minha cristaleira

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Meu pai, certa vez, chegou a ficar sem falar com minha mãe por uma semana por conta de um furo que ela fez no balde de gelo de prata (banhado) de colocar champagne  (por um bom motivo, diga-se: pra plantar ali uma flor).

Eu quase saio às vias de fato com o maridão por causa da minha cristaleira.

Sim, considero-a minha. Está aqui em casa há uns 10 anos, pelo menos, e foi escolhida e comprada por nós dois, mas é minha.

Havia uma em casa dos meus pais. Pra mim era como um baú de piratas. Cheia de cristais, coisas que brilhavam, vidros coloridos.

Tenho uma fixação por vidros, não exatamente por cristais. Tenho colares de vidro, brincos de vidro, coleciono bolas de vidro, só não gosto mesmo de limpar vidros, mas só tenho uma fixação, como dizia, não sou tarada. E só um tarado pode gostar de limpar vidraças.

Voltando. Estamos reformando a casa. Isso significa trocar também os móveis da sala, agora que nossas crianças já saíram de casa e não pulam mais nos sofás. E a idéia de ter netos, que me acalenta, é uma coisa remota pros filhos. Remotíssima, eu diria.

Então está ali, aquela cristaleira, que nem é grande, mas que ocupa uma parede preciosa. E dá-lhe trocar de lugar. Só não a coloquei no meio da sala, mas botei em todas as outras paredes pra ver o que acontecia.

Lá pelas tantas, quando eu já tremia a voz ameaçando ou chorar ou sair no braço com o maridão que dizia pra eu abrir mão dela, volto pra parede em que ela estava.

E fez-se a luz. Ela sempre esteve ali, já criou raízes e hábitos nas pessoas da casa. É chegar da rua e colocar em cima dela as chaves, os documentos, as cartas. E saber que tudo estará ali, na hora de sair de novo, bem ao alcance do olho e das mãos.

É também, no fim de noite, encontrar ali um vinho e cálices, sempre prontos.

Ela nem é original. E só é antiguidade porque é antiga. Nosso dinheiro nunca nos permitiu comprar antiguidades, só uma ou outra coisa antiga, o que é muito diferente.

Então tenho por ela um carinho, uma irmandade. Eu também me sinto antiga, às vezes. Não antiguidade, vejam bem, o que é muito diferente.

Ou deprimente.

Então vamos trocar os móveis da sala. Trocar o tapete. Trocamos já todas as cores.

Mas na minha cristaleira ninguém bota a mão!

 é parecida, mas não é a minha

é parecida, mas não é a minha!

ganhos

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No post anterior a Babi me questiona sobre o que foram os ganhos da minha vida, achando que eu estava fazendo algum balanço. Não estava, mas agora “vou estar”.

O primeiro grande ganho foi sem dúvida a própria vida. Adoro estar viva. Adoro a vida. A vida, mesmo quando é ruim, ainda assim é muito boa. Respirar é gostoso, andar é gostoso, olhar é gostoso, ouvir e falar então, uau!

Outros ganhos vieram: sei desenhar. Não o suficiente pra ganhar um oh de admiração de ninguém, mas o suficiente pra me expressar com o desenho. Isso é bom.

Consegui, com o tempo, também me expressar com artes manuais: crochê, tricô. Poder fazer uma roupa e usá-la, uma blusa pra minha filha, um colete pro maridão, nada me deixa mais feliz. Acho incrível começar do fio sem forma e ao cabo de uma semana ter uma coisa bonita e quente. Considero-me feliz por poder conseguir isso.

Consigo escrever. E ler. E gostar de tudo isso.

Uma meia dúzia de amigos reais e outra de virtuais. Em quem confio, independente de serem reais ou virtuais.

Uma família gostosa. Pouca gente, mas de bom caráter.

São inteligentes, também, mas o que me faz mais feliz é o caráter.

Inimigos não tenho. Pelo menos nada digno desse nome. Deve ter gente que não gosta de mim, mas nunca esbarrei com eles. Melhor assim. Lido mal com rejeição.

A saúde até agora vai bem. Às vezes me sinto como na piada do cara que cai do prédio. Até aqui tudo bem, diz ele ao passar pelo sexto andar, rumo ao chão. Bom, eu até aqui vou bem, obrigado. Um pouco de colesterol aqui, uma rinite acolá, mas nada fatal. Até aqui.

Então, no perdas e ganhos, o saldo é positivo.

Até porque, convenhamos, sou só mais una chica del montón.

E, quer saber, isso é legal. Divide melhor a responsabilidade de tentar fazer deste um mundo melhor.

Ou a culpa por este mundo ser hoje o que é.

Una del montón.

perdas

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No começo, antes mesmo de eu nascer, foi meu avô materno, meu avô paterno e uma irmã.

Depois minha avó materna.

Depois minha avó paterna.

Na sequência um monte de tios, maternos e paternos.

Depois meu pai.

Depois minha sogra.

Depois meu irmão do meio.

Depois minha mãe.

Dando uma olhadela rápida, tem mais gente do lado de lá do que do lado de cá.

Já perdi também minhas esperanças na revolução socialista, na ética política, no método Cooper.

E perdi um monte de dentes, de canetas esferográficas, de blusas de lã, de guarda-chuvas, de carteiras de identidade e de habilitação.

Tá, as circunstâncias variaram muito nessas perdas.

Meus sentimentos a respeito também.

Mas eu não gosto de perder nada nem ninguém.

o buço

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Sabe que eu nunca soube o nome real dela? Bom, era a Tia Dina. Que minha mãe sempre dizia que nem tia era, uma vez que era apenas irmã de “criação” do meu pai, que teve dez irmãos “de sangue”. Como se tivesse diferença.

Morava em Franco da Rocha. Pra quem não sabe, pra quem não é daqui, pra quem tem pouca idade, enfim, Franco da Rocha teve o maior manicômio de São Paulo. Foi desativado.

Lá era, na minha imaginação de criança e acho que em realidade também, a casa dos horrores. Como todos manicômios da época. E a cidade de Franco da Rocha sofria, por extensão,esse apelido preconceituoso: a cidade dos “loucos”. Quando a gente dizia que ia passear lá, a piada sempre era: “cuidado que não te deixam voltar”. Piada velha e sem graça, já naquela época.

A Tia Dina era especial pra mim e a casa dela mais ainda. Era numa ladeira que saía da estação. Tão ladeira que eu lembro de subir e brincar de bater os joelhos no rosto. Mas quase batiam, mesmo, tal a angulação da ladeira. Era uma casa antiga. Terreno grande, plantado por flores perto da sala e árvores frutíferas no resto.  

Quando a gente ia pra lá, a gente passava a noite. Acho que a viagem era trabalhosa, de trem, e Franco da Rocha, hoje tão perto, era “interior”. Daqueles de passar dias.

E a gente dormia todo mundo- quer dizer – a mulherada, adultas e crianças – numa enorme cama de casal. Que não tinha travesseiros. Tinha um rolo. Eu achava uma enorme graça naquele rolo desconfortável.

Pior que a cama compartilhada por umas 4 ou 5 mulheres era a falta de banheiro dentro. O banheiro era lá fora. A “casinha”. Um buraco no chão de cimento. Eu morria de medo dele. De cair lá dentro e me perder. Uma merda. Literalmente.

Aí, à noite, pra não ter que ir lá fora, havia um penico nos quartos. Um nojo. De ágata, todo desbeiçado.

Tem gente por aí que enaltece e lembra com carinho de coisas antigas, de imagens do interior. Eu tenho é medo. Não era nada bom aquilo.

Mas era boa, era maravilhosa, a convivência da gente – eu, minha mãe, minha avó, minha tia, com a Tia Dina.

Mulherão grande em largura, em altura bem pequena, de bunda grande, peitos fartos e sempre de avental, era a rainha dos bolinhos de chuva, dos doces de banana, de abóbora, de pé de moleque. Que fazia num fogão de ferro esmaltado, branco e verde, a lenha.

Era casada com o Seu Manuel. Ele a gente não chamava de tio. Jardineiro, homem sério, calado e bonzinho. Dava pra gente, quando voltava do trabalho, roletes de cana bem doce que trazia das redondezas. Ele era a metade dela. Em largura. Em comprimento era maiorzinho.

E havia o buço. Ah, o buço!

Eu nunca tinha visto aquilo e minha mãe já começava a me dar sermão horas antes da gente chegar lá. Menina, não dê risada, não comente, finja que não vê!” Tudo pra evitar meus olhares impressionados para o buço da Tia Dina.

Naquele rosto sempre sorridente, naquela fala mansa com sotaque do interior, tia Dina era, pra mim, quase como a mulher barbada do circo.

Uma doçura.

Foi lá que eu fui crismada. Por um bispo.

É claro que não lembro. Era muito pequena.

Diz minha mãe que eu berrava sem parar e ele ameaçou, ainda segundo minha mãe, me dar um tapa, “de brincadeira”.

Até hoje não sei se ela dizia isso pra ter um aval clerical pra sua opinião à respeito do meu “mau gênio” ou se de fato o bispo aquele era de maus bofes.

Minha mãe já morreu, o bispo também, meu gênio continua o mesmo, nunca ninguém me botou a mão e de igreja quero distância.

Mas as lembranças de Franco da Rocha são muito queridas.

Menos o buço.

Meda!

a penúltima a acreditar em fadas

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Uma vez que a última morreu em Paris em um trágico acidente, segundo o Alziro Patafisico,  vou contar a história da penúltima.

Se tem gente que acredita em pedras, em conchas, em horóscopos, em florais, em políticos,  por que ela não poderia acreditar em fadas?

Foi dessa forma que Marlise Conceição cresceu acreditando nelas. Em tudo que dizia respeito a fadas: gnomos, duendes, varinhas mágicas, asas, por aí.

Quando seus dentes caiam, de criança, punha debaixo do travesseiro. Sempre encontrava alguma grana lá, no dia seguinte. Chegou a juntar o suficiente pra comprar uma sandalinha da moda lá no shopping do bairro. Mais que isso não foi possível porque as sandalinhas da moda custam os olhos da cara. Bom, nesse caso, os dentes da boca. E ela tinha  poucos. Os que todo mundo tem, menos os sisos que nunca vieram.

Já na adolescência, chamou e clamou pra todas as fadas e duendes pra encontrar o príncipe encantado. Encontrou alguns que se diziam príncipes e reis ou apenas os caras, mas  foi difícil escolher. Acabou escolhendo o mais rico. Que ficou pobre no primeiro plano Collor. Ele não era tão rico assim. Também não era tão príncipe assim. Embarrigou e encarecou nos primeiros anos de casamento. Como também empobrecera, ela ficou desconfiada da fada madrinha. Pediu outro. Nada. Ficou achando que era um caso de oferta e procura. Muita procura e pouca oferta.

Foi ciscando aqui e ali, tomando conhecimento da fada das dietas, da fada das finanças, da fada da casa própria, da fada da sorte no amor. Tentou todas.

E aí, já bem velhinha e vivida, se é que se podia chamar de vida aquilo que ela vivia, voltou a se encontrar com a fada dos dentes.

Vendeu seu carrinho popular  bem jambrado e comprou seus implantes dentários. Deu pra comprar uns 8. O suficiente pra mastigar o MacDonalds de cada dia.

E agora sim, Marlise Conceição acredita em fadas mais do que nunca. Se vendera seus dentes de criança por módica quantia, agora compra novos dentes pelos olhos da cara. Depois de uns cinqüenta anos pareceu justo.

A tal da inflação, nunca ouviu falar?

Fadas. Bah!