design e desígnios

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Gosto de coisa bonita, quem não??

Gosto de moda, de decoração, de arquitetura, gosto de design.

Mas tudo tem limite. Até o design, embora alguns arquitetos e estilistas possam não achar.

Canecas, copos e xícaras quadrados. São lindos. Já tive copos assim. Saem da mesmice, cabem melhor nos armários, agradam aos olhos.

Até lavá-los. A sujeira fica ali, nos cantinhos e não há cristo que tire. Nem reza brava. Você gasta a esponja e os dedos ao tentar limpar ali. E daí faz como eu, desiste. Porque mais do que copos lindos, gosto de copos limpos.

Botas de amarrar, ou coturnos. Também acho lindos, tanto que tenho um e já tive mais. Toda vez que pensava em usar, pensava também no tempo que levaria pra amarrar o cordão. Desistia e passava frio. Até comprar uma bota lisa, de zíper.  Mudou a minha vida.

Bancos e cadeiras originais. Desses com 3 pernas ou sem encosto, feitos de madeiras de demolição, patinada pelo tempo ou pelo designer. Lindos. Não pra sentar.

E por aí afora.  Parece que falta aos designers o teste final, o do uso. Ou o do bom senso. Já vi anúncios de TV em Box de banheiros, pra você assistir enquanto toma banho. Eu não consigo lavar cabelo e cara com olho aberto, que dirá assistir TV! Bom, pode ser incapacidade minha, mas não sei não…

Vestidos  tomara que caia. Qual mulher usando um já não levantou e automaticamente teve que puxá-lo pra cima antes que a profecia do nome da roupa se concretize?

Relógios de pulso das mais variadas formas? Já vi gente na rua torcendo a cabeça pra ver as horas em seu relógio octogonal ou hexagonal, daqueles com um número aqui e outro bem longe, tão longe que você perde um bom par de minutos calculando se serão 3, 4 ou 5 horas..

Já tive um anel, que eu mesma comprei num impulso, lindo, original e grande que não me permitia dobrar o dedo!  E um vestido que tive que chamar a vendedora pra mostrar como se vestia.

E, já que esse é um blog em que gosto de lembrar coisas de criança, já tive um pijama que não me permitia ir ao banheiro!

Mas esse não foi culpa do estilista. Foi culpa da minha mãe, que me vestiu ao contrário e a abertura traseira  (era daqueles inteiriços, de criança) ficou na frente.  Diz minha mãe, já que eu era pequena demais, que eu a acordei chorando dizendo que não conseguia fazer xixi…

Ah, esses estilistas e essas mães distraídas…

o muro da dona Carolina

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No começo eram só as nossas duas casas, a nossa e a da dona Carolina. Um muro que não era muro. Uma cerca de arame farpado.

Mudamos com a casa ainda sendo construída, meus pais, minha avó, meu irmão do meio e eu. Nenhum bicho, que nunca me foi permitido.  Até me darem aquela tartaruga, aquela chata da Raquel, que eu não queria nem ela tampouco a mim, tanto que fugiu na primeira oportunidade, mas isso são histórias já passadas e contadas.

Com a finalização da casa, foi feito um muro. De dois metros de altura. Um belo muro, largo como eram os muros de antigamente. Onde eu pude treinar meus dotes de equilibrista. Pena que não treinei o suficiente, desequilibrada que continuo sendo, até hoje, mas isso também são histórias que não vêm à crônica nem ao caso.

Mas dona Carolina era mineira. Das boas. E minha avó era italiana, do sul da Itália. Das boas.

Não podia haver muro entre elas. Conversar aos berros sem se ver? Pra minha avó, napolitana, podia ser. Mas não pra dona Carolina, mineira mansa, de conversa baixa.

Fez-se então a luz! Não exatamente a luz, mas um portão entre as duas casas. Que me servia pra visitar o galinheiro da dona Carolina e seus cinco cachorros, carente que eu era de bichos.

Que me servia pra filar a bóia na vizinha e ser apresentada ao quindim, ao sagu, aos doces de tacho.

Com o tempo, novas casas surgiram na rua. A rua foi asfaltada. Minha avó foi ficando mais velha e sossegada, com as pernas mal lhe permitindo ir ao sol, voltar do sol.

O portão foi fechado e murado.

Dona Carolina mais quieta. As galinhas foram comidas. Os doces rarearam. Os cachorros trancafiados em canil. O quintal de coradouro de roupas e galinheiro livre, cimentado pra “facilitar a limpeza”.

E eu, bom, eu cresci.

Mas não esqueci.

sacolinhas

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Leio que está por ser aprovado, talvez até o final do ano, o fim das sacolinhas plásticas de embalagem.

Está certo. Nem discuto a medida, mas vendo que os supermercados cobrarão pelas futuras sacolas – ecologicamente corretas- me pergunto se todo o lucro que eles têm não seria suficiente para fornecerem sacolas…mas eu vivo me fazendo perguntas das quais sei as respostas, infelizmente.

Aí começo a lembrar as “embalagens” da minha vida.

Fui garota de recados, como todos da minha geração, dos 6 até a minha rebeldia, mais ou menos com uns 12 anos. Era um tal de ir comprar coisas na padaria, no açougue, na farmácia, na papelaria…

No açougue as carnes vinham embrulhadas num papel cinza, grosso mas não o suficiente pra agüentar a distância da minha casa até o açougue. Até porque no meio do caminho havia não uma pedra, como dizia o poeta, mas um atalho no mato cheio de framboesas…a entrega da carne em casa demorava. E eu chegava fedendo a sangue, com as mãos molhadas, o papel vermelho como a boca, mas por motivos diferentes.

Na padaria o  papel de embrulho era bege. Fino e quase transparente, mas pão é seco, ainda bem. Ele chegava em casa sem as pontas, que eu adoro comer ponta de bisnaga. Mas quem mandava me mandarem aos mandados?

Na papelaria o papel era rosa.

E na quitanda não havia papel nenhum. Eu levava uma sacola de feira de antigamente, de lona. Lá eram postas as batatas, os pimentões, os tomates, tudo junto. Saco de plástico naquela época? Nem pensar. Eles já existiam, que eu nem sou tão velha assim, mas não na forma “sacolinhas”.

Na peixaria nem papel especial havia. Era jornal. Dobrado com uma perícia e velocidade espantosas pelo atendente. Peixe que eu levava pra casa rapidinho, mantendo longe do corpo e do meu nariz, nojo que tenho de peixe desde criança.

Já nas compras feitas no centro, de roupas ou sapatos, havia papéis bonitos. Que eu guardava devidamente passados a ferro pra usar em algum trabalho de escola, pra encapar algum caderno.   

Agora temos o fim das sacolinhas. Tenho que pensar no que fazer nas latas de lixo aqui de casa. Não tem sentido comprar sacos plásticos pra não gastar sacos plásticos, se é que me entendem… bom, alguma saída há de ter.

E nas lojas, como há muito tempo já uso uma super bolsa, não fará nenhuma diferença. É só botar as compras no sumidouro que é minha bolsa e pronto.

Então tá certo. Ecologia é bom e eu gosto.  Mas algo me diz que supermercados cobrarem 0,19 por sacolinha daqui pra frente não é uma medida ecológica. Tem outro nome isso, né não?

concentração

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Se concentração fosse natural, o ser humano não ia ter que inventar tics nervosos, rituais, escrever infinitos livros de auto-ajuda, buscar ajuda de pedagogos e terapeutas, manter times de futebol enclausurados – mais ou menos- tudo pra criar e manter a concentração.

Eu confesso ter grande dificuldade. Não exatamente em me concentrar, mas em me concentrar em APENAS uma coisa. Sou uma pessoa de concentração diversificada, pra não dizer totalmente distraída. Assim, busco também eu nos tics e rituais ajuda pra manter o foco.

Eu boto a língua pra fora. É feio, é ridículo na minha idade, chega a ser nojento além de totalmente molhado. Mas eu boto a língua. E tem que ser de lado, se botar pelo meio não concentra legal.

Eu como caneta. De preferência a ponta azulzinha daquela famosa marca que eu não vou fazer propaganda aqui que ela nem me paga nada pra usá-la nem comê-la…

Como também lápis, mas menos porque uso menos lápis.

Como lateral de dedo. Dos meus, antes que alguém me acuse de canibalismo. É só autofagia.

Coço a cabeça, os olhos, as orelhas, a rótula, meu dedo indicador da mão esquerda. Em parte para concentrar, em parte por conta de rinite. Quando estou em ambiente empoeirado e ainda por cima quero me concentrar a coisa fica difícil.

Não posso ter nada barulhento por perto se estou estudando ou escrevendo. Cachorro latindo, música que não seja orquestrada, televisão ligada, celular que toca, telefone que toca, gente falando.  E, pior que tudo, moto acelerando. E ninguém tente falar comigo. Perco completamente a concentração.

Também não posso estar com fome. Não sei qual a ligação do estômago com o cérebro, mas com fome não dá pra concentrar. A não ser que seja concentrar em comida.

Então é isso. Se fosse natural do ser humano…mas não é. A gente é bicho carpinteiro, a gente é curioso, a gente é fuçador.

Não é a toa que a gente é parente próximo do macaco!

E agora chega. Porque um infeliz tocou minha campainha, aquele lindo e pesado sino que eu arranjei  pra campainha.

Concentrar, quem há de?

precisar não precisa…

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Dá pra viver a vida com muito pouco. Comida e água, basicamente, e um pouco de roupa, que o ser humano perdeu o pelo há muito tempo. Ficou assim, pelado e sem proteção. E o resto – uma titica – de pelo que sobrou, ele tira no salão. Uma pena, eu digo. Acho homem peludo um charme, mas sou minoria.
Comida básica é aquilo que nos dá energia. Energia pra fazer as coisas do dia a dia. Umas poucas calorias balanceadas dariam conta do recado, porque o recado hoje em dia é diminuto, pra grande maioria da classe média. Ninguém mais corta lenha, caça bichos com as próprias mãos, enfrenta feras.
Eu, pra queimar umas poucas calorias mais, ainda lavo, passo, cozinho, varro, esfrego, crio plantas e cachorros, corto gramas, planto e podo. E ando, ando, ando. E flexiono, flexiono, flexiono. E danço, danço, danço, danço, danço, danço… Tudo isso pra comer um chocolatinho aqui, um queijinho acolá.
Então eu preciso de pouco. Verdura não é caro, arroz integral também e fruta da época dá pra encarar. Pra roupa tem o brechó, que permite variedade sem custo alto.
Condução é gratuita na minha idade , teatro e cinema meia entrada.
Então eu não preciso de mais nada. A saúde é legal, La vita é bela, como diria o chato do Benini, e a gente vai levando.
Eu não preciso de mais sapatos de tango.
Então por que cargas dágua comprei mais três?
Porque o ser humano é complexo. E a alma humana tem seus meandros. E a vida é mais do que o ser ou não ser shakesperiano.
Ou porque, como diz uma tanguera : os parceiros de tango formam um ser híbrido, com quatro pernas e um só coração.
E cá entre nós, seres híbridos de quatro pernas precisam de um monte de sapatos de tango, né não??