fralda de pano

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Foram 36 fraldas de pano. De puro algodão. Três dúzias, não mais que isso.

Não sei por que escolhemos esse número. Provavelmente contas da minha mãe, já que eu era neófita no assunto. Não tínhamos muita grana, então era essa a conta mínima. Aquela coisa do necessário e suficiente.

E foram suficientes. Duraram quatro anos e dois filhos. Na realidade, durariam mais, que algodão é coisa danada de boa pra durar. E digo mais: fralda quanto mais velha, melhor. Tanto duraram que, passados os quatro anos ( cada filho usou durante dois anos, com um intervalo de dois anos também entre um e outro) ainda duraram mais um tempinho como pano de chão chic.

As crianças usavam fraldas até um ano. Aí íamos pra praia, que meus dois filhos nasceram em janeiro, mês de férias. Na praia era só alegria: ficavam pelados ou de calção, mas não precisavam de fraldas.  Nem eu ficava estressada com possíveis “ mijadas” fora de hora nem eles, assim era muito fácil eles aprenderem e pedirem pra usar o banheiro na hora certa. Depois de um mês de praia, voltavam devidamente adestrados.

Daí eram  só as noturnas. Até dois anos, que depois disso já eram “homenzinhos e mulherzinhas, com direitos e deveres”. Mãe capricórnio é fogo, eu sei.

Hoje vejo a loucura que é sustentar criança a fralda descartável. Normalmente faz-se um “chá de fraldas” pra dar conta do recado nos primeiros meses.  E de repente leio artigos em que se apregoa a volta das fraldas de pano, que não poluem o planeta e coisa e tal.

Tá bom. Vamos voltar. Ninguém quer poluir nada mais além do que já poluímos, com nossos carros, nossos lixos, nossos plásticos.

Então fica pras novas mães minha dica infalível: quer dar uma pré-lavagem legal nas fraldas de pano? Segura firme uma ponta, põe na privada ( limpa, por favor!) e puxa a descarga com determinação! Depois é partir pro abraço. Ou seja, jogar na máquina e pronto.

Funciona, gente. E não mata ninguém com germes, garanto.

Dessa maneira, umas 18 pra cada filho dá e sobra.

perseguição noturna

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Umas dez horas da noite. Finalmente temperatura baixa, saímos pra caminhar. Depois de duas quadras apenas ele surge.

Passou por nós, vindo de trás. Andando rápido, com a determinação de quem sabe o que quer e  aonde vai.

Continuou na frente. Rastreando a rua, de um lado a outro.

De vez em quando, muito disfarçadamente, olhando em nossa direção. Depois de uns 200 metros percebemos o jogo: ele ia na frente, cheirava uma casa aqui, latia pra um cachorro ali (todos dentro das casas,naturalmente), sempre na frente. Até que chegava a esquina. Aí a encenação era outra: ele ia e vinha em nossa frente, sem nos olhar. Assim: fazia que ia virar mas na realidade não virava. Punha-se a cheirar qualquer coisa bem na esquina como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Tão interessante que ele tinha que parar.

Nós não parávamos. Continuávamos pela rua que havíamos escolhido.

Não dava dois segundos e ele surgia de trás, novamente andando rápido na nossa frente.

Fez isso enquanto durou nossa caminhada. Sempre igual o artifício nas esquinas.

Com o tempo foi ou cansando ou tentando estabelecer laços mais íntimos. Passou a andar muitas vezes atrás e não em nossa frente. Bem perto, como se fosse da família.

Chegando na esquina de casa nós tínhamos que virar. Era a nossa rua, mas não queríamos que ele nos acompanhasse. Daí nós usamos o artifício dele: fingimos um interesse grande nas pedras do chão deixando que ele passasse à nossa frente.

Ele caiu. Seguiu em frente.

Nós corremos o mais silenciosamente que pudemos e viramos em nossa rua. Cinquenta metros, vinte metros, pronto: chegamos ao portão!

Arfante, pidão, o vira-lata chegou junto.

Dormi mal essa noite.

Como é difícil dizer não a certas pessoas …

filhos

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Eu consigo explicar o gosto do jiló. Eu consigo explicar a sensação da chuva caindo no rosto. Eu consigo explicar a cor da rosa vermelha. É difícil, requer imaginação e a explicação nem sempre fica a contento, mas a gente consegue, com um pouco de esforço.

Mas não consigo, de jeito nenhum, explicar o que é ter filhos.

Não, não estou falando do processo propriamente dito. Esse é fácil, todo mundo está interessado, todo mundo gosta, e pela motivação e pela  própria natureza humana, todo mundo aprende rapidinho, rapidinho.

Estou falando do que é ter filhos.

Eu nunca quis, até tê-los. Até hoje nem sei bem porque os tive, como apareceu a vontade. Mas tive dois. E depois de tê-los, sabe-se lá por qual razão, a vida se divide em dois: antes e depois. E a vida de depois, a de agora que os tenho, não consegue imaginar a vida de antes de tê-los.

Eles não são eu. Nem mesmo poderiam ser reconhecidos como tal na multidão, embora se pareçam conosco fisicamente. Mas tenho amigos e amigas que se parecem mais comigo do que eles. Tenho amigos e amigas que têm mais afinidades de gosto comigo do que eles. Tenho amigos e amigas que às vezes vejo mais do que vejo a eles.  Mas seriam filhos iguais a amigos e amigas? Não, não são,embora sejam também amigos e amigas nossos.

Eles têm conosco uma liberdade que nem amigos têm. Dizem o que pensam sem pestanejar. E a gente fica irritado?? Fica. Como fica! Mas o estranho é que passa. E não deixa marcas. E olhem que eu sou perita em memória rancorosa, como eu a chamo. Esqueço o que como no almoço mas não esqueço um destrato de amigo.

Tenho pavor de morrer. Evito pensar no assunto e quando penso é pra planejar coisas boas que quero fazer ANTES. Não penso nunca na morte em si. Penso no antes.

E lamento. Lamento que um dia deixarei – serei obrigada a – deixar a vida que gosto tanto.

Mas lamento mesmo me afastar dos filhos.

Essa é a verdadeira morte. Estar longe deles pra sempre.

 

de escolhas

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Na onda do meu amigo SP, vou abrir algumas dicas das minhas escolhas.

Laranjas: se estão leves demais para o tamanho, é sinal que devem estar secas, sem suco.

Bananas: prefiro as sem manchas. E com o enorme calor que vivemos, as mais verdes possíveis. Pra durar pelo menos uns dias.

Aliás, aqui não é hábito comprar a comida do dia, como vi em alguns lugares da Europa. Eu mesma compro a da semana e olhe lá! Então as frutas e verduras têm que durar pelo menos a semana.

Abacaxi: se estiver cheirando, já era. Maduro demais.

Verduras de folha: espetadonas, espevitadas. Murchas não servem.

Caqui: confesso que os aliso, de leve. Tento não apertar mas é preciso que estejam firmes no ponto. Nem muito nem pouco.

Tomate: não aperto mesmo. Melhor comprar os italianos bem vermelhos que costumam sempre estar bons. Ou aqueles que parecem um grapefruit, enormes e verdes, pras saladas.

Ovo: depois de comprar um montão de casca quebrada e colada na caixa, abro todas as caixas. E tento não quebrá-los no caminho, o que nem sempre é possível. Freadas bruscas são um terror pra ovos, eu sei por experiência.

Homens: os com senso de humor e boa vontade. O resto a gente ajeita…

Amigas: prestativas e discretas. Daquelas que só dão opinião quando perguntadas. É difícil mas não impossível.

Carros: que andem. Não muito pra competir nem tão pouco que atrapalhem. Que tenham um bom porta-malas. E uma cor bonitinha, que ninguém resiste…

Hotéis: pelos banheiros e pelo colchão. Se forem limpos e duros, respectivamente, pode ser qualquer um.

Jóias: só as que vêem da natureza e não estou me referindo a minas de ouro nem prata nem diamantes. As de sementes ou madeira. Se a festa for muito chic, de vidro.

Filhos: esses não tem escolha. Ama-se e pronto.  E cuida-se, cuida-se, cuida-se, cuida-se….