sentindo um cheiro…

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De uns muitos anos pra cá, não sinto cheiros tão bem como já senti. Culpa de uma rinite que me acompanhará até o túmulo, não tenho dúvida.

Mas não é de túmulos que quero falar, é de cheiros, embora túmulos tenham um cheiro também, na minha memória. Cheiro de vela queimada, de mofo, de umidade. Pelo menos o túmulo da família, no cemitério da Lapa. Não gosto daquele cheiro, muito menos daquele túmulo e tampouco da morte, mas são todos inevitáveis, como minha rinite.

Existem certos lugares que conheço – apesar da rinite – pelo cheiro. Um é o Gato Negro, um misto de café, doceria e venda de condimentos que existe em Buenos Aires. Um cheiro delicioso de tudo isso junto, de condimentos raros, de coisa antiga, de ancestralidade, sei lá. O café não é nada especial, nem as tortas, mas vale a ida lá só pelo cheiro. Não fosse o garçom – argentino – estranhar meus modos, iria lá só pra cheirar. No sentido saudável da coisa.

Outro é o cheiro da Kopenhagen.  Esse sim, cheiro de bom expresso e de chocolate. Um cheiro quente. Não gosto de ir lá no verão. O cheiro do lugar esquenta.

Há também o cheiro de domingo quando maridão resolve cozinhar. O domingo começa uns dias antes, na escolha dos pratos, na compra dos quesitos e no dia anterior, já nos molhos e vinhas onde as coisas vão marinar. A casa fica uma delícia. Deviam vender esse cheiro em spray, ao invés de venderem  sprays com cheiros de lavanda e pinho. O cheiro de boa comida é a coisa mais aconchegante que conheço. É também o cheiro da casa da minha mãe, nos natais. Boa comida feita em casa com esmero. Eita cheiro bom!

Agora tem o lado negro da força, se é que me entendem. Os cheiros ruins.

As escadarias da Av. Nove de julho, no centro. Só de nariz tampado.

Cheiro de cabeleireiro. Um cheiro de química, de formol, de perfumes e esmaltes. Cheiro nauseante.

O cheiro de açougue. Cheiro de sangue e ossos. De tripas e couros. Cheiro de morte.

Cheiro de banheiro químico de show, depois de uns 2 ou 3 usuários.

Cheiro de diesel queimado, na fumaça dos caminhões na estrada.

Cheiro de ovo podre.

Pensando bem, tem mais cheiro ruim do que bom nas cidades. Ao contrário do campo onde até bosta de vaca, em dia de sol, cheira bem.  O rio Pinheiros e o Tietê não me deixam mentir. A gente aqui, nas grandes cidades, está apodrecendo.  

Em Brasília muito mais.

Mas podridão moral não cheira.

  

capivara

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Fico com uma inveja muito grande das pessoas que têm um rio pra admirar, fotografar, simplesmente olhar.

Das pessoas que têm um lugar que lhes acompanha durante a vida. Que elas, ao crescer e ter filhos, possam trazê-los um dia e dizer: olha, que lindo, desde a tua idade eu aqui vinha…

Eu já não tive. Lugares, só de ouvir contar. A Castelabatte de minha avó, pra onde breve irei, sabendo que não é mais a da minha avó, a Atibaia do meu pai, até o rio Tietê da minha mãe, quando limpo e palco de regatas, vejam só!

Eu admirei o rio Pinheiros, quando, aos domingos, a família ia em peso, depois do almoço e de serem expulsos da cozinha por minha mãe, pra caminhar. Já devia ser sujo, mas não há comparação. E, sobretudo, não havia Marginais. Apenas um rio, com uma trilha de terra, nas duas margens. 

Meus filhos não acreditam. Nem que ele foi só um rio que corria, nem que eu o conheci assim. Às vezes, nem eu mesma acredito.

Mas queria ter um lugar pra deixar de herança.  Um recanto pra pensar, pra descansar.

Não precisava ser meu. Não sou territorialista. Mas que se mantivesse, resguardado em seu frescor.

Tudo que já tive, que ao menos de longe se assemelhasse a isso, virou pó. Depois concreto. E sujeira, muita sujeira.

Não posso pensar na vida nas Marginais. Não há vida nas Marginais.

Minto. Há. 5 ou 6 capivaras, ali perto da ponte da João Dias que insistem em viver.

Eu sei porque já andei a pé por ali. Em meio das garrafas pet, da sujeira, das plantas empoeiradas, sufocadas pela poluição. Só as capivaras.

Como eu gostaria de ter um rio…

Na outra encarnação, quero vir capivara.

Porque o rio passa.

Mas elas, elas ficam.

 

pedaços articulados de mim

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Meus joelhos.

Não são bonitos. Pior que eles só cotovelos, mas esses a gente nunca vê.

São grandes. Bom, os meus são grandes. Já nasceram assim. Combinados com coxas finas, parecem maiores.

Vivem esfolados.  Na fase engatinhante, tinham motivos. Depois houve a fase “andante em muros”, o que também estragou um pouco mais.

Na fase seguinte, a alegro moderato dos adolescentes, uma ou outra queda na pressa de chegar logo aos lugares. Fui uma adolescente apressada, mas quem não foi que atire a primeira pedra.

Daí, quando se chega na idade do juízo, as batidas em móveis e objetos passaram a torná-los uma coisa assim, como direi, grande e permanentemente arroxeada. Nunca fui boa de fazer curvas a pé, quer seja rodeando mesas, camas, escrivaninhas. Ainda bem que com carro eu faço curvas bem e, afinal, carro não tem joelhos…

E agora, na fase da paz de espírito e sabedoria, quando meus joelhinhos deviam ter um merecido descanso, eu aprendi a andar de bicicleta. Umas tantas quedas, e voilá! Eis que os joelhos voltaram a sua antiga cor roxa.

As casquinhas eu cubro com base de rosto, os cortes com bandaid cor de pele, passo em cima de tudo um pouco de pó e pronto! Nada que uma meia arrastão não cubra, na hora do tango.

E quer saber? Adoro meus joelhos! Roxos ou pretos, me acompanham nos pivots, nas caminhadas, nas trilhas. Nunca me deixaram na mão. Digo, nos joelhos.

Não são bonitos. Mas funcionam bem.

Já os cotovelos…sei não, ultimamente têm me dado alguma dor de cabeça…

Não são os meus. Mas poderiam ser…

testemunha ocular

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Dizem que a gente tem memórias e reinvenções de memórias. Eu acho que a gente tem mesmo reinvenções.  Parece tudo muito real, você jura que aconteceu daquele jeitinho mesmo que você lembra e aí vai checar com alguém – as famosas testemunhas oculares da história – e percebe que a coisa não foi bem assim.

Tá, as testemunhas oculares da história também processam suas ( delas e nossas) memórias. E também podem devolver, quando questionadas, memórias distorcidas.

Bom, de qualquer jeito, a gente tem que acreditar em alguma coisa. Distorcida ou não. E não, desta vez não estou falando de política ou religião, embora…deixa pra lá.

Estou falando do namorado da minha prima.

Moreno, um lindo sorriso, meio pra gordinho, mas daquele gordinho charmoso, que agrada ao olhar, se você não for das mais exigentes.

E eu não era.

Tinha uns seis anos e passava as férias na minha tia. Mãe da minha prima. Aquela do namorado bonitão.

Ele morava duas casas na frente da casa dela. À esquerda, de quem olhasse a rua de costas para a casa da minha tia.

Ele gostava de dançar. Tanto que nos bailinhos da tia, que costumava tirar tudo da sala pra ajeitar o “salão”, ele vinha e dançava.

Ele me paparicava com sorvete, pirulitos e balas. E sempre me fazia perguntas sobre a prima.

Eu adorava ele. E fazia o maior esforço que podia, aos seis anos, pra minha prima dar mole e namorar o moreninho vizinho, minha fonte  de petiscos.

E ela dizia que ia topar.

Daí eu voltava pra casa, ao fim das férias e não via mais a prima e seu pretendente.

Até o dia em que ela casou com o vizinho da frente!

Não, não o moreninho simpático dos petiscos, duas casa na frente, à esquerda.

Com um magrela alto, feioso e carrancudo, duas casas na frente à direita.

E ainda por cima ela me afirma, mais de cinqüenta anos passados, viúva, que nunca, em momento nenhum, namorou o simpático.

Que nem mesmo lembra de alguém assim.

E eu posso com isso?

o essencial

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Meu começo de vida a dois não cabia numa Kombi. Nem num Opala. Mas coube num caminhãozinho, desses de antigamente, aberto, de madeira nas laterais da carroceria. Um típico caminhão de feira, dos pequenininhos.

Uma geladeira vermelha ( última moda na década de 70), uma mesa para quatro, mandada fazer imitando as mesas da Hobjeto ( que móveis !) e dois bancos, um colchão de molas (durou menos de um ano, as costas reclamaram), meu guarda-roupa de solteira, de duas portas, mais minha cômoda, pintada em azul e branco, meu espelho, dois abajures e nenhum criado-mudo, minha estante do quarto, da qual foram serrados os pés e pintada de laranja, pra modernizar. Pequena, também.

E foi só. O pequeno enxoval, com roupa de cama, mesa e banho, mais minhas roupas e livros, mais umas duas panelas velhas e seis pratos rasos e seis fundos, vindos da casa da minha mãe, foram trazidos em algumas viagens do nosso fusquinha.

Depois dessa primeira mudança, mudei só mais duas vezes.

Faz 34 anos que estou na mesma casa. Meus filhos nasceram e cresceram aqui. Às vezes, geralmente depois de um assalto, sou acometida pela “pontada” da mudança. Mas é só uma pontadinha, daquelas leves. Passa logo.

Um caminhão grandão não seria suficiente pro tanto de livros, discos, plantas e objetos em geral que a gente acumulou pela vida afora.

Mas pra mim bastava um colchão no chão, duas panelas, seis pratos e algumas roupas.

O começo de nós dois trouxe só o essencial.

Um amor que permanece por 41 anos e algumas tranqueiras pra manutenção da vida.

E que, tirando o grande amor que não cabe em lugar nenhum, caberia sempre num pequeno caminhãozinho.

Antenado e com a casa às costas! Eu só dispensava o rastro melequento…