minha aliança

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Sou do tempo em que se usava aliança. Em que se casava de véu e grinalda. Em que se ficava noivo.

Eu fiquei noiva. Um ano antes de casar lá estava, no meu dedo, uma aliança.

Na realidade, foi oportunismo puro. Meus pais não me deixavam viajar com o namorado nem passar noites fora. Aí ficar noiva foi uma forma de álibi. Noivo é quase casado. Noivo pode.

E a gente fez isso. Comprou umas alianças enormes e botou no dedo. E dissemos em casa: olha, estamos noivos. Comendo sanduíche de mortadela na mesa da cozinha. Não foi um noivado chic.

Quando casamos, só mudei de mão a aliança.

Certo dia, levantando a janela do quarto, ela caiu na minha mão. Bem em cima da aliança. O que salvou meu dedo, mas não a aliança que ficou pra sempre meio quadrada, amassada.

E eu engordei com o casamento. De quase anoréxica, dez quilos depois fiquei normal. Mas a aliança ficou ali, no anular, pra sempre presa.

Até eu começar a tocar percussão. No início tocava as congas como se não houvesse amanhã. Fazia mais barulho que uma nação inteira de pigmeus nos gibis do Fantasma. Batia com tanta força que não foram poucas as vezes em que os dedos sangraram em cima das congas.

O jeito foi tirar a aliança. Como, se não saía do dedo?

Dentista. Sim, aquele cara que só me fazia abrir a boca e tremer nas bases com o barulho do motor, desta vez foi convocado pra abrir não alguma obturação mas o próprio anel, com o motor.

Deu certo e hoje a coisa está assim: por uma questão afetiva, minha aliança está numa caixinha, aos pedaços.

O casamento vai bem, obrigado, e o maridão, por uma questão de solidariedade, também guardou a dele, inteira.

Um dia a gente ainda passa nos cobres esses restinhos simbólicos.

Porque os anos passaram, quase quarenta, mas meu pragmatismo continua.

incógnitos no bicentenário

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De maneira geral, acho que dá pra dizer que as pessoas querem chamar a atenção. Vide os big brother da vida, a ânsia de fama a qualquer custo, os papagaios de pirata, bom, não preciso explicar. Todo mundo já teve na vida seus quinze minutos ou  pelo menos uns cinco, vá lá…

Não no tango. Não pra mim.

Desde que a gente começou a dançar tango, por aqui mesmo, o sonho de consumo era poder dançar nas milongas porteñas. Não sei se algum argentino morre de vontade de ter samba no pé, mas a gente morria de vontade de assumir ares milongueros.

No começo foi difícil. Brasileiros e brasileiras parece que nasceram com uma carga genética destinada a fazer mexer os quadris. A gente rebola pra começar a andar, tatibitate lá pelos 11 meses e passa o resto da vida rebolando, em muitos e variados sentidos.

Não no tango. No tango não se rebola. No tango não se junta os quadris aos do parceiro, naquela intimidade sambista, forrozeira, funkeada. O buraco é mais embaixo, digo, o abraço é mais em cima. Os quadris não se encostam e a gente fica assim, visto de lado, como um par tímido, formando pirâmide.  Nada de encoxar. No futebol talvez. Tevez. Ops, desculpe, foi mais forte do que eu.

Demorou. São anos que a gente aprende tango. E pretende continuar aprendendo, que isso não acaba nunca, não é que a gente seja lerdo.  E finalmente, depois de anos indo pra Baires, podemos dizer que desta vez a gente passou incógnito.

Que é tudo que a gente mais desejava! Poder bailar numa milonga de bairro, daquelas sem turistas, e ninguém perguntar: de onde?

Se a gente dança tango bem? Não. Ainda não. Mas poder não chamar a atenção já foi um salto e tanto. Segurar a onda, não rebolar, não encoxar, fazer cara de séria, isso foi o máximo!

Tá bom, agora ando com saudade de um bom forró. Daqueles, vocês sabem.

Mas isso a gente sempre pode resolver por aqui mesmo. Na vertical ou na horizontal.

Porque genética é genética.

pagando o preço

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Comi uma nhá Benta. Não uma qualquer, mas uma da doceria que eu mais gosto (porém não tanto a ponto de fazer propaganda gratuita). Uma super nhá Benta.

Daí saí pra andar. Uns 10 kilometros.

A coisa é assim: ajoelhou, tem que rezar.

Comeu, gostou, tem que malhar.

Isso de ganhar o pão com o suor do rosto nunca foi tão real. Uma nhá Benta, então! Haja suor.

Até a metade da minha vida – 50 anos – eu comia tudo que queria. Salames, copas, provolones, salgadinhos, empadinhas, tudo sem pestanejar. Nem engordar. Diziam que era ruindade.

Deve ser.

Foi só eu passar dos cinqüenta – só um pouquinho – e a coisa mudou.

Acho que fiquei boazinha.

Preciso voltar a ficar ruim de novo pra comer o que me der na telha sem conseqüências.

Ou começar a treinar pra maratona.

Sabe que eu não consigo decidir?

Semana que vem estarei fora. Buenos Aires me aguarda.

Ah, o tango! Sempre o tango.

E os chinchulines do Arturito, mais os croissants e os alfajores,  é claro.

Estou pensando em voltar de lá a pé…

muda mesmo?

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Minha bisavó era cega. Catarata.

Meu tio apanhou de cinto e era amarrado em árvores por mijar na cama. Enurese noturna.

Minha prima , tão linda, mal sorria por ter lábio leporino. Fez plástica. Aquela cicatriz enorme na boca, ela continuou mal sorrindo e sorrindo mau.

Meu outro primo tinha hemofilia. Morreu de aids. Criança ainda.

A ciência avançou muito nestes anos. Catarata hoje é coisa relativamente simples. Enurese noturna é fácil de cuidar, a cirurgia plástica brasileira é hoje das melhores e contaminação por transfusão tem diminuído muitíssimo.

Mas a discriminação que minha bisa sofria por ser cega, os castigos em crianças por pais ignorantes, o preconceito que rola contra tudo que foge aos padrões, isso parece não ter cura.

Não sei se é medo do diferente, se é crueldade pura e simples. O homem muda por fora.

Mas parece que só por fora.

meu canivete suiço

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No começo dos tempos tive um canivete que não era suíço. Era de prata, muito pequeno. Acho que ganhei do meu irmão e me foi tirado depois que ameacei a vizinha do lado, armada com o canivete. Eu odiava a vizinha do lado.

Bom, mas isso foi aos 4 anos e hoje meus vizinhos do lado são ótimos.

E eu odeio bem pouca gente.

Mas tenho um canivete suíço. Da melhor espécie. Aqueles que só faltam falar. Por enquanto.

Pra que diabos eu uso um canivete?

Vocês nem imaginam!

Quando viajo não costumo jantar. Já é difícil pra uma vegetariana almoçar fora, jantar já acho demais. Então levo pro quarto de hotel uns yogurtes, umas frutas e uns sucos mais um vinho e um queijo. E voilá! Eis o jantar. Uso o canivete pra cortar o queijo, abrir o vinho, tirar as cascas das frutas. E até poderia palitar os dentes, porque o canivete politicamente incorreto tem até um palito de plástico, mas aí já não dá, né?

Quando saímos pra caminhar por esses matos, muita vez o canivete já serviu de faca, afastando galhos incômodos ou pra pegar fruta no pé.

Já serviu pro maridão lixar unha que quebra. As dele, que as minhas são garras. Não entortam, não lascam, não quebram. Mas quando eu quero cortá-las e estou fora de casa, o canivete vem com uma tesourinha que dá conta do recado.

Ele tem também um abridor de lata mas eu nunca consegui usar. Não deve ser culpa dele, porque aqui em casa eu também tenho dificuldade com o abridor de lata normal.

Tem também uma coisa pontuda, tipo a ponta seca de um compasso, que não sei pra que serve.

E uma colherinha ridícula, que só deve servir pra tomar remédio em gotas. Não deve caber nela mais do que 3 ou 4 gotas.

Ele é pesado, eu sei. Toda vez que viajo de avião tenho que lembrar de tirá-lo da bagagem de mão e certa vez causei uma celeuma no consulado americano por causa dele. Muito neurótico, esse pessoal do consulado.

Eu adoro meu canivete. Tanto que adotei uma versão resumida dele, a mesma marca em formato pequeno, pra quando eu vou dançar, com bolsa “de festa”. Aí eu uso o pequenininho.

Vai que me apareça um vizinho de mesa ou parceiro de dança bem chato? Igual aquela vizinha de pequena, que sentiu o frio do meu “aço” , heim, heim??