24 de janeiro de 1971

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Hoje acordamos juntos, por volta das oito horas. Faz tempo que a gente acorda juntos.

Tudo sempre igual mas tudo sempre diferente, porque os dias não se repetem, nem as águas do rio. Mas vá lá, depois de tanto tempo, certas rotinas se estabelecem.

Banheiro tem um só dentro de casa, mas nunca teve briga. Nossas urgências podem esperar.

Na cozinha, mesa posta por ele, sempre. Meu remédio ao lado da xícara, vai que eu esqueça…

Depois, toca ler o jornal e começar a rotina do dia. Juntos.

E assim a vida segue. Hoje sozinhos, filhos fora de casa, cachorras no quintal. Dois escritórios, o meu e o dele, porque se o banheiro é um só os computadores são muitos.  De vez em quando um vai ao escritório do outro, dá um beijinho, leva uma fruta, comenta o dia e o céu, mostra alguma coisa no micro.

A tarde chega, a agenda pode mudar para um ou para o outro. Mas o lazer é junto. A academia, a dança, as andanças.

E assim caminha a humanidade, assim la nave va e assim a gente vai chegando ao fim deste dia, mesmo dia no qual, há 41 anos atrás, a gente casou.

Pragmáticos, casamos um dia antes do dia de São Paulo, sempre feriado. Um dia a mais de lua de mel, de dias úteis contados.

E assim vai chegando a noite do dia em que ambos esquecemos o aniversário de casamento…

Será que tem Alzheimer compartilhado??

 

PS: eu lembrei, sim. Quando olhei a data do computador. Ele ainda não.

Caes e gatos, iguanas e ratos

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Por que não aparecem nunca fotos nas redes sociais de outros pets?

Conheço gente que tem cobras. Gente que tem rato branco. Gente que tem iguana e gente que tem peixe. Ah, e um montão de gente que tem tartaruga.

Botam fotos no Facebook da vida? Não.

Botam fotos desse tipo de pets quando filhotinhos? Não.

Se enternecem ou trocam idéias sobre as gracinhas dos seus animais de estimação? Não.

Já tive tartaruga e sei do que estou falando: a gente chega em casa e o bicho, mesmo que tenha vontade – coisa que acho que não tem – não vem nos receber. A minha quando se dirigia ao portão eu já estava dentro uma pá de tempo. Muito depois vim a descobrir que ela se dirigia ao portão para fugir e não pra me receber. Até o dia em que conseguiu. Anos depois. Era muito lerda a Raquel, minha tartaruga.

Peixes nunca tive. Os que tive, se é que se pode chamar assim, foram por breves minutos, o tempo de tirá-los do anzol e levá-los pro churrasco. Peixinhos pequenos, pescados em rios ou represa. Do tempo em que eu comia coisas com olhos.

Os de aquário, essa coisa que deixa a gente meio idiotizado, quero dizer, hipnotizado, esses também só vêm  “receber” o dono quando a comida chega. Quando os donos viajam e deixam uma máquina fazendo o serviço, a recepção afetiva por parte dos peixes é a mesma.

Iguanas e cobras. Dizem que são afetuosas. Pode ser. Mas nunca vi ninguém babando por fotos de uma iguana filhote ou cobrinha recém-nascida.

Eu chego em casa e minhas cachorras já sabem antes de eu chegar. Conhecem o carro, mesmo quando a gente muda de carro. Adaptam-se antes da gente com o barulho do motor e a buzina. Conhecem o ranger da porta. Conhecem nosso cheiro. E conhecem a gente melhor do que a gente mesmo, em certas situações.

E são, sobretudo, afetuosos, de um tipo de afeto que a gente gosta. Lambem, acariciam, vêm para o colo, olham com olhos pidões. Tudo que a gente quer num amor de verdade.

Não é de estranhar então que um monte de gente carente de amores se entupa de animais de estimação.

Só fico imaginando como os donos de iguanas, cobras, aranhas e peixes interagem.

Mas no amor tudo é permitido e tudo é possível.

Como diz a música: toda forma de amor vale a pena.

Mas iguana…afffff!!

coisas que não mudaram minha vida

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Papai Noel não existe.
Eu desconfiava. Nas poucas vezes em que escrevi cartinhas, ele não levou em consideração. Tá bom, meus pedidos iam além das possibilidades financeiras familiares, mas papai Noel é cumpridor, ou não? Fora o fato de que eu morria de medo daquele velho de barbas brancas, a altura do meu pai, o cheiro do meu pai, e que diziam que não era o meu pai e ele, pra não se revelar, ficava mudo. Aliás, eu sempre achei que o papai Noel tinha algum problema de fala: aqueles hohoho , sei não…

A cegonha não existe.
Eu também desconfiava. Quando vi em foto uma cegonha voando e comparei o peso do bichinho com o peso de um bebê, a coisa não combinava. Tá bom, eu não conhecia o condor americano, que pode sim carregar um bebê e muito mais. Mas desconfiei. Depois as risadinhas dos adultos cada vez que se tocava no assunto, davam a entender que havia algo mais do que a cegonha no ar e não eram os aviões de carreira. Descobri tudo numa….enciclopédia! Ninguém acredita mas é verdade: a enciclopédia explicava a coisa toda e vinha até com ilustrações dos órgãos genitais masculinos e femininos. Por isso sempre digo hoje que meu conhecimento sexual é …enciclopédico!

A linha do equador não existe
Enquanto linha, eu sei. É apenas imaginária. Mas até eu ter aulas de geografia no primário, eu achava que ela existia, sim. Isso porque minha avó tinha guardado, em suas relíquias, uma espécie de vareta cheia de fitas coloridas que ela contava ter ganho na viagem de vinda para o Brasil, ao passar pela linha do Equador. Acho que houve alguma festa no navio. Então eu achava, muito justificadamente, que a linha do equador era uma fita que se passava e por isso a “lembrancinha” nos guardados da minha avó. Minha versão é muito mais romântica do que a real, é ou não é?

O homem da mala não existe
Como não existe? Vinha mês sim, mês não, com uma mala de couro marrom cheia de ternos brancos de linho, que meu pai comprava pra ele ou para meus irmãos. Tinha gravatas também e uma ou outra coisa. Só coisas masculinas. Ele tinha bigodes e cabelos pretos. O turco da prestação. Minha mãe, provavelmente pra me afastar da sala onde os “homens” da casa experimentariam roupas, dizia que ele era o famoso homem da mala, aquele que pegava criancinhas malcriadas pra fazer sabe-se lá o que. Eu duvidava. Até porque minha mãe tinha um arsenal de ameaças não cumpridas: me botar em colégio interno, dar pras ciganas, chamar o homem da mala, por aí. De tanto repetir essas coisas, perdeu a credibilidade. E o homem da mala, quando me via ao longe, dava tchauzinho e sorria. Simpático esse homem da mala…

A vida eterna não existe
Primeiro achei que sim, ela não existe. Depois achei que não, ela existe sim, na medida em que nos transformamos em outras coisas, a evolução, etc, etc. Agora tendo a achar que se ela existisse seria um saco. Mas me pego desejando viver mais, sempre mais, como aqueles avarentos do Moliere, contando as moedas e querendo sempre mais e mais. Um ano mais, uma década mais, um século mais…

receita

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Primeiro eu abro a geladeira. E olho. De cima a baixo, como se medisse as possibilidades, como se cortejasse minha geladeira.  E abro coisas. Porta do freezer, gavetas de verduras e frutas, potes, escaninhos de ovos, bebidas. Não tenho preconceitos. Uma cerveja preta (só tem dessa na geladeira, sempre) pode ir bem com alguma outra coisa. Uma verdura roxa pode combinar com a brancura do arroz. Uma manga amarela serve pra amaciar a crocância de uma soja. Tudo é possível, embora nem tudo dê certo.

Como na vida. Tem que experimentar.

O que os outros falam conta. Mas até certo ponto.

O que conta mesmo é aquilo que eu tenho nos armários naquele dia.

Daí é só juntar seguindo alguns princípios: salgado combina com doce, desde que não seja doce em calda. Por que? Porque não gosto.

Cor abre o apetite, desde que acompanhada de bom cheiro.

Tem verdura linda que o cheiro estraga. Repolho roxo, nabo, por aí. É só usar cru.

Certas coisas, se pudesse, eu botava em tudo, como uva passa. Ou cebola. Embora essa eu bote em tudo, menos na sobremesa.

Verduras têm que ser barulhentas, se não perdem a graça. Salada tem que ter som. Alface americana ( a mais barulhenta), cenoura crua bem grandona ( a pequenina não faz barulho), pepino só estalando de novo. E dos grandes.

Maçã verde além do barulho tem cor. É ótima em doces e salgados, como a uva passa, que, esqueci de dizer, tem que ser preta. A branca é azeda. E nem aparece.

Arroz só integral. Pode ser preto, selvagem, com grãos ou cereais, o importante é ter casca. Porque arroz tem que ser mastigado e não engolido.

Pode usar sobras em bom estado. Reciclar na cozinha é recriar e às vezes a recriação fica melhor que a criação.

Soja quase todo dia. O dia muda e a soja também. Tem a granulada, a pedaçuda, a em grão, a em meio grão, o bife, a salsicha e a farinha. Menos o leite que não gosto. Nem aquele suco.

E é isso. Mistura tudo, usa um tremendo de um azeite, uma toalha limpa, um suco cheiroso e voilá.

Não, não gosto de cozinhar.

Gosto de misturar e ver no que dá.

Como na vida, já não disse?