como assim?

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Existe a dúvida shakesperiana, do to be or not to be.

Existem muitas outras dúvidas não tão radicais, que questionam a forma da existência mas não a existência em si e existe em mim uma dúvida animal. Sou gente ou sou bicho?

Tá bom, apelidos infantis não valem, assim que meu pai ter passado boa parte da minha vida – e da dele- me chamando de corujinha não vem ao caso.

Minha mãe ter passado também outra boa parte das nossas vidas, minha e dela, me acusando de espírito de porco acho que também não vale.

Mas dão o que pensar.

Meu irmão dizia que eu era teimosa como uma mula – por sorte poucas vezes em nossas vidas- e era corroborado por outras pessoas.

Meu marido quando me vê saindo de lojas em que eu gostei de alguma coisa mas não gostei do preço dessa alguma coisa diz que sou mão de vaca.

Quando olho alguma coisa à distância e não vejo, embora o mundo todo veja, dizem que sou míope como uma toupeira, mas quando enxergo um brechó a km de distância, escondido em meandros obscuros, alguns dizem que tenho olhos de lince. Lince viciado em brechós, mas não deixa de ser lince.

Quando subo uma ladeira, acusam-me de tartaruga cansada, mas em compensação quando desço, sou uma ave pernalta.

Diziam, quando eu era menina, que comia como um passarinho. Hoje continuo comendo como um passarinho. Uma águia esfomeada, porém…

Minhas unhas são cascos, segundo as más línguas, que nunca quebram nem lascam. Benditos cascos!

Já meu paladar é o de uma hiena: aceita quase qualquer coisa.

Então, não é a toa que tenho dúvidas existenciais.

Ainda mais que eu, pessoalmente, me acho não um bicho mas uma flor…

eu chego lá!

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Não sou Terezinha de Jesus mas de uma queda fui ao chão.

Tudo pela maldita vergonha!

É o seguinte: estou aprendendo a andar de bicicleta. Comecei em dezembro e caí. Um estrago, mas não quebrou nada. Fiquei traumatizada e dei um tempo. Agora resolvi continuar. Não tenho tanto tempo assim na vida pra desperdiçar “dando um tempo”. É agora ou nunca, o Elvis não morreu e continua coberto de razão.

Mas tenho vergonha de, na minha idade, não saber andar de bicicleta. Então, quando o tiozinho da locadora de bicicletas me pediu, assim como quem não quer nada, que eu experimentasse aquela pra ver se o tamanho estava bom, eu experimentei.

A bicicleta e o chão de paralelepípedos.

Não gostei.

Mas vou continuar este fim de semana.

Sou teimosa. Uma teimosa toda esfolada mas ainda assim teimosa.

cocoricó urbano

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Aqui perto de casa havia um galo. E algumas galinhas. Moravam todos eles no jardim de uma casa térrea, há uma quadra daqui. E dormiam nas árvores. Meio esquisito, mas era assim.

De noite, ou madrugada, eu ouvia o galo. Ele acabava me acordando, mas como não sou galinha nem lhe devo ( a ele, ao galo) qualquer obrigação ou obediência, eu não dava bola e voltava a dormir. Nunca me atrapalhou, ao contrário, sempre achei o canto bucólico, me trazendo lembranças de noites outras passadas no campo.

Aqui, no meio desta cidade maluca, era um plus. Um toque non sense pra dar algum sentido nesta vida agitada.

Agora não estão mais lá. Nem ele, o galo, nem elas, as galinhas.

Como aquela história de fuga das galinhas é só um filme bonitinho, não creio que elas tenham fugido, embora pudessem. O portão da casa volta e meia ficava aberto e a gente, ao passar na rua, dava de cara com alguma delas tentando ciscar no asfalto, coitada.

Eu podia parar e perguntar aos donos da casa que fim levaram o galo e elas, as galinhas.

Podia, assim como podia estar matando, estar roubando, etc, etc, mas não acho que fique bem. Nem matar, nem roubar, nem o etc, nem perguntar numa casa que não conheço os donos, que fim deram aos seus galos e galinhas. Acho um assunto assim, como direi, muito pessoal.

Então fico fazendo o que mais gosto de fazer: imaginar.

Terão sido comidos num festim macabro?

Terá o galo virado afinal uma sopa muito da dura, depois de horas no fogo? Galo dá sopa, sim, mas leva um tempão cozinhando.

Terá se transformado num jantar refinado, um coq au vin?

Terão sido levados todos para um sítio, onde viverão felizes até que a panela os leve desta pra melhor?

Terão sido recolhidos pelo centro de zoonoses, alegando que galinheiro no Morumbi, só no sentido figurado?

Quem sabe?

Mas sinto falta daquele cocoricó de madrugada. Eu me sentia feliz em poder virar pro lado, pensar, que se dane o galo e voltar a dormir…

uniformes

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10 cm de pregas costuradas contadas a partir da cintura, nem mais nem menos. Bainha da saia na linha dos joelhos. Pregas com “fundura de 3 dedos” no mínimo. Blusa de fustão branco, com bolso bordado em ponto cheio com o nome da escola. Meia ¾ branca e sapato de amarrar marrom.

Esse era o uniforme da minha escola, mandado fazer, com detalhes rocambolescos. Na primeira série foi assim, realmente. Tudo como mandava o figurino. Afinal, a escola era muito boa, tinha sido difícil entrar, tal a disputa, e minha mãe queria fazer tudo direitinho. Ah, e a saia tinha que ser de sarja ( e dane-se minha alergia de sempre a coisas piniquentas!).

Eu tinha 12 anos. Entrando na adolescência, que naquela época começava mais tarde. Ainda não tinha corpo muito diferente de um menino, afora as diferenças básicas, é claro. Nada de peito, nada de cintura, nada de coxa.

Mas a gente cresce. No anos seguintes cresci mais de 10 cm, menstruei, criei um pouco de corpo. Não muito, que era magra de fazer dó, mas um pouco, o suficiente para não ser mais confundida com garoto. A saia da escola era enrolada várias vezes na cintura, assim que saíamos dela, de forma a ficar do jeito que a Mary Quant  gostava: no meio da coxa.  Os sapatos eram mocassins – afinal, quem vai usar Oxford marrom? – as meias soquetes bem baixas, os olhos carregados no cajal preto e os soutiens, pelo menos os meus, com bojo, muito bojo, pra suprir o que a natureza me negara em quantidade.

Uniformes? Eu odiava. Só gostava mesmo de bombeiros, de polícias rodoviárias, de almirantes da marinha, das sainhas das tenistas da época, de enfermeiras e chefes de cozinha.

Odiar uniformes? Bom, eu odiava o da escola.

Com o tempo e a idade, parei de ter fixação em uniformes fetichistas. Já não suspiro com as roupas dos bombeiros, os policiais rodoviários de hoje são barrigudos e mal encarados,  as tenistas usam uma roupa muito da esquisita e enfermeiras e chefes usam umas roupinhas brancas feiosas.

Odeio uniformes!

Mas todo sábado e/ou domingo de milonga boto ( eu e a torcida do River) meus vestidos pretos com fendas laterais, minha meia arrastão, meus sapatos de pulseirinha, minhas blusas com brilho. E dá-lhe tango!

Uniforme? Alguém aqui falou em uniforme?  Odeio uniformes…

Onde estou? A primeira da esquerda  pra direita, na fila de baixo.

eterno aprendiz

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Às vezes a gente aprende coisas de fora pra dentro;  coisas do ponto de vista filosófico que acaba trazendo pra vida; coisas do ponto de vista ético e moral que incorpora no dia a dia, enfim, são muitos e variados os caminhos da aprendizagem humana, para o bem ou para o mal, que aprender é aprender e só. O que a gente faz com o que aprende são outros quinhentos.

Aprendi um montão com minha avó, contadora de causos e estórias; com minha mãe as primeiras letras; com meu pai o gosto por livros, por tango, por palavras cruzadas, por trocadilhos até.

Com meu irmão o gosto por desenho, por MPB, por música triste de fossa, de Maísa a Lupiscínio.

Com meu irmão maior, com quem tive menor convivência, o gosto por blues, acho. E por piano popular.

Mas aprendi muita coisa por vias transversas. Não pela imitação mas pelo oposto. Tipo : nunca vou fazer isso. Não quero ficar igual a fulano ou beltrana. Essas coisas.

E aprendi algumas coisas com a vida. Coisas que me ensinaram com um intuito e que eu acabei por usar de distintas maneiras.

Aprendi a gostar de me desfazer de coisas. Costumo doar de roupas a objetos com muita facilidade. Não é desprendimento. É que gosto de coisas novas. E o espaço não é grande. Sendo assim, passo adiante. Só não consigo com livros e discos.

Aprendi a cozinhar vegetariano porque não achava, quando precisei, nenhum livro decente do assunto. A necessidade é boa professora.

Aprendi a dançar pra não chorar. De novo, a necessidade encaminha.

Aprendi que no amor não há regras. Sendo assim, criei as minhas próprias como se fosse a primeira mulher do mundo. Porque, afinal, eu gosto de regras.

Aprendi que sozinha eu posso muito pouco, mas sou uma fortaleza acompanhada de quem amo.

Aprendi que o ar não falta. Minha claustrofobia é que sobra. Mas que tudo, tudo mesmo, tem um fim.  Mais dia, menos dia.

Aprendi que é possível aprender sempre. E que isso, a aprendizagem de coisas novas, é o melhor rejuvenescedor que conheço. Melhor que plástica, melhor que botox.

E que aprender me dá medo.  Uma bruta dor de estômago. Mas que passa. E o aprendizado fica.

Aprendi que é possível ser feliz o tempo inteiro. Mesmo quando a gente não percebe que está sendo.

E aprendi que doce de leite e pistache combinam pra caramba!