meu primeiro milhão

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Tinha o tal do feijão posto em algodão molhado. Eu fiz isso. Eu e todo mundo da minha idade. Não sei se a garotada de hoje terá alguma curiosidade em saber como nascem os feijões ou os homens.

Mas eu botei o feijão no algodão molhado. Depois de uns dias, sei lá quantos, ele brotou e surgiu a plantinha. Depois de mais uns dias eu fiquei de saco cheio de olhar pro feijão. Ele não dava outro feijão, eu achei a coisa assim meio lerda pro meu gosto.

Mas aí me falaram do milho. E minha avó, coberta de bom senso, mandou-me plantar um milho no quintal e regá-lo. Eu escolhi um canto, que nosso quintal tinha muitos, quintal de antigamente, cheio de árvores frutíferas, um pouco de grama, um montão de roseiras e onze horas. Escolhi um canto junto ao muro e plantei.

E nos próximos dias, todo dia eu abria de novo o buraco e olhava o milho.

Não sei como ele sobreviveu, mas sobreviveu.

E nasceu aquele pé bonito, verde claro, que crescia que era uma beleza.

E ao fim de um certo tempo – nem foi tanto, pois agüentei esperar – a espiga lindona.

Tá bom, essa eu não esperei amadurecer, arranquei verde mesmo,  e comi cozida. E brinquei um monte com os cabelinhos do milho. E guardei as palhinhas de recordação.

E guardei um monte de outros milhos pra plantar de novo, mas ou esqueci, ou eles não nasceram, ou o fato de tê-los fervido trouxe algum dano…

O fato é que dessa experiência botânico-afetiva me sobrou a recordação do meu primeiro milhão e uma certa fixação por cabelos cor de espiga de milho, que graças a deus e a Loreal, se resolveram pra mim há mais de uma década.

O primeiro milhão a gente nunca esquece.

razão, coração e confusão

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Eu já falei pelos cotovelos. Alguns detratores dizem que ainda falo.

Mas é isso: a gente tende a fazer um entrevero daqueles com o corpo e seus pedaços. Uns juram que nosso coração tem suas razões. Outros mandam “beijos no coração”, credo…Outros dizem que o seu coração é de pedra, para alguns é de manteiga, outros alegam ter o coração tão mole que seria de manteiga derretida, uma coisa efetivamente mole.

Para alguns o ar falta quando a adrenalina sobe. Eu inclusa.

Para outros, o ar enche os pulmões quando as endorfinas surgem, arfantes e suados – e fedidos – nas aulas da academia. E sim, todos são peritos em utilizar adrenalinas e endorfinas em suas conversas. Aposto uma paçoca de rolha como sequer sabem o que seria uma e outra. Enfim…

Quando a espinha se curva, mostra-se o rabo (desculpa aí a linguagem chula), dizem os que apregoam o orgulho a toda prova.  Não sei não. Minhas cachorras, nem um pouco orgulhosas, quando levam bronca escondem o rabo.  Deve haver uma diferença crucial entre seres humanos pouco orgulhosos e cachorros submissos…

Outros, aqueles com muitas manias e cuidados, são cheios de dedos. Eu tenho 20 deles (dedos), nos pés mais os das mãos, e sou bem pouco cuidadosa. Também não tenho muitas manias, mas meus detratores discordam.

E tem o estômago. Aquele que fabrica ácidos do inferno em situações igualmente ácidas. No entanto, em situações difíceis, diz-se que é preciso ter estômago. Pra que? Pra poder fabricar ácido? E afinal, há como “não ter estômago”? ( cartas para a blogueira, que está muito interessada em perder os quilos que ganhou ultimamente).

Há também a cabeça dura. Ou os cabeças duras. Esses não mudariam de idéias. Mas todas as cabeças não são duras, passada a fase da moleira mole?  Isso pra não falar dos “miolos moles”, dos desatinados. E não são todos os miolos igualmente moles?

Isso é muito confuso. Ou bem se fala em fisiologia ou bem se fala em filosofia, ou bem se fala em dizeres populares, ou bem não se fala nada e bora lá, dançar um tango argentino…

velhos amigos

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Eu e o Murphy somos velhos amigos. Daqueles velhos amigos ou amigos velhos – o que não é a mesma coisa – que são ranhetas, que brigam, que implicam, que riem à socapa como só os velhos amigos – e amigos velhos – podem rir, enfim, aqueles que não se desgrudam, numa  relação não de amor e ódio mas de convivência e necessidade. Sim, porque acho que precisamos um do outro.

O Murphy precisa de mim pra exercitar seu modus vivendi, que é a “passação de perna” no sonho dos outros, no caso, dos meus.

E eu preciso dele – por que não admitir?- pra jogar o jogo da vida.

Posto isso, viajar de avião pra mim é um sufoco, literalmente falando. Claustrofóbica controlada mas não curada ( o que acho que nem existe) aquela portinhola do avião quando fecha, fecha com ela uma parte imensa do meu ar. Passo a respirar fundo e acho que aí o Murphy dá seu primeiro sorrisinho.

Depois tem a escolha do lugar: já caí, certa vez em que o Murphy venceu a parada, no meio de uma fileira com cinco pessoas, as mais gordas exatamente ao meu lado. Não me deixaram nem um espacinho onde apoiar o cotovelo.

Depois disso decidi comprar a passagem com tal antecedência que me permitisse passar eu a perna no Murphy escolhendo o melhor lugar.

Bom, o que a mim parecia o melhor lugar. Nem sempre foi. Muitas vezes a escolha da janelinha – eu adoro janelinha, me dá impressão que tem mais ar- caiu bem em cima da asa, perdendo assim toda a possibilidade de paisagem, a não ser aquela fuselagem feiosa.

Desta vez decidi ir na poltrona do corredor, ao lado do banheiro. Mijona assumida e tímida idem, não queria incomodar ninguém com minha idas ao banheiro. E corredor porque eu mereço botar pelo menos uma das pernas pra fora, esticadona.

Murphy agiu rápido e depois de duas ou três pessoas tropeçarem na minha perna e da passagem de um carrinho por cima do meu pé, desisti. 1 x 0 pra ele.

Ao meu lado, deitada comodamente em duas poltronas, uma senhora que comprara a passagem na fileira do meio e fora sorteada com a ausência de vizinhos. Murphy devia estar tão ocupado decidindo me ferrar que esqueceu dela…

A companhia aérea disponibilizou pasta de dentes ( que eu sempre tenho), escova, pente, essas coisas que fazem parte da nécessaire de qualquer mulher prevenida e meinhas. Eu não uso meinhas em avião. Não consigo achar espaço pra tirar e guardar meus tênis (mas as meinhas valeram quando todas as minhas meias de verdade estavam sujas e não havia mais nada). Disponibiliza também fones de ouvido que me incomodam e acabo não usando.

E não disponibiliza máscaras para os olhos. Que me ajudariam muito, já que não suporto luz. Murphy deve ter participado da reunião da companhia que definia os itens. Antigamente eles davam as tais máscaras.

Paciência. A manga do casaco na cara auxilia.  Uma camiseta ao estilo dos invasores da USP também .

E finalmente, pra não dizerem que eu tenho birra com meu amigo Murphy, eis que na entrada do avião, já na volta, os fiscais descobriram uma poderosa arma que eu havia esquecido de tirar da mala de mão: meu conjunto de faca, garfo e colher inseparável em viagens, daqueles de acampamento.

Confiscaram. E depois, dada a minha periculosidade, fizeram a mim e só a mim, tirar sapatos e passar  por uma revista geral.

Essa Murphy ainda me paga…Ele que me aguarde!  

chegando

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Lugares para os quais se viaja são limitados. Mas ilimitadas são as impressões que esses lugares causam nas pessoas.

Não gosto de museus. Gosto muito de ver coisas vivas, ambientadas, com luz, sol e chuva, gente passando, folha caindo, alguma sujeira, por que não?

Ter ido pra Itália foi a realização de um sonho antigo. Sendo netas de italianos, com minha avó materna morando conosco desde que nasci, dormindo no meu quarto, me ensinando a rezar em italiano, me cantando cançonetas napolitanas, jogando bisca e escopa comigo, escondidas da minha mãe, na garagem de casa, eu sonhava há muito tempo com esta viagem.

Milão é bonita. Mas não cativante. Duomos em geral não me cativam, por maiores que sejam. Tampouco galerias nem grifes. A única igreja que me tirou o fôlego até hoje foi a de Compostela, mas ainda não conheço Notre Dame.

Então gostei mais de Roma. Roma na qual achei um super brechó, Roma de becos e de praças imensas, Roma que foi até hoje minha melhor versão de museu: a historia ali, e você andando por ela, sentindo os sons, os cheiros, as pessoas, os gostos.  Lembrando do Joãozinho Trinta muitas vezes, se perdendo na multidão de arabescos, de rococós, de arcos romanos e góticos, naquele melê sensacional. Roma foi legal.

Firenze foi chic e limpa. Monocromática. Elegante. Tudo que me diziam que quem era, era Milão, foi Firenze pra mim. Questão de gosto.

Venezia de perder o fôlego. Literalmente. Comecei a ficar doente lá. Mal tinha fôlego pra subir e descer nas pontes e becos. A custa de muito “paracetamolo” fui me agüentando e admirando Venezia. E dançar num palácio veneziano foi inesquecível, apesar da febre.

Bologna, a cidade avermelhada. Nada a ver com posição política mas com a cor das suas casas. Variações em terracota. Conheci melhor o hospital geral de Bologna do que a cidade propriamente, mas no dia em que pude, andando a pé ou de bicicleta, adorei a cidade vermelhinha.

A Toscana, um mimo. Uma Mantiqueira medieval. Uma maravilhosa descoberta. Siena, Gimignano, Assisi, Perugia, umas mais, outras menos, todas cidades encantadoras.

Verona, no Veneto, meu xodó. Recomendarei sempre. Uma Roma sem sujeira, com ruínas inteiras, becos na medida, bastante verde, gente simpática, e, é claro, o charme, verdadeiro ou não, dos amantes de Verona, Romeu e Julieta.

Nápolis um arrependimento. Suja, extremamente suja. Mas necessária pra chegar na Sicília. Perto de Nápolis, Sorrento, bonita, limpa, embora muito comercial pro meu gosto.

A Sicília uma surpresa maravilhosa. Palermo linda, trânsito decente, ruas larguíssimas e grandes jardins.  E montanhas e montanhas. E mar verde-esmeralda.

Erice uma cidade medieval lindíssima. E Agrigento e suas ruínas gregas. E Pirandello, é claro.

Pena não termos podido conhecer mais da Sicília. Mas foi bom. Ficará sempre um motivo para retorno.

Uma viagem de sonho que se confirmou enquanto tal.

Agora é sonhar com a próxima.