complexo demais

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Não sou muito chegada em ordens contraditórias. Em ensinamentos discordantes. Em antagonismos. Não que eu seja da paz. Não sou. Mas devo ser meio tosca. Gosto das coisas assim: pão, pão, queijo, queijo. Demorei um tempão aprendendo com minha mãe que não se deve abrir presente na frente das pessoas, que se o presente for chinfrim, o presenteador ficará ressabiado e o presenteado também, acho. Depois me ensinaram que isso é um absurdo. Que presentes são pra serem abertos na hora e festejados, quer você goste ou não. Vale a intenção, aquela coisa toda, enfim.

Que fazer?

 Aprendi que não se deve comer muito em casa alheia. Que repetir pode parecer esganamento. Também aprendi que não se deve recusar comida em casa alheia. Que poderá parecer desfeita com o anfitrião. Que fazer?

 Aprendi que pra quem está fazendo regime, deve-se sempre dizer que emagreceu. E pra quem não está que é das gordinhas que eles gostam mais.

Aprendi que ser bom ouvinte é fundamental. Aprendi também que quem não chora não mama. Sou boa ouvinte mas muito já chorei por querer mamar e não chorar. Difícil o meio termo. E a vida corre assim: cheia de antagonismos. E de coisas que a gente faz pra, no fundo, no fundo, ser amada.

Antigamente, quando se falava pra alguém: nossa, como você está magro, a pessoa logo se desculpava dizendo que estivera doente mas que já se recuperava, que logo estaria melhor. Hoje falei isso pra alguém que me agradeceu, embevecida. Loucura.

Ainda outro dia ouvi de uma amiga que sou reservada demais. Não era elogio. Era crítica. Loucura também.

Gostaria que as pessoas chegassem num acordo e me contassem depois. Que me poupassem dos argumentos intermediários. Que quando o prato chegasse já viesse assim, cortado e servido: pão, pão, queijo, queijo!

cultura televisiva

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Tudo começou pra mim em 1957. Apenas dois anos depois de surgir a televisão em São Paulo, surgiu uma em casa. Enorme. O móvel, que a televisão até que nem.

De madeira avermelhada, não combinava com mais nada da sala. Aliás, até hoje acho que televisão não combina com nada.

Junto com a televisão, surgiram os televizinhos. Que vinham pontualmente ao cair da tarde, quando começavam os desenhos animados, o noticiário. Vizinhos que mal nos cumprimentavam, apareciam no portão sintomaticamente àquela hora. Na hora do Reporter Esso.  E se perdiam em conversas no portão, que minha mãe odiava, até serem convidados a entrar.

O que parecia ser um fator de socialização, logo tornou-se um inferno. Ninguém falava com ninguém, olhos vidrados na telinha. Eu, então, criança hiperativa, tinha que fechar a boca. Tortura.

Com o passar dos anos a coisa mudou. Televisão. Todo mundo passou a ter uma.

E elas passaram a quebrar também.

O que originou a figura do técnico da televisão. Um deus. Um mágico. Um ser esperado com ardor quando a televisão quebrava, viciados todos nós.

Um dia, o diagnóstico fatal: o tubo quebrou. Sim, as televisões tinham tubo. Uma coisa enorme lá atrás. E parece que o negócio era fatal. E caro pra trocar.

Assim, a gente que já estava em plena crise financeira na década de 60, quebrou de vez, junto com a televisão.

Por uns dois anos ela ficou quebrada. Nós também.

Então eu, viciada em TV e envergonhada de , tendo chegado lá, cair tanto assim na escala social, dizia a minhas amiguinhas de escola que não, não tinha assistido o desenho no dia anterior. Que achava TV uma droga. Que preferia ler. O que era meia verdade. Eu gostava de ler, mas gostava mais ainda de TV.

Eu me tornei, além de mentirosa eficaz, uma crítica premonitória  dos efeitos nocivos da TV.

Tudo isso terminou uns dois anos depois quando, numa levantadinha financeira do meu pai, a gente pode finalmente chamar o técnico e trocar o tubo.

Até hoje não sei o que foi sucesso naqueles anos.

Uma falha cultural…

sem lenço nem documento

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Dizem que a verdadeira liberdade é ser-se o que se é, sem precisar provar. Sem RG, sem documentos, sem lenço. Sem CPF nem talão de cheques.

Hoje eu sou essa pessoa. Sem nada além de mim mesma.

Deveria estar feliz, assim livre, leve e solta, mas não estou.

Tive um dia de cão, ontem. Perdi – ou roubaram, de maneira sutil – minha carteira. Nela, tudo de mim. Tudo que comprovava o quanto sou uma boa cidadã, pagante de impostos, cumpridora de leis. Com ela eu podia guiar e matar alguém ao volante. Com ela eu podia comprar e pagar com cheque sem fundo. Com ela eu podia me endividar a vontade com cartão. Com ela eu podia sonegar imposto de renda.

Mas nunca fiz nada disso. Minha carteira de motorista, meu talão de cheques, meu cartão de crédito, meu cartão de plano de saúde, meu CPF e meu RG nunca me serviram pra burlar lei nenhuma. Sou uma cidadã exemplar. Ou uma acomodada. Depende do ângulo pelo qual se olhe.

E, sendo assim essa pessoa tão livre, não consigo fazer nada. Pra onde eu olhe, sempre tem alguém me pedindo algum documento. Valho pouco, por mim mesma, é o que constato.

Minto, posso andar de ônibus. Meu bilhete único não estava na bolsa. Esse eu ainda tenho.

E minha história de vida. Meus gostos, meus atos, meu jeito de ser, meus amigos e família, minhas cachorras e plantas e meu tango. E meus livros e meus discos.

Eu deveria estar feliz.

Mas não estou.

E ao lembrar de mim mesma, ontem à noite, chorando sentada numa calçada, com um rato enorme saindo do esgoto e vindo na minha direção, em plena Oscar Freire, sabe o que eu sinto?

Vontade de rir.

Não é felicidade. É histeria.

piuiiiiii !

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A gente gosta de buscar ligações entre as coisas que acontecem por aí. Eu também gosto.

Uma forma de entender o mundo, uma forma de antecipar eventos, de evitar surpresas, de se preparar para a vida, sei lá.

E vamos pela vida afora fazendo as ligações mais esdrúxulas. Minha mãe jurava de pés juntos que os sonhos dela eram premonitórios. Coitada, nunca adivinhou nada, nem mesmo uma dezena no bicho. Mas isso não parecia abalar sua fé. Talvez a fé não nos sonhos, mas no seu poder pessoal. Minha mãe era uma mulher decidida. Decididamente autoritária.

Minha avó estabelecia ligações entre comidas e plantas. Havia chás pra qualquer coisa. Alguns de tradição milenar, outros que ela inventava após observação. Bom, pelo menos nenhum chá que ela fez jamais matou ninguém. Se curou, isso é outra coisa.

Meu pai estabelecia ligações entre palavras. Viciado em charadas e cruzadas, ele não podia ouvir uma palavra “difícil” sem sorrir e guardá-la, ou na memória ou em algum papelzinho. E na primeira oportunidade, usá-la em algum jogo. Lembro que ele não fez tanta festa pra mim quando eu tirava boas notas na escola mas nunca esqueci o dia em que ele me ouviu dizer a palavra “aliás”. Como ele elogiou e ficou contente! Tá bom, a palavra é até bem simples mas eu era bem pequena. E sabia o que ela significava. Aliás, aliás é uma das minhas preferidas até hoje.

Eu estabeleço ligações supersticiosas. Mesmo que não admita. Se num determinado dia em que usei roupa vermelha perdi a carteira, é bem provável que eu deixe de usar a cor. Pelo menos nos dias em que a carteira estiver recheada. Poucos.

Mais ou menos assim.

Porém com o tempo, me percebo “desfazendo” ligações. Cantores que eu não gostava por conta de posições políticas hoje passo a ouvir-lhes a voz sem rancor. E a separar o talento da ideologia.

Escritores que eu abominava por conta de vaidade ou mesmo por serem muito premiados, o que assanhava minha fúria contra best-sellers, hoje já leio. E descubro que sim, de vez em quando, a vox populi acerta. Ou a vox editorialis…

Começo a admitir um ser humano mais multifacetado do que jamais admiti. E isso alivia.

Porque eu também começo a me permitir mais facetas do que as que jamais aceitei ter. E a encará-las. Como esses espelhos que permitem a gente se enxergar inteira, de todos os ângulos.

Talvez envelhecer seja isso: desfazer ligações conhecidas. Buscar caminhos novos.

Ou, pura e simplesmente, ter mais paciência.

Paciência de esperar pra ver.

Só não sei ver o que.

A luz no fim do túnel, espero.

Ou um som de trem chegando cada vez mais rápido…