

Dizem que tudo que é demais enjoa e perde valor. Muita oferta barateia.

Não concordo. Não concordo com essa coisa de valor, que no nosso mundo mede-se mais pelo dinheiro do que pela moral,  mas concordo- um pouco- com isso de que a saturação leva ao descrédito e à indiferença.

Vejam os jovens, pelo menos aqueles que usam a internet, em seus textos e comentários. Eles amam tudo ou odeiam tudo. Até aí, tudo bem, é próprio dos jovens não buscarem nem gostarem do meio termo. Nem da razão. Mas eles amam muuuitooo e odeiam muuuiiito!! Tenho a impressão que se alguém realmente amasse e odiasse tanto assim, teria um peripaque qualquer por overdose.  Amar não é fácil nem comum, odiar também não. E ambos sentimentos são intensos demais, dolorosos demais, mesmo quando nos trazem alegria e felicidade. Viver intensamente demais também estressa.

Mas lendo comentários pelas redes sociais, verifico que nem só jovens amam e odeiam tanto assim.

No fundo, apesar de amar as palavras ( tá bom, gostar realmente muito) eu acho que pra comunicação, ainda prefiro as palavras mais o olho no olho, acrescido da visão, do cheiro, do som e do contexto.  Aí, se eu não conseguir me comunicar, é porque tenho algum problema com a pessoa ou comigo.

Mas digo isso porque acho que, no afã da comunicação, muita gente usa e abusa da acentuação, dos avatares da internet, das caras e bocas gráficos, e dos verbos amar e odiar. Tudo pra se fazer mais “real”, mais perto, mais vivo, nesse mundo virtual, tão quente e tão gelado ao mesmo tempo.

Ou não. Ou simplesmente, as pessoas hoje amam muito mais, odeiam muito mais, e eu é que fico assim, cheia de dedos. Levei uma pá de tempo pra me declarar ao meu amor, por medo de não estar dizendo a verdade, de ser precipitada. Digo com muita freqüência que amo só mesmo pras minhas cachorras, mas sei que elas não entendem as palavras, só o sentido e os cafunés que lhes faço. Aí, abuso do “ amar”. De resto, amor continua sendo, pra mim, algo sério e raro.

Devo ser eu. Velha e ranheta, de novo.

Mas como se pode amar e odiar tanto assim, todos os dias e todos os minutos?

Não sei. Nem imagino. E odeeeiiiiioooo não saber nem imaginar isso…….