prestando contas

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Se eu fosse fazer tudo que mamãe mandava:

-eu só lavava a cabeça uma vez por semana;

-eu cobria todos os espelhos da casa quando chovesse com raios e ia me enfiar debaixo da mesa da cozinha;

-eu jamais comeria manga com leite;

-eu nunca fumaria;

-nem beberia;

-eu casaria com estrangeiro;

-eu lustraria todos os metais e maçanetas da casa. Salve o Kaol!

-eu seria professora primária;

-eu saberia cozinhar pra agarrar meu homem pelo estômago;

 

Não devo ter sido boa filha, no quesito seguir o que mamãe mandava. Mas hoje me pego cozinhando com prazer. Meu homem, esse já peguei faz tempo. Cozinhando mal pra burro mesmo. Casei sabendo fazer amendoim doce e café. Meu casamento já dura 39 anos mas eu sei fazer mais coisas do que isso, hoje. E ele é estrangeiro, naturalizado mas é.

Viu, mãe, esteja você onde estiver, até que dois ítens em dez não foi tão mal…

guarda-chuva

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A caminho de Porto Ferreira

 

Eu já pensei que eram mais ou menos como caneta Bic , ou seja, não tinham dono. A gente perde, acha, pega, compra, esquece. Enfim, uma coisa esporádica na vida que não serve a não ser em horas muito específicas. Como um professor de inglês.

Tive trocentos na vida.Guarda-chuvas, não professores de inglês.  Nem lembro de quais cores e tamanhos porque guarda-chuva não foi feito pra ficar na memória de ninguém. Ninguém nunca ouviu falar de “ai que saudades daquele guarda-chuva” ou “não troco meu guarda-chuva por nada”.

Até esta última caminhada no mato. Todo mundo sempre manda levar capa tipo poncho, daquelas que cobrem inclusive a mochila. Eu já havia usado e realmente, no inverno, não tem igual. Mas tem um inconveniente pra quem precisa andar com a vida nas costas. A vida no mato:  alguma troca de roupa, água, chinelo e nécessaire. O diabo da capa pesa. Quase meio quilo.

Na última vez em que andei no mato, começo do verão, a capa só serviu pra eu me molhar completamente: do lado de fora, chuva. Do lado de dentro, suor. Desisti.

Desta vez levei guarda-chuva.

Uau!! Nunca pensei que um mero guarda-chuva preto de camelô fosse um objeto tão essencial à vida no verão da região de Ribeirão Preto.  Ou seja, verão de quase quarenta graus.

No sol – o tempo todo- fez sombra. Sem a qual seria impossível caminhar ao meio dia.

Na chuva, proteção rápida, sem o tira e põe da capa e sem suor.

E, nas necessidades básicas da vida, as fisiológicas, que ninguém é de ferro, fez “casinha”.

Já é difícil fazer o necessário no mato, preocupando-se com seres rastejantes, urtigas traiçoeiras e equilíbrio precário devido à mochila. Agora se além disso ainda existir a preocupação de platéia indesejada, a coisa fica impossível. O guarda-chuva providenciou a privacidade, numa  boa.

E no decorrer do caminho, nas madrugadas, quando o sol ainda não incomoda ou ao entardecer, quando o calorão declina, o guarda-chuva ainda serve de cajado adicional nas subidas e nas descidas.

Guarda-chuva. Não  vivo sem ele.

Muito melhor que professor de inglês!!

anuário

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No ônibus, a garota magrinha se agita, junto da mãe. Fala mais que a boca. Me lembra alguém, perdida no tempo, que também falava assim. Que tirava dez nas notas e cinco de comportamento, numa época em que se media comportamento.

Hoje não tiro mais dez em coisa nenhuma. Tampouco alguém mede meu comportamento. Se medisse…

Bom, voltando à garotinha que me fez voltar no tempo, lá pelas tantas ela se vira e pergunta: “mãe, o que você vai fazer no natal?

Ora, diz a mãe, ainda nem acabou o carnaval e você já quer saber do natal?

É porque eu só gosto de natal e carnaval. E o carnaval já foi…”

Ta certo. O carnaval já foi.

Pra mim também. E eu, como ela, gosto de algumas poucas coisas.

Por exemplo, agora espero março.

Por que março? Porque vou ver meu filho em março.

Filho longe, coração saudoso. Mas março vem aí.

Depois páscoa. Sabe como é, não acredito mais em coelhinho, mas sou chegada em ovo. É claro que uso a desculpa de dar ovos para filhos. Desculpa que está ficando difícil, os filhos já trintões. Problema.

Depois Argentina novamente. O tango, sempre o tango. E os chinchulins. Nessa ordem. Ou não.

Depois novas caminhadas, lá por julho.

Depois natal. Passando pela primavera. Ainda bem que a primavera vem antes do Natal. Prepara a festa.

Depois a temporada de aniversários familiares e voilá! Começa tudo de novo: carnaval, páscoa, viagem, caminhadas e tango. Sempre o tango.

A vida é esperar pela festa.

Tem coisa melhor?

E aí, o que vamos fazer no natal?

vai um jardineiro aí

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Eu corto grama. Há anos eu corto grama.

Sempre morei em lugar com grama.

No começo eu não cortava. Por causa do alfanje. A ferramenta que se usava pra cortar grama antigamente. Era perigosa pra criança usar e tinha que ter a manha pra cortar direito com ela. Eu era criança e não tinha manha nenhuma. Ficava olhando o jardineiro cortar, lá em casa.

E aquilo me deixava feliz. Ver a grama bem aparadinha, toda reta, os canteiros de verdura e flor e em volta das árvores todos bem delimitados.

Cresci. Mudei pra casa com quintal grande, recém-casada. Mas não tinha exatamente grama. Era uma espécie de mato baixo. Cultivei aquilo e aquilo, seja lá o que fosse, correspondeu aos cuidados. Cresceu. Mas como era mato rasteiro, nunca precisei cortar. Quando, 3 anos depois, desalugamos aquela casa, o matinho quase cobria o quintal todo, verdinho, uma beleza. E curto.

Na casa em que moro hoje temos grama. No quintal e no jardim.

E sou eu quem corto.

Na casa que foi de minha mãe, onde hoje mora meu irmão, eu também corto a grama. Do jardim e do quintal. Eles são bem mais velhos do que eu, meu irmão e minha cunhada e não agüentariam cortar.

Mentira! Eu é que gosto de cortar mesmo. Mas acho que eles não agüentariam, com mais de setenta anos.

Eu suo a camisa mas gosto.

Hoje tenho uma máquina. Não é muito potente mas funciona bem. Dá uma dor danada nas costas mas fico feliz.

Nesta época do ano, tenho que cortar quase que de quinze em quinze dias. Uma trabalheira.

Ê felicidade!

Me sinto poderosa. Eu corto e ela cresce.

Poucas coisas atualmente correspondem aos meus cuidados como a grama aqui de casa.

Enfim uma coisa confiável.