minha vida não é um livro aberto

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Tenho telefone, celular, blog,e-mail,  facebook. Tenho vizinhos, parentes, família, bichos de estimação. Tenho fornecedores, carteiro, lixeiro, entregadores de jornal.

Mas tenho – e prezo – privacidade.

Telefone? Só para assuntos relevantes. Não gosto de conversar sem olhar nos olhos. Exceção para amigos que moram irremediávelmente longe. Aí serve até mail.

Celular? Só pra chamar emergência. Apenas duas pessoas têm o número e eu não sou uma delas. Não consigo decorar aquela desgraça que nunca uso.

Vizinhos? Damo-nos bem. Já troquei com eles açúcar, café, jornais e revistas, água e plantas. Bom dia e boa tarde também. Sempre.  Porém nenhum deles passou à categoria de amigo. Então fica nisso.

Meus parentes são discretos.

Sobra a internet. Já participei de chats ( tão antigamente, meu deus!) na época em que era moda participar de chats. Já participei de fóruns. Mantenho um blog desde 2004 e sempre assino o que escrevo com meu nome e sobrenome.

Não tenho o que esconder, seria minha vida um livro aberto?

Não é. Mas sou eu quem decide que páginas devem ser lidas.

Já me custa muito o arrependimento por palavras que não deveriam ter sido ditas, não vou acumular o arrependimento por palavras que não deveriam ter sido digitadas.

Privacidade é bom, livre arbítrio é melhor ainda e se não quero saber das suas intimidades, tampouco revelo as minhas.

Internet. Um meio, não uma mensagem.

nossa senhora das tomadas

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 Dizem que este era um país católico. Em casa éramos. Fui batizada, crismada, primeiro-comungada e casada em igreja católica. Não fui, porém, mais do que a 3 ou 4 missas em toda a vida, alguma das quais em velórios ou casamentos. Assim éramos católicos, lá em casa.

Quando eu ia dormir, no mesmo quarto com minha avó enquanto ela foi viva, rezávamos – ela rezava e me fazia repetir – o Pai Nosso em italiano. Um ritual que me fazia adormecer antes do amém final.

Minha mãe lembrava-se de rezar quando chovia forte com trovoadas. Aí ela se enfiava no quarto escuro, ajoelhava-se ao lado da cama e rezava com todo fervor. Ela morria de medo de chuva com trovoada. A mim, mandava ficar embaixo da mesa da cozinha. Não sei por que, mas ela achava que se caísse um raio em casa, a mesa da cozinha iria me proteger.  E também cobria espelhos com panos. Ela nunca foi a missas, mas as chuvas de verão reafirmavam nela a fé pragmática.

Mas apesar dessa religiosidade de mentira, de aparências, havia, na minha e na maioria das casas que eu conhecia, a religiosidade exposta em símbolos. Em casa tínhamos uma enorme Santa Ceia na sala de jantar. Perceberam a conexão? Ceia, jantar, tudo a ver…

Na casa da minha tia, na qual eu passava algumas férias, havia na sala um enorme quadro de Jesus, aquele de cabelos compridos e levemente ondulados, dando alguma esmola para uma criança ajoelhada. E na moldura um coração quase em tamanho ( mas não forma) natural, vermelho. Eu tinha um certo medo, procurava não olhar.

Mas nessa mesma casa, no quarto, havia uma coisa primorosa: uma nossa senhora dentro de uma redoma de vidro, verde-clara, que brilhava no escuro! Quantas noites não adormeci olhando pra ela!! O mesmo fenômeno físico daquelas primeiras tomadas de luz que brilhavam no escuro. Que eu também gostava de olhar em horas de insônia.

Na casa de uma amiga nossa, japonesa e católica fervorosa, uma nossa senhora no quarto, daquelas de manto azul bordado, de uns 40 cm. Um manto de pano, bordado com linha dourada. Lindão, eu achava. Muito melhor do que o Buda risonho que havia no quarto do marido dela (eles dormiam separados, como separados viviam, embora juntos. Coisas de antigamente)!

Não sei se a fé precisa de símbolos. Mas o ser humano precisa de concretudes, eu sei.

Agora recordar com carinho só mesmo aquela imagem que brilhava no escuro, de camelô. Adoro coisas que brilham no escuro, sejam santos ou olhos de gato de estrada…

Sim! Meu relógio também brilha no escuro!!

não nasci pra faquir

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Houve uma época, remota, devo dizer, em que era moda aparecerem faquires. Uns sujeitos que ficavam sem comer um montão de tempo, em urnas de vidro, muitas vezes com cobras junto ou deitados em cama de pregos.  Eram uma atração por onde passassem. Por que? Não sei.

Eu era garotinha e também prestava atenção neles quando apareciam na televisão. Ao vivo mesmo nunca vi, mas pelo que lembro, ficavam expostos no centro da cidade.

Eu não entendia na época porque alguém, sem necessidade, ficava sem comer. Porque alguém não dormiria numa cama, por pior que fosse, enfim, essas coisas que as crianças não entendem e que alguns, como eu, continuam não entendendo, embora já bem longe de serem crianças.

Quando pari meus filhos, ambos de parto natural, berrei o quanto pude, apesar das argumentações idiotas de médicos e enfermeiras de que eu, ainda mais sendo psicóloga, devia me controlar. Houve até uma enfermeira oriental que veio me dizer que as mulheres orientais não fazem o escândalo que  fazem as ocidentais. Bom, a última coisa que me interessaria naquele momento era qualquer competição oriente versus ocidente. E só não respondi a altura porque eu sou escandalosa, mas educadinha.

Acabo de fazer um exame, daqueles que os médicos acham que a gente, passados os cinqüenta, tem que fazer.  Um exame em que eu deveria apagar totalmente, mas não apaguei. Em que eu deveria me comportar, mas não me comportei. Em que a agulha no meu pulso não devia doer, mas doeu. E eu chiei.

E dá-lhe enfermeiras me fazendo cara feia, dando exemplos edificantes de gente que fica dócil e quietinha. Não eu.

Não posso, não quero, nem pretendo me acostumar com dor. Dor dói, essa é a verdade incontestável. E dor é ruim.

Então, os faquires que me desculpem, as mulheres orientais( se é que essa história era verdadeira) e as enfermeiras que adoram dar sermões também, mas eu vou continuar reclamando. 

Sofrer calado é coisa de estóico. E eu estou mais pra histérica, salve, salve!!  

 

rua indiana, 529

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Em 1955 a gente se mudou para o Brooklin. A primeira casa efetivamente nossa, não alugada. Feita devagar, na velocidade lenta em que se podia guardar algum dinheiro.

Mudamo-nos com a casa ainda por terminar. Guardo nas costas, até hoje, as marcas de uma queda de andaime, brincando de super-mulher voadora. Nem super-mulher, muito menos voadora, mas ninguém me avisou.

E nessa casa, nos fundos de um terreno comprido, de 50 metros, estava ela, a garagem.

Pra que garagem, perguntou minha mãe, a segunda mulher mais pragmática que conheci, se a gente nem tem carro? ( a primeira sou eu, modéstia a parte).

Ora, um dia pode vir a ter, disse o homem mais sonhador que conheci, meu pai.

Nunca tivemos, ou melhor, ele nunca teve, enquanto viveu. Mas a garagem foi feita. Compridona, dava pra guardar dois carros de comprido ou um ônibus. Escondida, da rua mal se via.

Garagem fazia parte da área de serviço da casa. Havia o quarto de empregada, um banheiro, a lavanderia e a garagem, nessa ordem de importância.

Quanta coisa não se fazia numa garagem!! Na nossa eu e minha avó nos escondíamos pra jogar cartas. Eu brincava de teatro em dias de chuva. Meu pai guardava quanta tranqueira houvesse pra “ se um dia precisar”. Até um cabrito ganho foi guardado lá. Vivo e cagão, pra desespero da minha mãe. Que, devo dizer, assou-o com prazer quando chegou o natal daquele ano.

Nas garagens de antigamente faziam-se ensaios de banda. E bailinhos.

Consertavam-se carros, guardavam-se ferramentas, o carrinho do bebê já adulto, pneus velhos, varas de pescar, bicicletas de todos os tamanhos.

Nas garagens de antigamente, com porta, é claro, guardavam-se até mesmo carros. Escondidos dos olhos da rua, não por medida de segurança, mas por medida estética.

Carro naquela época era só para transportar pessoas. Não pra ser exibido.

Hoje quando vejo nas casas, bem na frente, um monte de carros, muitas vezes de valor maior do que a própria casa,  e leio que a velocidade média em horários de pico ( todos, na realidade) é igual a velocidade de um bom pedestre, me ponho a lembrar com saudades daquelas garagens. Que botavam os carros em seu devido lugar: lá nos fundos, junto ao carrinho de pedreiro e aos baldes de lavar quintal. Junto àquelas coisas que nos facilitam a vida mas não são o ponto central.

Bobagem. Estou é ficando velha, com certeza.