falha nossa

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Pode parecer brincadeira ou gracinha de encomenda pra escrever a crônica, mas não é.

Foi assim: essa última semana foi tão complicada, mas tão complicada que quando vi a coisa tinha passado.

E olhe que não é fácil de esquecer!

Tanto que escolhemos essa data exatamente pra favorecer a memória.

Se fosse  em qualquer outro estado da federação não nos serviria pra nada. Mas aqui em São Paulo, 25 de janeiro é feriado. Aniversário da cidade.

Como esquecer?

Os 457 anos de São Paulo?

Não! Nossos 40 anos de casados!

 

da influência do jogo em minha vida escolar

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A construção tinha uns 10 metros de fundo por uns 4 de largura. Caberiam facilmente dois carros, de comprido. Caberiam, se a gente os tivesse.

Era a garagem da minha casa de criança. Que servia pra variadas coisas, menos pra guardar carros. Meu pai nunca teve carro. Quando tinha dinheiro, andava de taxi. Quando não tinha (a maior parte do tempo), andava de ônibus. Quando passeava, andava no carro dos amigos, que isso ele tinha, muitos.

Era lá que eu passava a tarde ao lado da minha avó que fazia crochê, ouvindo-lhe as histórias.

Foi  lá que morou por uns tempos um cabritinho que disseram que seria meu e que comeram no natal.

Era lá que ficavam todas as tranqueiras que em casa não se queria mais ou mesmo que não queriam mais na casa de parentes, como móveis antigos, e que os parentes não tinham onde guardar.

Era lá que eu brincava de teatro, de casinha, fazia lição de casa, e me escondia, junto com minha avó, pra jogar bisca e escopa. A gente escondia o baralho no meio dos móveis e encostava a porta na hora de jogar. Minha mãe proibia o jogo porque dizia que eu não estudaria.

Não sei, não. Havia jogo em casa todos os domingos, sempre a feijão e não a dinheiro. O pôquer rolava direto , a canastra, até o mercado imobiliário. E por que logo eu não podia jogar?

Além do mais, era justo nessa época que eu fui a mais nerd da escola, primeiro lugar todo ano.

Com a adolescência, deixei de jogar, os parentes foram morrendo e também deixaram de vir jogar em casa, meus irmãos foram cada um para um canto, o mercado imobiliário era um saco, minha avó morreu, a garagem foi demolida e eu, bom, eu me tornei uma das piores alunas do ginário.

Até hoje não sei se foi a falta da garagem ou a falta do jogo.

capas

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Eu me formei em psicologia, o que nem de longe faz de mim uma psicóloga.

Tanto é que nem desconfio, sequer me atrevo a fazer qualquer consideração sobre o fato das pessoas amarem botar capas nas coisas que têm.

Eu amava. Cada vez que chegava a época de comprar material pra escola, o que eu mais gostava mesmo, além de estrear os lápis de cor, era encapar. Como não tinha grana sobrando, lembro que a vez em que fiz capas mais legais foi quando minha mãe disponibilizou a cortina do box do banheiro que estava velha. Não tão velha porém que não desse pra encapar uns tantos cadernos e livros que ficaram assim, uma espécie de aquário, cheios de peixinhos mofados ( a cortina estava velha, como disse)!

A casa da minha mãe era a rainha das casas “encapadas”. Com uma vó que fazia crochê adoidado e uma filha – minha mãe – que limpava a casa como se não houvesse amanhã, a casa vivia cheia de capas. Capas nos sofás, capas nos botijões de gás, capas nas leiteiras, capas no fogão, capas até no bico do  bule de café. Lembro que era uma capa ridícula, de uma cabeça de galo, com crista e tudo.

Podia ser pior, é verdade. Eu tinha uma tia que comprou sofás novos pra sala e nunca- eu disse nunca – tirou as capas até eles ficarem velhos. O pior é que eram de plástico transparente, daqueles que grudam na perna da gente no verão.

Acho que traumatizei. Mas como já disse, de psicóloga só tenho aquele diploma, aliás, onde está mesmo?

Eu hoje tento não ter capa nenhuma. Não tenho capa na máquina de lavar, não tenho capa no micro, não tenho capa em livros ou cadernos, não tenho capa em liquidificador, não tenho capa em botijão de gás. E não tenho cortina de box. Deve ser o trauma.

Mas não pude evitar que meus filhos fizessem capas em trabalhos escolares. Principalmente depois que leram o Calvin, o das capas “quase profissionais”.

Então fica aí a pergunta pros psicólogos de plantão: por que tanta capa? Nos móveis e nos objetos?

Quando o que eu queria mesmo era só uma capinha pra mim, essa que você tiraria mais ou menos na metade da vida, lá pelos cinquentinha, e encontraria debaixo um corpinho de 20!

Vai, analisem aí, psicólogos de plantão!

brinquedo de gente grande

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Lembro que quando eu era pequena e minha mãe saía, o que era raro, eu adorava. Porque podia ir pro quarto dela e deitar e rolar no armário.

Lá eu achava luvas de renda, colares de pérolas- a maioria falsos, é claro – camisolas de cetim, vestidos, sapatos de salto.  E vestia tudo, de frente pro espelho do armário, fazendo caras e bocas de senhora. Bom, das caras e bocas que eu achava que as senhoras faziam.

Quando cresci, muito tempo depois, descobri os brechós. Que são mais ou menos como o armário da minha mãe, com algumas diferenças.

Hoje eu já não experimento fazendo caras e bocas de senhora.

Mas me divirto. Fico horas e horas, experimentando tudo pelo prazer de experimentar, sabendo que não vou levar, só pra ver como fica.

Eu também gostava muito de aventuras no clube que a gente freqüentava, a beira da represa. Sem irmã da minha idade, nem amiguinhas, eu ficava sozinha por lá, entregue a própria sorte, nadando na represa, indo de barco em barco na marina, entrando no mato, brincando de Indiana Jones muito antes do Indiana Jones.

Mais ou menos como hoje, quando a gente se mete na serra da Mantiqueira, brincando de exploradores.

E no fogãozinho que ganhei um certo natal, a delícia era brincar de cozinhar mato, plantas e flores. Misturar tudo com água, picar bem, ficar mexendo nas panelas.

Sabe que não me sinto muito diferente hoje quando cozinho aquele monte de verduras, aquele mundaréu de folhas, picando bem e mexendo nas panelas?

Quem diria que naquela época eu já brincava de vegetariana..

Agora o que eu não fazia era dançar.  Doía ficar na ponta dos pés e eu era lenta demais pra imitar os sambistas das escolas. Eu não conhecia tango dançado naquela época.

Hoje eu conheço.

E brinco sempre.