internet não cheira

Standard

Eu podia fazer compras por internet. Podia.

Todo mês muno-me de tempo (3 horas ao todo), disposição e vou ao supermercado. O que não inviabiliza as compras semanais no japonês. Pra frutas e verduras.

É que eu cozinho. Todo dia. Sei que sou uma espécie em extinção, mas fazer o que? No começo da minha vida culinária não sabia cozinhar nada. Ensinaram-me a fazer arroz , café e macarrão. Com isso me ajeitei por um mês, recém-casada, até chegar a santa Francisca, uma cozinheira que trabalhou comigo por sete anos. Com ela não aprendi a cozinhar, mas aprendi a comer. Era uma cozinheira de mão cheia, especializada em pratos árabes. Aprendi a comer coisas que nem desconfiava que existissem. Conheci doces mineiros que seria melhor não ter conhecido, tal a tentação. Provei licores e sabores. Santa Francisca, onde estiver, minha eterna gratidão!

Depois que ela se foi, aposentada, tive que ir pra cozinha. Ninguém que ia trabalhar em casa sabia cozinhar. Bom, eu também não sabia, mas como era a responsável pela casa, tinha que providenciar.

E assim, ao longo de décadas, fui aprendendo. Cozinhei mal e porcamente por uns 30 anos. Até vir o diagnóstico médico: hipertensa, colesterol e triglicérides elevados, rumo a uma diabetes se não tomasse uma atitude.

Tomei uma atitude vegetariana. De vez em quando um frango e olhe lá.

Sem gordura, sem fritura.

E não é que me dei bem? A necessidade de encher a barriga com alguma coisa de “sustança” me ensinou a fazer um monte de pratos verdinhos. A aproveitar pedaços de verduras que eu jogava fora. Hoje nada me escapa. Do talo do brócolis  às folhas do salsão. Se é verde e não mata, eu como. (pensando bem, nem tudo. O Hulk seria indigesto…)

E tenho que fazer supermercado.

Podia ser pela internet. Mas não dá.

Tenho que pegar na mão, tenho que cheirar, tenho que balançar pra ver se está vazio ou cheio, tenho que ouvir o barulhinho, tenho que comparar preços e quantidades, tenho que analisar procedências. Enfim, pela internet eu poderia ver. E só.

Onde aquele cheirinho, onde aquele barulhinho, onde aquele precinho encontrado ali, bem no fundo da prateleira, lá embaixo, onde ninguém olha?

Tem também a parte divertida. Rótulo de produto de limpeza, por exemplo. Uma verdadeira comédia da vida privada. Literalmente.

Rótulo de bolachas ( que eu não como): uma viagem de alice ao país das maravilhas.E assim com as propagandas de vinhos, de panelas ( que apitam e cantam sozinhas), de produtos para plantas.

Gosto de fazer supermercado em pessoa.  E hoje gosto de cozinhar.

Mas ainda não gosto do Hulk.

 

do ser humano e suas idiosincrasias

Standard

Não consigo – e olhe que eu tento – entender o gosto humano por rituais.

São gestos repetidos às vezes por anos a fio, rotinas feitas sem pensar muito ou sem pensar em nada, com determinados fins.

São superstições. São gestos mecânicos. São métodos e técnicas.

O dentista quando bota o paciente sentado naquela cadeira e acende a luz, levanta a cadeira, manda abrir a boca, é um ritual. É uma rotina. É uma técnica. Talvez até seja também uma superstição, tipo dentista sem cadeira alta não funciona nem enxerga. Pode ser.

Eu tenho rituais. De manhã mais do que qualquer outra hora do dia. Levantar, botar um chinelo ( odeio andar descalça), ir pro banheiro. Saindo de lá,  pegar o jornal. Tomar café. Tudo isso sem pensar. Dá até pra continuar dormindo enquanto se faz isso. É uma técnica também, estão vendo? E uma superstição, por que não? Se eu não fizer, acho que o mundo não gira, a vida não passa, o sol não aparece. Tem dias em que ele não aparece mesmo, mas a culpa não deve ser só minha, acho.

Estive num casamento esta semana. Rituais de baciada. Desde o andar cadenciado de todo mundo rumo ao altar até os sorrisos, as lágrimas, as frases. Uma técnica? Do padre acho que sim. Pelo menos dava a mesma impressão daquilo que eu faço de manhã cedinho: a de que estava fazendo coisas mecanicamente. Dos noivos ainda não. Era o primeiro casamento deles e pra isso chegar a técnica demanda uma certa repetição.

Não digo que rituais sejam bons ou ruins. Só que são atos sem muita consciência, se não não seriam rituais. Se todos somos diferentes uns dos outros, fica difícil imaginar que façamos as mesmas coisas tudo igual. Por isso acho que rituais unificam aquilo que não devia ser unificado. Homogeinizam aquilo que não devia ser homogeneizado.

Casamento devia ser assim: cada um promete o que pode. Eu nunca prometi amor eterno. Nem mesmo eterno enquanto durar, porque acho isso cinismo e má poesia.

Talvez eterno enquanto EU durasse, mas é muito tempo. Acho.

Lembro que o João, o padre que nos casou falou: vocês gostariam , hoje, que fosse um amor eterno, se for como é hoje? SIM! Dissemos os dois. Porque vontade de que a coisa seja boa a gente tem. E ficou assim. Se será eterno não sei nem me comprometo.

Tentei quebrar o ritual. Mas nem sempre se pode. Porque ritual, quer seja superstição, quer seja técnica, quer seja apenas uma forma de várias pessoas juntas saberem o que virá a seguir, quer seja até mesmo uma pausa para não pensar, é bom também.

Consciência ativa o tempo todo cansa.

frases históricas num calor saárico

Standard

“no calor a gente fica nervoso, no frio não fica”

Uma coceirinha na testa. Vai aumentando até quase chegar a ser uma dor. Aí escorre e você nota que não era uma coceirinha qualquer. Era uma gota de suor.

Não dá pra enxugar. As mãos estão ocupadas. Uma segurando a bolsa firmemente de encontro ao corpo. A outra segurando o corpo firmemente em pé, seguro pela ponta dos dedos no balaustre do ônibus.

Ninguém abre as janelas. Também ninguém fecha. A inércia que determina que ninguém tome nenhuma atitude é um fato. Uns trinta por cento das pessoas que o ônibus conduz dormem. Aquele horário da siesta, se aqui tivéssemos siesta. Mas temos ônibus lotado, calor humano, calor solar, o chacoalhar incessante pelas ruas esburacadas. Nossa siesta.

O vizinho de trás achega-se. Poderia ser considerado um assédio, mas a gente já passou da idade. Ele também. Então, aquele achegar-se é só pro coitado encontrar um lugar onde botar o pé e as mãos, na lotação de 32 sentados e 60 em pé que passa dos 120, sentados, em pé, de lado, atravessados, espremidos, socados.

A senhorinha que vem empurrando tudo e todos pede com licença. Antes da arrancada. Qual motoniveladora ensandecida, vai pisando em pés, estapeando rostos com a bolsa fashion enorme, pisando calos com o salto. A gente até daria licença, que pedindo com jeitinho a gente faz bastante coisa, mas não tem como. Nem pra frente, nem pra trás.

Aí, num arquejo, ela prova que aquele papo de dois corpos não ocuparem o mesmo lugar no espaço é balela pura.

Bota esses corpos num Campo Limpo sanfonado em horário de rush e voilá!

É nesse momento que eu ouço a frase. Uma constatação. Um conformismo. Um resumo da situação. Uma filosofia digna dos mestres, se os mestres alguma vez tivessem andado de ônibus.

escolha ou circunstância

Standard

Ela é morena, interessante sem ser exatamente bonita, de riso fácil. Tem 30 anos. E diz que não quer casar “de jeito nenhum” nem muito menos ter filhos. Alega que todo o instinto maternal de que dispunha dedicou ao boxer com o qual mora. E, mesmo assim, conta os anos que faltam pra ele morrer. Não porque não o ame, mas porque não quer ter ninguém pra cuidar.

Fico chocada, embora esconda. Deixo a sensação pra pensar melhor depois, em casa. Como quando a gente ganha uma bala e não quer na hora, deixa pra chupar depois, em casa.

A “bala” que eu ganhei é a surpresa com as declarações.

Eram as mesmas que eu fazia muito antes dela, mais ou menos lá pelos 18 anos. Não queria “casar de jeito nenhum”, não queria ter filhos. Aliás, naquela época, não queria ter um boxer ou qualquer outra raça de cachorro.

Nem de nenhum outro bicho.

Tive todos.

Casei. Um marido.

Filhos. Dois.

Cachorros. Até agora 5. Porquinho da índia. 2.

Em que momento mudei de idéia não sei bem. As coisas foram acontecendo. Primeiro veio a paixão. O casamento. Nem foi muito pensado ou planejado. Apenas aconteceu. Pareceu-nos natural.

Os filhos. Demoraram muitos anos porque a faculdade exigia muito. Depois também vieram naturalmente.

Os cachorros vieram depois dos filhos. Pra quem já cuidava de duas crianças, cuidar de alguns cachorros não é complicado. E mesmo eles foram vindo assim, muitos por conta própria, abandonados perto de casa, foi só passar da rua pelo portão pra dentro de casa. Simples assim.

Nunca imaginei na vida que teria tudo isso e adoraria tudo isso.

A garota morena tem certeza que não quer nada disso. Mas diz que não “saiu” de casa. Os parentes, poucos, é que saíram. Mãe foi morar em outro país, em outro casamento. Irmão foi morar num terceiro país, estudante. Ela aqui. Ela e o boxer.

Parece feliz.

Agora sei que não é bem chocada que fico.

Fico penalizada.

Posso estar totalmente errada, eu sei. Mas gente que nos ame e a quem a gente ame é muito bom.

Mesmo que seja um boxer.

Tomara a garota descubra o amor.

 

eterna juventude

Standard

Morreu Tony Curtis há alguns dias. Morreram Gregory Peck, Marilyn, Dean e Yul Brinner.

O que me vem a cabeça é a piada aquela do “ morreu mas continua vivo na minha memória” do cara que está numa festa ou algo assim e se confunde ao perguntar por alguém que já era.

O fato é que estão. Todos eles vivos na minha memória.

Pior até: vivos e jovens, na flor da idade, que antigamente, pelo menos em Hollywood devia ser por volta dos 40, 50 anos. Os galãs não eram os adolescentes de hoje.

Lembro que eu tinha, aos nove anos, uma certa fixação por galãs de “cabelos brancos nas têmporas”, como se dizia, pernosticamente. Rossano Brazzi, essas coisas.  Eu assistia esse tipo de filmes por viver em torno de adultos, dos quais dependia pra ir ao cinema. 

Mas me dá uma certa tristeza a morte de Tony Curtis. Não por achar que o cinema perde um grande ator. Não chego a tanto. Mas por vê-lo ainda, em sessões da tarde ou cine Cult na TV, ainda serelepe ao lado de mocinhas loiras de cabelo gatinho. Ele e seu topete. Ou ostentando seu físico atlético pra época em cenas de trapézio.

Parece injusto alguém morrer tão jovem.

Até eu lembrar que ele passou da juventude há muito tempo.

E não só ele. Snif.

Mas ele poderá sempre contar com as sessões da tarde.