justiça

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A justiça dizem que é divina. Ou que a divina – justiça – não falha.

A justiça também dizem ser cega.  O que faz dela uma deficiente visual mas não necessariamente uma entidade democrática.

A justiça dos homens, essa sim, dizem falhar. Antes assim, torna-a mais humana, que nós humanos falhamos bastante.

Mas no envelhecimento não há justiça.

Nunca matei ( baratas não vale), nunca roubei ( cinzeiros de hotel também não vale), nunca tomei, cheirei, fumei droga nenhuma ( hollywood sem filtro também não vale), e agora, ano após ano, sou vítima de uma injustiça que de cega não tem nada. Ela me alcança, me procura e me acha todo ano na época de fazer check-up.

Meu colesterol. Minha pressão arterial. Minha taxa de glicose. Isso porque das minhas rugas e pés de galinha, das minhas bochechas buldoguianas, das minhas dores lombares, eu nem falo mais. Fazem parte. Como minhas cicatrizes de quedas infantis e outras nem tão infantis assim. Eu sou estabanada.

Eu achava que enquanto não tivesse que tomar remédios estava safa. Olhava aquela bandeja do maridão, na cozinha, recheada de pílulas coloridas e me penalizava, embora por dentro me regozijasse. Não porque fique feliz com os remédios do maridão, mas porque são dele e não meus, se é que me entendem.

Agora eu tenho a minha bandeja também. Estatinas e reguladores de pressão por enquanto.

Por enquanto.

Bom, meu próximo bastião da liberdade a ser guardado com unhas e dentes é não usar bengala.  Ando bem e bastante. De salto, de sandálias, de tênis, descalça não, que não gosto.

Em asfalto, em salões, em escadas e rampas.

E não me verão de bengala tão cedo.  No pasarán!

Já comprei dois cajados de montanhismo, hehehe.

ano de tartaruga

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Um dos meus natais mais felizes. E mais tristes. E como pode isso acontecer?

Porque a gente é assim. Tem a gente e tem os outros e não, não acho que o inferno são os outros.

Os outros dão a medida, os outros mostram a igualdade.

Muitos dos outros passam fome enquanto eu como. Muitos dos outros vão de avião enquanto vou de ônibus lotado. Os outros são a medida.

Ontem, noite de natal, tudo me deixou feliz. A família, tão pequena, juntinha. O filhão liga de tão longe e conversa com todos como se estivesse ali na esquina. O coração se enche de alegria.

Faz uma semana um amigo não agüentou. E se jogou pro espaço desconhecido. Pra morte que virá pra todos nós mas que é tão difícil de aceitar em alguém jovem. Por opção. Ou por desespero e falta de opção.

Não sei.

Não obstante, fomos felizes ontem. Uns morrem, outros vivem. Uns vivem bem, outros mal, mas vivem.

Desejo ardentemente que todos consigam ser felizes. Nem acho que é preciso muito.

Mas é preciso ter casco duro, às vezes. Tanto para os que vão como para os que ficam.

Tartaruga é sábia. Mole por dentro, dura por fora e vive muito.

Um feliz ano pra todo mundo. Um ano de tartaruga.

língua portuguesa

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Não sou uma pessoa com muita facilidade com idiomas. Arranho espanhol e italiano o suficiente pra não morrer de fome, pra entabular diálogos sem muita profundidade, pra comprar ( mas não pra vender, pois teria que saber argumentar), pra fazer bilu bilu em cachorros e crianças e pra pedir informações. Também sei agradecer em várias línguas, que é sempre bom.

Com minha própria língua não sou de todo má. Um bom vocabulário conseguido com muita leitura boa e muita ruim também, com a seção “enriqueça o seu vocabulário” das Seleções, assinada por meu pai, por jogos tipo Master , Psico ou Palavras Cruzadas, vício mais antigo da minha coleção.

Mas a nossa língua é traiçoeira, por vezes.

Outro dia, explicando a um amigo que acho muito deprimente passar roupa, e que por isso mesmo, passo sempre roupa com televisão, provoquei um ataque de riso. “ E não é pesado segurar a televisão pra passar roupa?” disse ele rindo. Só aí entendi.

Agora mesmo explicando ao maridão que teria que sair pra comprar sal, disse que passaria no “sacolãozinho”, um pequeno sacolão perto de casa. Assim como tive um amigo apelidado de Carlãozinho. O que parece um paradoxo nem é. Trata-se de uma forma afetuosa – o diminutivo – de chamar pessoas ou coisas. O sacolão é o do bairro, portanto, mais ligado “afetivamente” a mim do que as grandes redes. E o amigo era querido, portanto, além de ser um Carlão – devido ao tamanho – era Carlãozinho, devido ao carinho.

Estão vendo? O que a gramática não explica o coração compreende.

Como tudo na vida.

PS: não “como” tudo. Sou vegetariana, hehehe.  

 

Discepolo na esquina

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Estamos andando apressados pela rua, a aula de tango já vai começar.

Uma senhora baixinha para na nossa frente.

Você não é a Maray? E você não é o Fausto?

Meu deus! Ela não só sabe meu nome, que não é nada comum, como também sabe o do Fausto, também meio raro nos dias de hoje! E quem diabos será ela?

Ante minha cara de “com quem será que estou falando”, ela se identifica como uma ex-vizinha, de 20 e poucos anos atrás.

Deviam proibir gente de boa memória abordar outros assim. Aliás, deviam proibir gente de boa memória de se manifestar. Humilhação é ruim e eu não gosto.

E de repente, quando ela diz o nome dela e o do marido – já morto, por sinal – eu lembro…sabe do que? Da tese de mestrado dela ! Eu sou assim, incapaz de lembrar uma cara mas boa com nomes ou coisas estapafúrdias. A tese dela versava sobre a morte, um estudo sobre os coveiros e sua profissão. Esquecer quem há de??

E assim corre a vida.  Eu mudei a cor do cabelo, maridão mudou a cor da barba, se eu não me conhecesse bem, diria que sou hoje outra pessoa, mas a baixinha não me esqueceu. E pergunta, de chofre:

E aí, como vai a militância política?

Ela lembra. E eu faço de tudo para esquecer.

Porque hoje lembro mesmo é do Discépolo:

“Siglo veinte, cambalache, problemático y febril!

El que no llora no mama,

Y el que no afana es um gil…”

minha neta de quatro patas

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Tenho duas cachorras. A mais velha adotou a mais nova. A mais velha é pequena, bem pequena. A mais nova é grande, parece uma border . Quando a mais nova se excede nas brincadeiras, a mais velha olha feio. E basta isso pra outra se abaixar até o chão, mais não descendo porque ela não consegue escavar o quintal. Não há rosnados, não há necessidade de mostrar os dentes. É olho no olho. Só.

Estes dias que minha filha precisou viajar, deixou aqui em casa a cachorra dela. Uma vira lata como as minhas, mas totalmente diferente. Em matéria de tamanho, está no meio. Não late de jeito nenhum. Se uma vez na vida eu não tivesse ouvido um latido dela, diria que ela é muda. Mas não é. É só quieta.

Carentona como as minhas e carinhosa, vem me abraçar. E se enrosca, se esfrega, busca minhas mãos.

E tudo muda. Eis que a mais velha decide que não vale a pena dar bola pra visita e a do meio decide que tem que disputar quem é mais carinhosa comigo, quem me merece mais carinhos.

E agora está assim: eu não consigo nem ir ao quintal que sou assediada pelas duas.

Mas eu gosto.

Quem é que não gosta de ser disputado e acarinhado?

E, finalmente, me vejo avó. Minhas cachorras são minhas filhas caninas e pra minha filha a cachorra dela também é da família.

Então, se a coisa estiver certa, filha de filha é neta!

minha “neta” à esquerda e minha “filha” à direita. Uma longa e reconhecida estirpe de vira-latas.