barulho

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Eu achava que o pior barulho que existia era o do motorzinho do dentista. E olhe que nem falo daquela britadeira de quando eu era pequena. Falo dos modernos mesmo, que têm aquele barulho bem mais fininho.

Pois é. Não é mais.

Estou há horas agüentando o barulho da vizinha com  seu WAP em punho, lavando calçadas, paredes, vidros.

Eu odeio aquele barulho!

Barulho é coisa difícil de aturar. Eu, andarilha urbana, que na falta de parques e trilhas citadinas caminho mesmo por avenidas e ruas da cidade, vou ensurdecendo com as buzinas, as derrapagens, as motos buzinando, os pagodes e funks. Cada um tem o direito de ouvir o que quiser, no carro e em sua casa. Mas não tem o direito de fazer a humanidade, num raio de 5 km, compartilhar seu gosto musical, na marra.  Por isso fico enlouquecida com as criaturas que abrem o vidro dos carros e colocam seus rádios no último volume. Já notaram que quem ouve rádio de carro alto sempre anda de vidro abaixado?

Tem também o barulho de giz na lousa. Cada vez mais raro, pois hoje se usa mesmo é a caneta nas lousas brancas. Na minha época era giz. Tive um professor de cursinho que pra acordar a turma, segundo ele, raspava de propósito o giz na lousa. Simpático. Muito simpático.

Depois há o barulho dos animais domésticos. Como sou  cachorreira, agüento razoavelmente os latidos de cachorros médios e grandes. Mas meu vizinho tem 3 fox paulistinhas histéricos. Já ouviram o latido do Fox paulistinha? Só perde pro maltês e pro chiuaua.

E tem gato no cio. Sempre dois, porque pra fazerem o que eles estão adorando fazer, precisa dois. Diferente do ser humano, em que às vezes basta um, ou pode ser um montão junto. Gato funciona aos pares. E mia aos pares. Muito.

Enfim, devo estar mesmo é muito chata com a idade. Até mesmo o canto dos pássaros por aqui, antes tão melodioso, agora me incomoda.

Deve ser pelo aumento da oferta.

Maritaca aos bandos, já ouviram? Todas aqui no meu Pau Ferro, fim de tarde e começo da manhã.  E pensar que a primeira vez que ouvi achei tão legal!!

Hoje lembro do meu pai, quando a gente ia pescar e eu não parava de falar, ele me desafiava a “ouvir o silêncio”.  Eu nunca consegui. Hoje queria tanto poder…

álbuns de figurinhas

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Tenho a impressão que desde que o mundo é mundo existiram  álbuns de figurinhas.

Meus irmãos, não sei bem qual deles, tiveram esses álbuns. Lembro de dois: um de jogadores de futebol, que nunca mereceu de mim qualquer atenção e outro de artistas de cinema.

Esse sim eu folheava, na época em que nem sabia ler ainda, pedindo pra alguém da família me dizer os nomes escritos e elegia meus favoritos.

Meus irmãos tinham mais de uma década de diferença de idade comigo, então embora todo mundo estranhasse quando eu afirmava “amar” Allan Ladd ou Gregory Peck, eu tinha lá meus motivos. Eu não ia a cinemas ainda, nem tínhamos televisão. Acho que a televisão mal surgia, naquela época. E afinal, quando ela surgiu, os filmes eram tão velhos que eu tinha todos os motivos do mundo pra adorar artistas de outras décadas.

Demorou um bocado pra eu me atualizar. Não tínhamos dinheiro pra “jogar fora” com álbuns de figurinhas, segundo meu pai. E eu não gostava nada de jogar “bafo”, além de ser péssima no jogo. Uma coisa deve ser decorrente da outra. Até hoje eu detesto jogar coisas nas quais sou péssima. Perder me irrita.

Voltando aos artistas antigos, quando me atualizei, não sei por qual motivo, acabei por eleger meus favoritos dentre os artistas europeus. Godard fez minha cabeça. E Fellini, claro.

Vai daí, em matéria de televisão, eu hoje continuo fiel aos meus artistas da infância. Melhor dizendo, da infância de meus irmãos.

Não consigo deixar de assistir um western de Peck, até mesmo de Gable, aquele careteiro.

Acho que as coisas de infância marcam. E ficam.

Será que meus filhos vão lembrar, quando tiverem minha idade, das She-Ra  da vida, dos Smurfs, daquela cambadinha colorida toda?

E vocês, lembram de quem?

em defesa das rejeitadas

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Ninguém diz que gosta delas. Ao contrário, há uma enxurrada de textos das mais diversas origens esculhambando as coitadas.

Sim, porque quando alguém ( dizem ter sido o Dumont, mas há tantas controvérsias que nem vale a pena discutir a autoria) inventou o relógio de pulso, ninguém reclamou. Ninguém disse que era deselegante, cafona, brega, ou de profundo mau gosto.

Em breve todos passaram a usar. Bom, os mais conservadores continuaram a usar os cebolões, que exigiam tempo pra consultar a hora: tinha que caçar no bolso o redondão e depois trazer pra perto dos olhos, dos seus e dos circundantes, que houve época em que era de muito bom tom usar cebolão. De ouro, então, nem se fala! Eram até mencionados em testamentos.

Eu nunca herdei nenhum. Pena. Rendiam uma grana legal.

Voltando: da mesma forma, quando se inventaram as mochilas, estas coisas que acabam com nossa coluna e nos ônibus ocupam o lugar de uma pessoa, diminuindo até fechar o já estreito corredor, bom, quando inventaram a mochila ( sei lá quem inventou, mas devia ter ganho um prêmio), ninguém achou de mau gosto. Tanto que umas décadas atrás passaram a existir  em  couro e o escambau, para mulheres elegantes. Sim, a moda já decretou, em certa época, que mochila era elegante.

Eu sou dessas. Não, não sou elegante. Sou dessas que desde o advento – sim, porque pra mim foi um advento – da mochila, passei a usar diuturnamente. Uso um saco minimalista, mas não deixa de ser uma mochila!

Voltando de novo: então por que só se fala mal delas? São pequenas, não ocupam lugar nos ônibus. Deixam, tal como o relógio de pulso e as mochilas, as mãos livres. E nada como ter as mãos livres, como concordarão comigo os ladrões, os italianos e as dondocas. Uns afanam o alheio, outros falam com as mãos e as dondocas tiram o cabelo da cara. São utilíssimas.

São coloridas, são unissex, são leves, não detonam a coluna, são rápidas no uso uma vez que ficam na frente e não atrás, como as mochilas. Podem ser de qualquer material, do pano ao couro.

Eu adoro. E tenho algumas, que uso para pedalar, para caminhar, para fazer compras. Só não uso em milongas porque atrapalhariam o abraço do tango…

Pochetes! Que mal há?

de heranças e fusquinhas

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A gente herda coisas interessantes dos pais e familiares. E não estou falando de objetos ou dinheiro.

Falo de hábitos e manias.

Alguns, a gente nem sabe que herda, a não ser quando o hábito aparece. Então de repente a gente se vê fazendo coisas num repeteco, quase iguais às que a mãe, o pai ou os avós da gente faziam.

Minha avó passou a vida – ou a parte da vida em que ela passou conosco- fazendo crochê. Ela tentou me ensinar, mas eu não quis. Certo dia, bem depois dela ter morrido, meu pai veio me visitar e levou um susto ao me ver fazendo crochê: “você está igual à Dona Mariana!!” Minha avó. Eu estava mesmo: mesma postura, mesma  atenção, mesma velocidade, conversando e crochetando no sofá.

Meu gosto por fazer supermercado: tal qual meu pai, nada me deixa mais feliz do que uma despensa cheia. Parece que o tempo pode ser ruim quanto for, que o mundo se torne inóspito a mais não poder, que a solidão e a tristeza imperem, enquanto a despensa estiver cheia, eu tenho a força!! Meu pai ficava feliz com a mesma coisa. Chegava a mostrar a despensa para amigos que iam em casa, tal qual certas pessoas mostram a adega. Ele brilhava os olhos no prazer dos sacos de açúcar, de feijão, de farinha, azeites e vinhos. E latas. Muitas latas.

Eu não curto latas e quase não compro. Como sou natureba, o que sempre está cheio é minha geladeira e minha fruteira, mas o prazer que sinto com isso é similar ao dele, embora a única guerra que eu tenha vivido tenha sido a de travesseiros e não tenha passado privações como ele, a não ser as clássicas de família de classe média baixa. Mas não ter tido carro, nem roupas de grifes, nem viagens, nada disso deixou marcas. São coisas sem as quais pode-se perfeitamente passar, por incrível que pareça aos jovens de hoje em dia. Também herdei o gosto por palavras cruzadas. E por minestrones e macarrão feito em casa.

E por “fazer fusquinha”, que ao contrário do que muita gente possa achar não é fazer aquele carro alemão. É guardar uma coisa gostosa, esperar que todos comam seus pedaços e comer o seu sozinha, num momento em que ninguém mais tem. Isso é “fazer fusquinha”.

É na páscoa receber seu ovo e não comer. E deixar pra comer duas semanas depois, quando todo mundo já está com saudades do chocolate e não tem mais.

Isso é “fazer fusquinha”.

Eu gostava – ainda gosto- de fazer fusquinha.

Mas meu irmão não. Ele passou a vida comendo meu pedaço de bolo escondido, devorando tranqüilo o chocolate achado, lambendo a última bolacha do pacote ou dando o último gole no refrigerante.

Quer saber? Sinto falta disso. Se eu era a rainha da fusquinha, ele sempre foi o rei do “bobeou, dançou”.  A gente se completava. Pena que ele se foi, agora não tem mais graça fazer fusquinha. E me vejo como ele, herdando aquela coisa de “aqui, agora” antes que seja tarde demais.

Ele não teve tempo.