impressões gerais

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Viajar é mais do que conhecer outros povos e culturas. Viajar é também conhecer a si mesmo.

É conviver com suas limitações e medos. É saber o tamanho da sua segurança ou o tamanho da sua dependência.

Eu adoro viajar. Pra fora ou pra dentro de mim.

Devo confessar que pra dentro de mim dói mais. Eu me imagino, às vezes, como uma cidade limpa e moderna. Solidária, amistosa e afetiva.

E muitas vezes descubro um monte de sujeira debaixo do tapete, um monte de rancor e medo pairando no ar qual tempestade que se avizinha no mar. Daquelas que dão mais medo.

Viajar porém, nestes últimos tempos, deu menos medo do que eu podia imaginar.

Consegui agüentar avião de variados tamanhos com doses mínimas de rivotril.

Não é que não imagine mais que o ar vai me faltar ou que o avião não vá cair numa sacolejada maior. Mas com Rivotril, sempre penso: “ e daí? Cair, caiu. Não tô nem ligando”. Interessante o efeito “distanciamento nem tão crítico” que o Rivotril propicia.

Também o medo de não falar a língua local. Descobri uma coisa sensacional: sempre haverá alguém de fala hispana pra me salvar. Qual Sancho Pança. Aquele ser confuso e prestativo, que, afinal de contas, falava espanhol. Em Londres ou no meio dos EUA, em Denver ou Tulsa, sempre houve um mexicano, um espanhol, um equatoriano, um argentino, meus anjos da guarda de fala hispana.

E mímica. Eu, que nunca fui tão boa assim em jogos de mímica, descobri que a necessidade é boa mestra. Consegui coisas incríveis apenas usando as mãos, sem sacanagem, que é que vocês estão pensando?!

Vi neve.

Vi a terra dos Beatles.

Vi Compostela.

Vi Portugal e Espanha. Vi São Francisco e até mesmo Nova York debaixo de meio metro de gelo.

Vi Soledad e Manuel, Vi Antonio e quase vi Cristina.

Vi a Maja desnuda e Guernica.

E vi meu filho.

E vi que posso sair por aí sem medo. Enquanto souber sorrir e falar portunhol, enquanto souber dizer por favor e muito obrigado, estarei safa.

Pensar que quando minha mãe me ensinou essas coisas tão simples estava me ensinando a viver !

neve e chocolate

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Eu já  vi neve em muitos e muitos filmes. Em quadros. Em fotos. Em calendários e postais.

Nunca porem ao vivo, em frio e movimento. Em sensação e gosto. Em cheiro e visão.

 

Cada vez que eu pedia pra alguem me explicar como era, as explicações eram diferentes de pessoa pra pessoa. Muito diferentes. De tal forma que comecei a achar que neve era como chocolate. Ou se gosta ou não. Mas de qualquer forma será inexplicável.

Fui a Lake Tahoe. Divisa da Califórnia com Nevada. Neve adoidado. Frio de rachar. E no intervalo entre uma nevasca e outra, chuva.

 

Sabe aquela raspadinha, aquele sorvete de pobre, que não passa de gelo raspado com uma groselha: Neve não e assim. Mas e parecida.

 

Sabe clara em neve, quando a gente acerta o ponto, que e quando a gente vira a tigela e a clara não cai. Neve também não e assim. Mas e parecida.

 

Sabe aquele gelo que forma no freezer – pelo menos no meu, que sempre esqueço de limpar – que fica de um branco opaco. Neve também não e assim. Mas e parecida.

 

Bom, neve e mesmo como chocolate. Gostosa e difícil de explicar. E ou se gosta ou não se gosta.

Ou, como foi o meu caso, gosta-se com moderação. Olhando pelas janelas, do ponto de vista de um lugar aquecido. Ao vivo e a cores, muito fria e molhada.

 

Como chocolate. Que eu amo, mas tenho que moderar. Do ponto de vista de uma eterna controladora de gorduras que no entanto ama o gosto, o cheiro, a textura, a cor e o som.

Neve também.

 

Amei. Mas não pretendo ver de novo tão cedo.

Tem que apreciar com moderação.

 

Pra mim, bicho natural de mata atlântica e pais tropical, neve e como chocolate suíço.

De vez em quando. Com moderação.

 

Se eu fosse definir, uma espécie de clara em neve mais molhada e menos pegajosa.

Um isopor molinho. Um marshmalow durinho. Uma raspadinha de pobre sem o suco de groselha.

 

Um chocolate gostoso. .

madrugada em Phoenix

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Meia noite. Eu podia estar começando um conto de terror. Podia estar matando e estar roubando. Podia estar dormindo em cama quente e conhecida.

Mas estou aqui. Junto com mais cinco gatos pingados e sonados, mais um funcionário de cabelos brancos e bermudas num frio de zero grau, mais uma tiazinha da faxina passando freneticamente um aspirador de pó acoplado as suas costas como um caracol  da limpeza.

Estou aqui num aeroporto no Arizona, em Phoenix.

Nunca pretendi conhecer Tulsa nem muito menos Phoenix. Mas conheci. E por força de um mau tempo dos diabos em Chicago, o avião que eu tomaria pra me levar a Frisco atrasou quatro horas e nos deixou a nos todos, cinco gatos pingados e sonados, dormindo no aeroporto. Ou tentando, porque o caracol da limpeza faz um barulhão.

A vida tem dessas coisas esquisitas. Phoenix também e muito esquisita.

E estas pessoas por aqui, enchendo a cara de snaks, de bundas e peitos enormes, são mais esquisitas ainda.

So de pensar que vou dividir um banco de avião com eles, me da um frio na barriga.

Acho que vou começar a comer snaks também. Preciso tentar competir por um lugar de igual pra igual.

Quem sabe daqui mais cinqüenta quilos. Meu vôo esta atrasado quase cinco horas.

Cinqüenta em cinco, isso me lembra alguma coisa…

reabrindo a lojinha

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Se isto fosse um noticiário das 8, eu podia dizer que “tem chovido nos últimos dias mais do que todo o mês passado, nas últimas décadas. Ou mais do que todas as últimas décadas, no mês passado. Ou mais do que todo o mês, na década passada.” Sei lá, jornal das 8 é confuso. Eu também.

Mas não vou falar disso. Nem vou falar do bug que me acometeu neste último mês. Até porque parece que é meu carma de fim de ano. Já é a terceira vez, nestes cinco ou seis de blog, que acontece uma pane inexplicável, sempre nessa época. Deve ser o inferno astral, que me acomete em dezembro.

Mais do que nas últimas décadas.

Não este, porém. Nunca antes, como diria aquele presidente – em quem eu votei e lastimei os rumos tomados, embora não chore por leite e votos derramados- nunca antes porém tive um mês de inferno astral tão bom. Se o inferno astral foi assim, não vejo a hora de chegar o paraíso astral!

Conheci a Europa. Sempre achei que conheceria a Europa algum dia, mas no fundo sempre tive dúvidas.  Sempre o vil metal, não a falta de vontade. E conheci. Um mês zanzando por lugares nunca antes – de novo, presidente!- zanzados. E como foi bom!

Conheci também alguns amigos virtuais. Que me refizeram a fé na internet. Se tudo o mais de internet for uma merda, os7 ou 8 amigos virtuais que aqui fiz já fizeram tudo valer a pena! Os bugs, o preço da NET, os chutes no computador, as panes, a banda larga estreita, enfim, tudo!

Pensei em parar com essa coisa de blog, mas é difícil. Já viciou. Eu gosto de escrever. Mesmo que ninguém leia, eu leio e o ato de por na tela pensamentos vagantes pela cabeça me faz refletir. Me diverte. Me organiza o inorganizável. E se, de quebra, alguém mais ler e se reconhecer nestas mal digitadas, e melhor ainda, se tornar amigo, que mais posso querer?

Então estou de volta. Por enquanto com visual limpo. Mas vai melhorar.

E entre uma pane e outra, em franco inferno astral, volto a viajar. Vou pra Tulsa.

Tulsa? Tulsa!

Cada coisa que acontece na vida da gente…