técnica de vendas

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Pode entrar! Fique à vontade! Pode olhar o que quiser. Temos bijuterias, temos relógios, temos bolsas, temos aqueles brincos ali de…

( eu sei que têm. Eu não sou cega, apesar de usar óculos. Aliás, exatamente por usar óculos posso dizer que enxergo perfeitamente. E quanto a ficar à vontade, é só você me deixar sozinha. Fui clara?)

Aquele sapato? Uma maravilha! Só esta semana já vendemos mais de 20! Está todo mundo usando!

( e é exatamente por isso que não vou levar. Ta bom que eu não almejo exclusividade com meu salário mas também não quero sair por aí e encontrar outras quinhentas usando o mesmíssimo sapato. Fui clara?)

Só pelo seu olhar estou vendo que a sra. sofre de uma doença!

???

A doença do bom gosto! Comprar estas peças denota um grande bom gosto!

( bom, agora mesmo é que não levo. Só pra você deixar de fazer péssimo humor e achar que está agradando. A única doença diagnosticada que eu sofro é de intolerância a chatos. Fui clara?)

Está uma beleza essa roupa! Caiu como uma luva! É só encurtar um pouco aqui, dar uma ajustadinha ali e fazer uma pence acolá! Como uma luva! Foi feita pra sra!

( só se for luva de box, minha filha! Com tantos ajustes mando fazer. Se eu quisesse roupa pronta pra terminar em casa contratava uma costureira. Fui clara?)

Esta cor lhe cai divinamente bem! Nesta temporada o novo preto é o nude!

( Nude é o bege metido a besta. E minha cor de nascença já é nude, assim o que eu quero mesmo é azul cobalto! Ou verde floresta. Tudo menos nude. Fui clara?)

Está na última moda! Calça skinny!

( eu sei. Mas quem está na última moda sou eu, que tenho perna fina e agora, finalmente, consigo entrar em calças prontas sem ter que mexer em nada. Quem está na moda sou eu!! Fui clara?)

E assim caminha a humanidade. Ou uma tarde de compras por aí. Eu sei que sou relativamente impaciente com vendedores, mas também eles extrapolam. E não. Não pensem que eu digo a eles tudo que está nas entrelinhas. Não digo, só penso. Sou moça educada. Relativamente educada, mas sou.

Fui clara?

a sala de jantar

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Uma cristaleira. Nada de interessante dentro exceto o espelho do fundo.

Um etager, como minha mãe chamava. Não sei se é assim que se escreve, nem mesmo se alguém ainda lembra dessa palavra. Sim, porque o móvel persiste até hoje. É aquele móvel que existe nas salas de jantar pra guardar louças e copos. Os mais chics.

Nesse móvel, ou melhor, no conteúdo desse móvel treinei meu desenho. Havia louça  inglesa, cheia de castelos em tons de azul, havia louça chinesa cheia de flores em tons de laranja, havia louça tcheca, em tons de ..verde-amarelo! E louça nacional, com frutas, flores, desenhos geométricos. Pra que tanta louça? Meu pai era leiloeiro. E minha mãe gostava de cozinhar. E eu. Bom, eu pegava aquela louça, punha em cima da mesa e desenhava os motivos.

Em cima desse móvel havia um Napoleão. Não, não o próprio nem nenhum outro em versão louquinha da silva.

O relógio. Aquele que tem a forma imitando o chapéu do Napoleão. E dentro, na parte de trás, um ótimo esconderijo pra “segredos”.

Havia também um vaso de latão e um porta-champagne de prata, com um buraco enorme embaixo que minha mãe havia feito pra fazer dele um cachepô. Até meu pai descobrir e armar um salseiro. Ela teve que tirar a planta e aquele porta champagne pra sempre ficou ali, bem em cima do móvel. E nunca portou champagne alguma, que a gente não era disso. Melhor seria ter continuado com a avenca que estava plantada lá. Que meu pai não me ouça, ou armará um salseiro post-mortem, tenho certeza.

E, finalmente, a mesa de jantar! Uma mesa que podia ser estendida, aumentando para até oito pessoas, mas que normalmente só ficava encurtada, pra quatro. Aos domingos era aumentada, não pra ninguém comer lá ( nunca se comeu lá) mas pro pôquer e o buraco dominicais, em certa época. A feijão.

Embaixo da mesa, meu mundo. Lá fui Robinson, lá fui escrava Isaura, lá fui princesa cercada de castelos de cartas que eu montava. Lá foi meu reino, dos 6 aos 10 anos, mais ou menos. Lá foi meu salão de beleza, lá foi meu emprego, lá foi minha prisão em Londres ( meu calabouço era londrino, sabe-se lá porquê!).

Debaixo daquela mesa, naquele pequeno espaço quadrado, que eu cobria com um cobertor, aprendi a me divertir sozinha.

Ótimo aprendizado.  Pra durar a vida inteira.

É muito bom ter amigos. Mas é muito bom ter imaginação.

Nem que seja pra criar mundos e amigos.

vitrola portátil, nunca ouviu falar?

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Naqueles tempos não havia celular. Nem computador. Nem MP3, 4 ou 5. Só MPB.

Tão longe assim aqueles tempos?

Nem tanto.

E foi por conta mesmo do meu gosto por MPB que ganhei um dos maiores presentes da minha vida: um toca-discos portátil!

Se você entender que portátil é tudo aquilo que a gente consegue carregar daqui pra lá, podendo ser a pilhas ou a energia elétrica mesmo, aquilo era portátil. Pesava um montão, era enorme mas era portátil. Toda de plástico, laranja e creme, quase do tamanho de um microondas de hoje.

Nem lembro quem deu, se foi o pai ou os irmãos ou todo mundo junto. Também não sei se foi num natal ou aniversário, uma vez que os dois vêm quase colados pra mim, mas foi por aí.

Amei a coisa. Só foi dando um certo desamor quando descobri que os discos – vinis, é claro – custavam muito e eu não tinha dinheiro pra comprá-los. Aí, depois que gastei o disco inicial, depois que cansei de ouvir os discos promocionais de um lado só ou de plástico colorido que meu pai vendia na loja em que trabalhava, pus a coisa de lado.

Era mais ou menos – na minha cabeça de criança- como quando minha mãe me mostrava as jóias da família – um colar de pérolas, um relógio de ouro e uns três anéis pequenos e feiosos- e não me deixava usá-los. Eram meus, dizia ela, mas só quando for grande.

Quando enfim fiquei grande, olhei bem praquilo tudo, tão grande em sua pequeneza, e decretei meu gosto por colares e pulseiras de sementes, que persiste até hoje.

Não sei o que aconteceu com aquela incrível vitrola ( como a gente chamava) portátil. Acho que dei pra alguém, junto com os disquinhos cor de rosa e um vinil da Rita Pavone. O primeiro que ganhei.  Ficou tudo lá, nesse passado remoto.

Bom, nem tão remoto. Só cinquenta anos.

olha a Copa aí, gente!

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Vou falar de futebol. Todo mundo fala, por que eu não posso?

Sou corintiana. Podia estar matando, podia estar roubando, podia ser sãopaulina como meus irmãos e meu pai, que tão fanático era que punha os filhos de sócios logo depois de registrá-los no cartório. Chegava a ter cadeira cativa no estádio. Eca…

Bom, por conta disso e da pressão familiar foi que eu me tornei corintiana. Melhor coisa pra conseguir que eu faça alguma coisa é me obrigar a tal. Costumo fazer sempre o contrário. Minha mãe dizia que era espírito de porco. Eu digo que é minha ânsia inata por liberdade. Bom, cada um puxa a brasa pra sua sardinha…

Mas nunca fui corintiana daquelas que sabe do que fala. Houve uma época em que eu sabia de cor o time inteiro. A saudosa época do Rivelino e suas pernas. Que pernas! Mas eu sempre fui incapaz de reconhecer um impedimento ou mesmo um tiro de meta. O que não me impede de ser timão, timão até morrer!

Depois houve as copas. Numa delas, acho que nos idos de 60 eu participei de um bolão na classe e ganhei! Uma bolada, pra mim. Comprei pipoca e paçoquinha por uma semana, pra mim e pras minhas amigas. Mas só ganhei porque foi  uma tremenda zebra e só eu chutara aquele placar. 

Depois o dia em que, após mais de 20 anos de jejum, o timão ganha o campeonato. Puxa, mesmo sem entender direito as regras, eu vibrei e chorei.

Como a vida: eu nunca sei direito as regras mas vibro pra caramba com os resultados.

E agora a copa vem aí de novo. Eu só não curto aquelas brigas idiotas com os argentinos e sua seleção. Afinal, tem o tango e tem Buenos Aires. Como alguém pode não amar aquela seleção celeste, com seus jogadores eternamente cabeludos?

Depois do timão e da seleção canarinha, sou Argentina.

Embora aqueles africanos lindos e coloridos e cheios de ginga…

E bolão por bolão, esse ano vou de Camarões.

Já que eu só ganho no susto e no chute, quem sabe?

Alguém aposta aí?