odeio subterrâneos!

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Bem que eu nunca gostei de subterrâneos!

Quando estudei psicologia, logo no começo da faculdade, a idéia era cuidar de crianças excepcionais. Eu havia estagiado durante um ano numa entidade de crianças com paralisia cerebral e me apaixonara por elas, pela idéia de ajudá-las, por tudo.

Com o decorrer do curso, porém, fui vendo que não era exatamente minha praia. Eu sofria demais quando tinha que ser terapeuta. Sofria junto, às vezes sofria ampliado, a minha angústia somada à angústia dos pacientes. O que me faria péssima profissional, embora um ser humano solidário.

E no fim do curso percebi que meu negócio era psicologia social. Hordas. Gentes em escala ampliada. E gentes isoladas, mas não do ponto de vista “subterrâneo”, gentes para as quais se olha tentando entender do ponto de vista cultural, antropológico.

Assim também na minha casa. Eu adoro minha casa. É simples, térrea, acachapada, matronal, segundo uma amiga. Fruto de ampliações necessárias para acomodar filhos e, principalmente, gentes com gostos diferentes umas das outras. Um gosta de música, outro de silêncio, um gosta de festa, outros de retiros. Um vai de rock, outros de tango. A solução, pra não dissolver a família, que é bonita e não valeria a pena brigar por coisinhas, foi sempre o “puxadinho”. Puxadinho pra ler, puxadinho pra ver TV, puxadinho pra ouvir música. Com uma certa sobriedade, tentando dar um ar “colonial”, mas puxadinhos.

E outros, como eu e meu marido, gostamos de plantas e árvores. Ocupamos todo o quintal com elas e invadimos a calçada, casa de esquina com calçada grande. Plantamos nove árvores, de início.

Ficaram enormes.

Até aí, tudo bem. Filhos e árvores crescem, é da natureza. Mas se filhos a gente plantou legal, nas árvores fomos irresponsáveis.

Uma delas é um flamboyant.

Era.

Tivemos que mandar retirar. Uma questão de legítima defesa. Era ou ela ou a casa. Porque o muro da casa já estava irremediávelmente rachado e a casa, do lado dela, apresentando rachaduras estranhas e crescentes.

E hoje a coisa está assim. Pedreiros aqui em casa pra o que eu chamo de “reforma final”, (sem muita certeza, porém) ao abrirem o corredor lateral descobrem um “oco”. Um, se a casa fosse uma pessoa, subterrâneo, um id, um recôndito do inconsciente totalmente vazio, ou quase. Pleno de raízes, meandros, descaminhos.

A coisa só é poética no papel.

No bolso vai doer, que eu sei.

Por isso eu sempre digo: odeio subterrâneos!

a pátria em chuteiras

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A pátria veste novamente as chuteiras. Até aí, tudo bem. Até eu torço pra seleção. A brasileira, a uruguaia do Forlan, a argentina, por questões afetivas, a de Camarões, por questões estéticas, a espanhola por simpatia. Eu sou uma torcedora eclética e plural.

Mas me atormenta o clima por aqui. Eu que não sou tão fanática por futebol assim, escolho – ou tento- os horários de jogos pra fazer coisas. Tentei, sem sucesso.

Fui olhada feio no supermercado – o que estava aberto – fui xingada no trânsito por respeitar semáforo fechado nos minutos que antecederam o jogo, fui buzinada, fuzilada, maltratada.

Isso não é razoável.

As pessoas andam muito estressadas. Ou mal-educadas.

Assistem aos jogos dizendo barbaridades dos adversários. Gente que eu achava normal e comedida, berra seus desejos homicidas defronte a TV. Deseja que uns e outros quebrem pernas dos adversários, ordena ataques a canelas alheias, dá ordens de matança geral e indiscriminada.

Brincadeiras inócuas?

Não sei não.

Jogo é jogo. Disputa é disputa. Mas a mãe dos outros não tem culpa de nada nem está em campo.

E pena de morte ainda é proibida neste país.

Eu, heim?!

Ainda bem que é só de 4 em 4 anos.

gaveta de remédios

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Em casa de meus pais, havia a gaveta dos remédios. Cheia de amostras grátis, de xaropes, de violetas de gencianas, de minâncoras, de coisas antigas e outras nem tanto. Um montão de melhoral infantil. Não sei como não tive nunca uma overdose, já que eu adorava lamber ( e depois jogar fora, ao menos isso) aqueles comprimidos docinhos por fora e cor de rosa.

Mas isso são coisas de cinquenta anos atrás.

Quando tive minha própria casa, deixei de ter remédios dessa forma. Não havia nada. Nada até ter filhos. Aí tive que inaugurar minha própria gaveta de remédios. Mas eram homeopáticos: aqueles vidrinhos cheios de glóbulos com nomes estranhos. Beladonas, Tuyas, Kali, arsenicum, essas coisas. Mais um termômetro, uma bolsa de água quente, alguma dipirona que ninguém é de ferro e eu nunca agüentei febre de criança.

Depois a coisa foi ficando sempre assim. Só homeopáticos. Mas em quantidade menor.

De dois anos pra cá, perdi meu homeopata. Não consigo acertar ainda com outro. Já experimentei alguns que nem me sorriem, nem me dão a mão.

Parece bobagem, mas meu melhor remédio ainda é o calor humano. Não consigo entender um homeopata na frente de um monitor, sem sorrir, sem me olhar direito, sem me encostar. Enfim, talvez já não se façam homeopatas como antes, sei lá.

Mas fiquei doente estas últimas semanas. E de repente, em menos de quinze dias, a gaveta de remédios que era tão clean, virou um arsenal alopático. De dar nojo e medo.

Agora que estou boa e a gripe passou, tento jogar fora aquela coisarada toda, mas fico pensando na grana preta que gastamos com eles, aquele bando de remédios. Dá dó. Vai que…?!

Então tá. Até a próxima gripe ou bursite, vou ter que conviver com aquela gaveta asquerosa. Ou até achar um homeopata que me entenda como um ser humano, carentona, que gosta de contato físico, de sorriso, até de tapinha nas costas. Que gosta de ser tocada e olhada nos olhos.

Será que é tão difícil assim, ó céus??