quatro dedos martelando

Standard

A primeira foi uma inglesa, acho, chamava Triumph. Tinha teclas pretas e as letras eram douradas. Ela toda era preta e dourada. Um luxo! Ninguém dava mais bola pra ela e eu aprendi a usá-la praticamente sozinha, depois que a encontrei jogada a um canto na bagunça da garagem. Trouxe pro meu quarto e comecei a bater. A bater. A bater.

Tanto que por vezes  rasgava a fita. Sim! As máquinas de escrever de antigamente – porque é disso que estou falando hoje –  eram movidas a …fita. Uma coisa de pano, com duas cores, uma azul ou preta e outra vermelha. Eram tantas as opções…! Você podia escrever em duas cores, mas não ao mesmo tempo. Bom, como eu martelava aquela máquina a ponto da fita enrolar, às vezes eu podia, sim, escrever em duas cores. A fita dobrava e saía uma mescla, pra não dizer uma merda, mas este é um blog decente.

Comecei a aumentar minha velocidade, mas nunca passei dos quatro dedos na digitação, quer dizer, olha eu dizendo bobagem, na datilografia, porque era assim que se chamava a digitação.

Depois de um tempo meu pai trouxe pra casa uma Olivetti grandona. Era maior que a anterior embora mais moderna. Eu mal agüentava. E dá-lhe martelar na máquina. Eu só não fazia as lições de casa na máquina porque as professoras não deixavam, mas fazia os rascunhos, o que chega a ser um contra-senso.

Quando cheguei à adolescência, ganhei de presente uma Olivetti Lettera, portátil ( embora também fosse grande e pesada) na cor laranja. Chiquésima! Eu já estava pronta pra ganhar um Nobel de literatura qualquer, pois ferramenta não me faltava… era o que eu sonhava.

Quando casei a Lettera foi comigo, como uma espécie de dote. Depois de uns tempos compramos uma máquina elétrica, essa sim, impossível de agüentar. Enorme! Mas não dependia mais de fita de pano nem precisava ser martelada até ficar com as pontas dos dedos roxas.

E depois….bom, depois vieram os incríveis computadores, os apples, os XT, aquelas coisas modernas e maravilhosas. Mas isso já é atualidade e este é um blog de quase recordação.

Quase porque minha memória não é lá essas coisas. Meu primeiro soutien já não lembro, mas minha primeira máquina de escrever é inesquecível!

a bomba

Standard

Já fui uma terrorista, devo confessar. Aliás, toda a família.

A começar da minha avó, aquela santa velhinha, que com uma bomba na mão fazia estragos. Meu irmão, que estabelecia parâmetros de competição de quem matava mais.

Eu, pequena, mas que sabia empunhar uma bomba. Mas por ser pequena ficava com o trabalho sujo: contar os mortos pelo chão.

Meu pai preferia métodos manuais,  ali, no mano a mano.

Flit. Bomba de Flit, já ouviram falar?

Era uma bomba de lata, composta de um cilindro no qual se punha veneno pra pernilongo ( e baratas e outras coisas voadoras, se bobear, acho que matava até passarinho desavisado)e se puxava um êmbolo, fazendo pressão e espirrando aquilo. 

Numa época em que ninguém sequer conhecia a palavra ecologia,  não lembro que veneno se usava, mas boa coisa não devia ser. Nem pros pernilongos e nem pra nós.

A gente se divertia com aquilo. A família inteira, moradores que éramos de um bairro hoje supervalorizado, mas na época cheio de terrenos baldios, muita rã e muito sapo sendo felizes nos charcos e laguinhos formados ali.

E a gente, apesar de não saber que raios queria dizia ecologia e achar que meio ambiente devia ser uma sala dividida por algum biombo, a gente apesar disso tudo, reciclava. E como!

Lembro que havia na cozinha um armário de aço pra guardar mantimentos. Cheio  de gavetinhas com os nomes dos mantimentos numa plaquetinha de latão ( que minha mãe fanática polia até brilhar), nomes como açúcar, farinha, feijão, arroz. Soltos assim nas gavetas porque a gente também os comprava soltos, no armazém.

E o tal armário horrorizava minha mãe, a fanática. A cozinha era toda branca, menos o armário, cinza como o aço dos escritórios. Daí que ela quis vê-lo branco. Pintado.

E meu irmão entrou em ação, o criativo: encheu a bomba de Flit de tinta e começou a pintá-lo. Depois de um tempo, até pegar a prática, todo mundo, tal como na história do Tom Sawyer, quis pintar a cerca de branco, digo, o armário de aço.

E assim foi que a minha mãe, a fanática, ficou feliz, a gente brincou, a bomba serviu pra algo mais além de matar e a gente reciclou!

Eita família de vanguarda…

caras, caretas e cabeceios

Standard

A gente começa no começo de tudo fazendo mesmo é careta.

Meus filhos faziam um montão de caretas. Aí eu me punha a interpretar algumas. Quando dava certo, tipo eles choravam e torciam a boca e eu achava que era dor de barriga e punha no colo de barriga pra baixo e o choro passava, eu, que sou sugestionável e altamente influenciável, passava a botá-los de barriga pra baixo cada vez que torciam a boca. E por aí a coisa ia. E a humanidade caminhava.

Minhas cachorras também. Quando me olham fixamente e a seguir olham fixamente na direção do portão eu acho que elas querem ir passear. Se é isso ou não, nunca poderei saber. O fato é que elas adoram passear na frente da casa.

Tenho um amigo que quando desvia o olhar, falando com a gente e começa a frase com : bom, então…. eu sei que aí vem explicação. Daquelas que envolvem um sermão. E um descontentamento com alguma coisa.

Eu mesma sei que deixo o olho pequeno se estou com raiva. Se estou com muita raiva ele quase fecha. Mas se eu estiver com raiva num dia de muito sol, mesmo quem me conhece ficará na dúvida. Eu também fecho o olho pra luz. Miopia e raiva andam juntas, eu poderia dizer, mas não digo.

Caras e caretas fazem parte do ser humano.   Muxoxos, biquinhos, piscadelas, franzir de lábios e de narinas.

Mas o maldito cabeceio, que os tangueiros porteños usam pra chamar a mulher pra dançar é muito pra mim. Muito sutil, muito rápido, muito disfarçado.

Vou ter que nascer de novo pra entender. Em Buenos Aires, de preferência.

Já pensou se eu interpreto mal e boto um tangueiro daqueles no colo dando tapinhas na bunda pro mal estar passar? Se fossem meus filhos era o que eu faria.

E já pensou se no fundo for isso mesmo ?

Eu, heim…?!

bolas de vidro

Standard

A primeira coleção a que eu tive acesso, foi de modo não honesto. E isso aos sete anos!

Explicando: meu pai “colecionava moedas”. Não moedas raras, do tipo do colecionador normal, mas moedas, de uso corrente. Ele até possuía algumas raras, algumas estrangeiras, mas meu pai não gostava de moedas. Não as usava, simplesmente. Então ia guardando em cestas de natal de vime, que minha mãe botava embaixo da cama deles e que nunca mais tirava de lá. Porque nem tinha força pra movê-las. Mas eu era bem pequena, aos sete anos. A mais baixinha da minha classe. E hiperativa. E adorava pipocas, mas nunca ninguém me dava moedas pra comprá-las do pipoqueiro que ficava estrategicamente na porta da escola. Logo…não dizem que a ocasião faz o ladrão?  Pois é, no decorrer do primário eu aliviei a coleção do meu pai de muitas moedas.  Não tanto que fizessem minha mãe ter força pra mover aquelas cestas de lugar, porém. Quando meu pai morreu, as cestas foram desmontadas e as moedas – totalmente sem valor e em desuso- vendidas a preço de banana- por peso. E meu crime, passados tantos anos já, anistiado.

Depois tive acesso a uma coleção dos homens da família: caixinhas de fósforos de papel. Não eram de madeira, como as caixas de fósforos de hoje, eram de papelão. Eram ganhas em hotéis, em restaurantes, e tinham propaganda do lugar. Em casa eram colocadas numa gaveta, todas juntas. Havia do Brasil e de fora.

Com doze anos eu comecei a fumar. Não tinha isqueiro, até porque fumava escondido. Vai daí…bom, a coleção de fósforos também foi aliviada de algumas dezenas de caixinhas. Como eu já era mais “ajuizada” tentava pegar as repetidas ou de pouca importância. Roubo, sim, mas com justiça.

Eu mesma tentei fazer algumas coleções, mas esbarrei em minha própria indisciplina e pouca paciência.Tentei colecionar botões e pedaços de pano de roupa que tive. Na época, a maioria das minhas roupas era feita por minha tia ou minha cunhada, em casa. Assim, sempre sobravam retalhos usados. Eu sonhava em ter, no decorrer da vida, um pedacinho de cada vestido ou saia usados.  Lindo sonho. Durou uns 3 ou 4 pedaços, acho. Menos de um ano. Mas era – ou seria – uma coleção interessante.

Também colecionei provérbios e cheguei a ter mil deles. Essa sim uma coleção de cunho antropológico. Eu infernizei por muito tempo meus parentes e vizinhos, investiguei em todas as enciclopédias a que tinha acesso, fiz um bom trabalho. Quando cheguei a mil provérbios e ditos populares, parei. Sei lá porque, mas achei que era um bom número. E já devia estar de saco cheio. Eu e a parentada infernizada. Daí, não sei como, meu livro de provérbios se perdeu.  E hoje vejo que existem a venda, nas livrarias, um monte de livros semelhantes.

Bom, espírito comercial nunca foi meu forte, mesmo.

Nos últimos anos, porém, tenho me dedicado a colecionar bolas de vidro. Snow globe, snow dome, ou que raio de nome tenham aquelas bolinhas cheias de líquido e uns floquinhos que imitam neve. A cena final do Cidadão Kane, lembram?

As que eu mais gosto são as de lugares visitados. De preferência por mim. Mas amigos e filhos me trazem de lugares visitados por eles. Tá valendo, é tudo família. O tempo passa e a coleção continua. Até eu estranho a constância.

Acho que envelhecer, além de rugas, nos traz paciência pra colecionar!

Pelo menos me estimula a conhecer o mundo todo, se eu puder. Uma bola e um tango, de cada parte deste mundão.  E vamo que vamo!!

 

de corujas e ciclistas

Standard

Quando o jogador deu uma corridinha, mirou e chutou com efeito “aquilo” que estava atrapalhando o jogo, presença indevida dentro de campo, acho que só queria mesmo tirar “aquilo” de cena.

Mas “aquilo”era uma coruja já mais pra lá do que pra cá depois de ter sido vítima de uma bolada de outro jogador, esta sem querer.

O chute “querendo” teve mesmo essa intenção. Não diferente do garoto que dá uma estilingada num pássaro e comemora a “pontaria” certeira, ao ver cair o bichinho.

Não, não são necessáriamente más pessoas.  Aprenderam que o homem é o rei dos animais, o único que pensa, o único que usa ferramentas, o único que teria alma e outras cositas do tipo.

Enfim, o homem é o único.

Esse o problema.

Nem o homem é o único nem estamos sós nesse universo. E não falo de nenhuma teoria da conspiração. Falo da interligação entre as coisas da natureza, entre as quais somos apenas mais uma.

Trata-se de mudar a cultura. Quando o pai ensina o filho a fazer um estilingue e a mirar numa ave viva, quando o professor ensina que somos o cume da pirâmide, quando a mãe não vê problemas nos filhos dissecarem sapos pra brincar, cortarem minhocas pra ver o que tem dentro, arrancarem asas de moscas, enquanto houver essa cultura, ninguém vai achar estranho que um ser “superior” como nós fique irritado e tire do seu caminho as “coisas” que atrapalham, sejam elas corujas feridas ou ciclistas no trânsito.