prato cor de rosa

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Eu comecei com um prato cor de rosa. Com o alfabeto em volta, desenhado na borda. Era dividido em quatro, de forma a não misturar a comida. Não lembro do que comia na época em que comia nesse prato, mas devia ser pouco. Não esqueço das broncas da mãe e da avó para comer mais. Bom, toda mãe reclama, em algum momento, da quantidade de comida dos filhos. Depois os filhos, já adultos, resolvem obedecer, viram obesos e a mãe reclama de novo.

Essas mães não chegam num acordo…

Voltando. Prato dividido é bom.

Hoje eu não divido nada. Misturo a salada de folhas com o caldo da lentilha mais a soja ao molho. É só uma antecipação. No estômago não vai misturar tudo mesmo? Ora!

Os restaurantes de kilo vão na minha. Ou melhor, já descobri que pela preguiça de estar toda hora se levantando pra pesar o prato, as pessoas misturam tudo mesmo. Secos e molhados. Duros e moles.

Existe também, já que falamos em etiqueta e preguiça, a possibilidade de comer nas panelas. Confesso que faço isso toda vez que estou sozinha pra comer. Economiza lavagens e tempo. E acreditem, toalhas também. Fica difícil cair alguma coisa da panela. Principalmente se você comer com colher.

Se estiver em restaurante, faço um esforço e me rendo às regras de etiqueta. Menos se comer pudim de leite ou tomar capuccino. Aí, que me desculpem os educados, mas lambo o prato e enfio o dedo na xícara, pra não deixar vestígio.

Minha filha aprendeu comigo a lamber o prato do pudim. Fez isso quando pequena, na casa de alguma amiguinha. A mãe de plantão (da amiguinha, que eu nunca dei plantão pra filhos dos outros) reclamou: “onde aprendeu isso, menina? Que feio!”

Minha imagem ficou bem abalada, quando ela respondeu que a mãe dela – dessa vez eu mesma- fazia igual.

Quem sai aos seus não degenera.

Agora o cúmulo em matéria de bicho grilice e preguiça foi um almoço no campo em que estivemos, numa comunidade hippie. O prato eram folhas de planta, devidamente jogados fora depois da refeição. Ou melhor, postos em composteiros pra adubo.

Nada contra reciclagem, nem bichos grilos em geral, nem a comida, que estava boa.

Duro era equilibrar aquela folha…

Saudades dos meu prato cor de rosa dividido em quatro!

 

diz-que-diz-que

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Dizem sempre bem das ambições humanas. Dizem que os desafios é que nos botam pra frente. Dizem dos horizontes amplos e do pensar grande.

Mas não dizem das frustrações, não dizem da quebra de expectativa. Não dizem da angústia de buscar o que não se acha.

Dizem que pra alcançar tem que sofrer. Que o que vem fácil, vai fácil.

Mas não dizem da felicidade simples, não dizem da paz interna e dos dias calmos.

Dizem que o sofrimento engrandece o homem, dizem que o custa a alcançar é mais duradouro, dizem que a vida é luta renhida e viver é lutar.

Mas não dizem da alegria rápida nem da risada passageira.

Essas coisas não parecem ter importância.

Eu me surpreendo com a felicidade sem alarde. Com o sorriso à toa, com a vida dia a dia. E agora, na maturidade, percebo que é isso que me fez tão feliz. Nunca a ambição forçada, nunca o sofrimento nem o sonho inatingível. O sofrimento só me fez sofrer, nunca crescer.

A felicidade foi sempre o chão. Esse chão que eu piso e que me há de digerir um dia. E me fará brotar em alguma coisa. Uma árvore, uma erva daninha, um pé de mamona.

Minha ambição é isso: brotar de novo como qualquer coisa. Qualquer coisa verde que alguém pise num dia de sol e sinta-se bem.

Sentir-me bem. A maior ambição da minha vida.

Que alcancei.

Simples assim.

sinais de alerta

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Sabe aquela placa com :”cuidado com o cão?”  Velhíssima, tanto que até em Pompéia ela existia. O tal Cave canem.

Bom, não sei se em Pompéia ou em outros lugares não dizimados pelo vulcão (ou por péssimos governantes e serviços, como é o nosso caso), mas já notei que um montão de gente usa aquela placa sem ter cão. Bota a placa na esperança de que aquilo faça algum efeito…

Quando do meu último assalto ( notaram a colocação chic, como se eu estivesse a falar da minha última temporada na europa?), no desespero que eles sempre me dão, ( e medão também) nós chamamos um hominho desses de alarmes domésticos. Ele ficou uma tarde aqui dando aula das várias modalidades. Depois de pouco tempo percebemos que assalto mesmo era os preços praticados por essas firmas. Preferimos os assaltos “artesanais”, aos quais já nos acostumamos. Bom, mas descobri nessa aula que uma pá de gente bota a cerca “eletrificada” de mentirinha. A cerca existe mas é só pra inglês ver. Ou ladrão ver. Essa eles fazem baratinho. O hominho pergun tou se a gente não queria assim, que sairia mais barato! E ele estava falando sério!!

Existem também aqueles avisos de mãe: “ se você fizer isto ou aquilo, EU faço isto ou aquilo a você!” . Ameaça vazia. A gente sabe, as mães sabem, os filhos sabem, todo mundo sabe mas finge acreditar. E continua fazendo isto ou aquilo, é claro.

Existem os alertas razoáveis e alguns até fundamentais. Mas o povo tem um monte de gente pouco razoável e para os quais a vida não é lá muito fundamental. Sendo assim, placas vermelhas nas praias, avisando de correntezas ou perigos, placas de travessia escolar ou de animais em estradas, placas de velocidade, todos são desrespeitados por uma grande parcela.

Já as placas de sinalização de radares, essas são respeitadíssimas. Todo mundo guia no limite permitido  ao lado dessas placas. Mas deixa passar a placa pra ver só…

Há também os sinais de alerta do nosso organismo. Também pouca gente leva em conta. E olhe que nosso corpo, além de ter razões, tem também muita paciência. Avisa reiteradamente das barbaridades que a gente comete contra ele. Mas só no momento em que não dá mais, em que quase se morre, é que parece que a gente ouve.  Eu mesma fumei durante anos e não foi por falta de aviso.

Agora disso tudo tem um alerta ao qual eu sempre prestei atenção. Vinda de uma família que tão logo dava nome aos filhos que nasciam, em seguida dava-lhes apelidos pelos quais seriam chamados a vida toda, e casada com um homem que sempre me chamou de nomes afetuosos e filhos que sempre me chamaram – como todos os filhos chamam- de mãaaaaaeeê – quando ouço meu nome de batismo por parte do meu marido ou dos meus filhos, tremo nas bases.

Aí tem coisa, avisa o corpo!! E não é coisa boa…

banco de escola

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Não é imagem nem linguagem figurada. Estou falando de banco de escola, mesmo.  Aquela coisa que já foi de madeira, de ferro e fórmica e hoje muitas vezes de plástico. Aquilo onde a gente sentava ignorante e levantava menos.

Meu primeiro foi de dois lugares. De madeira envernizada, a mesma mesa e o mesmo banco para duas pessoas.  Não consigo lembrar de nenhuma companheira de banco, a não ser uma que se chamava Bela. Eu não gostava dela. O que mostra, pelo menos pra mim, que o amor vai mas o ódio fica… Eu tinha uns sete anos.

Mais tarde um pouco, o banco passou a ser individual. Ainda todo de madeira, com lugar debaixo da mesa pra guardar o material e no tampo, pasmem, um buraco pra enfiar o tinteiro. Sim, eu sou da época de caneta tinteiro no primário. E ai de quem fizesse um borrão na lição! Pra isso – o borrão – havia o mata-borrão e o canto da sala. O mata-borrão pra secar a mancha e o canto da sala pro castigo. Minha mãe dizia que eu era feliz, pois no tempo dela tinha que ajoelhar no milho. Céus!

Depois, no ginásio, com uns 12 anos, o banco passou a ser separado da mesa. A mesa tinha tampo de fórmica, com lugar embaixo pro material e pra bilhetinhos. Passei quase um ano da vida deixando bilhetinhos pro garoto que sentava na mesma carteira que eu no noturno. Quer dizer, eu ocupava o lugar durante o dia e ele ocupava à noite. O bilhete ficava escondido debaixo da mesa. Nunca o conheci.

Na faculdade, uma carteira que fazia as vezes de mesa e cadeira e lugar pro material, desta vez embaixo da cadeira. As tais “cadeiras universitárias”. Que acabaram de estragar minha já estragada coluna. Eu sempre escrevi “torta” pra direita e a carteira só tinha mesa ao lado direito. Era muito direito de uma vez só. Eu parecia uma parafuso escrevendo, toda enrodilhada. Hoje quem parece um parafuso é minha coluna.

E finalmente hoje já não estou nesse tipo de  escola. Minha única escola hoje ensina a dançar tango e isso eu faço em pé, embora muita gente defina o tango como algo que se faz em pé mas devia ser deitado…

Mas aqui, na frente do monitor, minha cadeira é confortável e estofada, luxo que nunca tive em minhas carteiras escolares.

E minha mesa é de concreto. Fria e gostosa.

E milho só o de pipoca.

Arre!