reino animal

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Cansei de ser chamada de espírito de porco.

Não sabia – e não sei – de onde teria vindo isso. Sabia, isso sim, que era ofensivo e ofendida eu ficava, mas minha mãe não parecia se importar com isso. Ou, pensando bem, talvez fosse isso mesmo que ela quisesse.

Enfim, mistérios que morreram com ela.

Porco pra mim é um bicho gostoso. Morto, esquartejado e assado.

Há umas décadas atrás – meu deus, já conto o tempo por décadas e não sei nem mesmo precisar quantas! – conheci o sítio dos pais de um amigo. Eram portugueses e criavam porcos, entre outras coisas. Eu, que relacionava porcos com a ideia antiga de que fossem sujos e comessem restos de qualquer coisa, acabei com todos meus preconceitos na hora. Tomavam banho todo dia, comiam ração toda balanceada, eram enormes, rosados e…simpáticos!

Também já fui chamada de corujinha, pelo meu pai, mas acho que se deve mais à minha dificuldade de enxergar do que à minha capacidade de virar o pescoço pra todo lado, embora ela exista até hoje. Tá bom, hoje o pescoço parece ter vidro moído cada vez que eu viro mas ainda viro. Yeees!!!

Meu marido muito raramente me chama de gatinha. Pelas minhas garras afiadas, suponho, mais que pelos miados manhosos.

No trânsito já me chamaram de vaca, mas isso não vale. Quem não?

Também já disseram da minha língua bifurcada, como as coleguinhas do reino animal. Hoje estou mais mansa, porém. Cobra velha só toma sol.

Já fui sapo de fora sem poder chiar em reuniões, já fui formiga em cobertura de bolo de aniversário e até hoje continuo sendo rato de livraria.

Peixe fora dágua sou sempre que me vejo em lugares muito sofisticados e pinto no lixo em restaurantes populares.

Fico uma fera quando mexem nas minhas coisas e embora disfarce, urro por dentro ao tomar injeção.

Mas espírito de porco, ainda não entendi. Será que é gostoso como o resto do bicho??

 

coisas sem muito sentido

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Nunca acreditei muito em conflito de gerações.

Eu vivi e vivo inúmeros conflitos não necessariamente geracionais. Muitas vezes são dentro da minha mesma geração. Por vezes são entre gerações diferentes, como minha relações com crianças pequenas. Mas não é por serem de gerações diferentes. É por serem pequenas mesmo. Quando crescem um pouco, o suficiente pra dialogar, aí o conflito costuma acabar.

Em todo caso, isso de geração existe pras coisas que estão no mundo, como diria o Paulinho e só quem é da minha geração saberá com certeza de qual Paulinho falo.

Eu nunca assisti isso de Game of Thrones. Nem assisto séries, que não tenho paciência. Uso bastante computador mas não tenho celular. Faço crochê e tricô mas nunca pintei as unhas.

Sou viciada em leite e fumei dos 12 aos 50 anos.

Sou capaz de comer chinchulin e amar e não ponho ostra na boca nem sob tortura.

Essas coisas são ligadas a determinadas idade algumas, outras acho que são bem pessoais mesmo. Mas me identifico pouco com meu padrão geracional.

Adoro dançar, é verdade, mas nem só de tango eu vivo. Amo hip-hop, street dance, grafites. E sou capaz de ficar horas olhando a meninada do skate. Me sinto bem nas milongas e me sinto bem nas quebradas.

São coisas de geração? Sei lá. Em casa havia várias gerações e várias nacionalidades. Eu transitava legal por elas.

Pensando bem, gente, quando é legal, é muito bom, independente de geração.

Mas eu gosto também de cachorros, gatos, porquinhos da índia, ursos,camelos e corujas.

Tá bom, de peixe não.

Será geracional?

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Essa foto também é assim. Sem muito sentido. Mas eu vi, gostei e fotografei.

sonhos e guarda-roupas

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Sonhei ontem que estava tendo uma aula sobre guarda-roupa. Muito esquisito, até porque a professora que dava aula – que na realidade me deu aula de música- havia desenhado na lousa um guarda-roupa por dentro e estava falando de química e não de roupas. Enfim, Freud e seguidores que interpretem. Eu só sonho e olhe lá.

Mas fiquei pensando, agora já acordada – médio – nos guarda-roupas da minha vida. Tiveram uma enorme importância, sim, e não por guardarem roupas, exatamente.

O primeiro deles, no quarto de criança compartilhado com minha avó e meu irmão do meio, na realidade eram dois. Um de três portas e outro de duas. De madeira envernizada que formava uns desenhos. E puxadores forrados de madrepérola. Devia ser uma espécie de plástico que imitava a madrepérola.

Eu adormecia olhando para os desenhos das portas e imaginando histórias geralmente passadas em florestas de ciprestes, que, afinal, era o que os desenhos sugeriam. Isso enquanto meu irmão lia e não apagava a luz. Boas lembranças. Do irmão, da avó e do guarda-roupa.

Recém casada tivemos um guarda-roupa mínimo. O meu de solteira, com duas portas. Como a grana também era pequena e a nossa vaidade nunca foi lá essas coisas, ele dava e sobrava.

Muitos anos depois, muitos mesmo, filhos fora de casa, maridão fez uso de seus dotes de marceneiro e construiu um super closet no quarto que havia sido de meu filho. Amplidão!

Agora, neste pequeno apartamento, continuo tendo um closet. Que, quando mudei, olhando a casa com pressa e à noite, imaginei ser do tamanho do anterior.

Doce ilusão! Quando a mudança chegou e entrei, de dia, no tal closet, descobri que tudo não passava de imaginação criada por uma parede de espelho. O diabo do closet tinha a metade do tamanho esperado.

Mas, a bem da verdade, nossa vaidade também não aumentou lá essas coisas. Foi só nos desfazermos de metade do que tínhamos e pronto.

Daí eu sonho com guarda-roupa.

Que será que isso quer dizer? Que estou me sentindo apertada, tolhida? Que está na hora de ir às compras sem medo de ser feliz? Ou que morro de saudade da avó de um lado, me fazendo rezar em italiano e do irmão do outro, me fazendo gostar de música popular, ouvida naquele radião de válvulas?

grafite

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Sempre gostei muito de desenhar. Infelizmente, nas paredes de casa nunca me foi permitido. Daí ficou aquela coisa guardada lá dentro, aquela vontade…

Em priscas eras, de campanhas eleitorais sem dinheiro – sim, porque houve isso!- a gente comprava tinta de poucas cores e saía por aí escrevendo o nome dos candidatos preferidos nas paredes. Também na época da ditadura a gente escrevia palavras de ordem. Nessa época, porém, tinha que ser bem rápido. A coisa não era fácil. Daí muitas palavras de ordem na época estarem escritas pela metade. O tempo não deu pra terminar.

A gente, porém, só escrevia em muros autorizados ou de terrenos abandonados. Sempre achei uma sacanagem escrever em muros particulares. O dono da casa não tinha que concordar com minhas idéias. E a gente fazia a coisa bonita. Com letras sombreadas, com volume e tal. Na realidade, fomos o ancestral do out-door.

Mas essa escrita toda não supria aquela vontade antiga de ver parede bem decorada.

Daí apareceu por aqui o grafite. Que coisa boa!

E eu, que já não tenho tanta saúde assim pra carregar latas de tinta e subir nas paredes, passei a fotografar grafites. Dá uma sensaçãozinha assim de coparticipação, de cumplicidade, é bom demais!

Juntei minha mania de andar a pé com minha pequena notável – aquela maquininha que cabe na mão e tem um zoom considerável- e voilá! Ando e fotografo. Fotografo e ando. E fico bem contente pois sei que, mesmo que o prefake horrendo cubra esses grafites, estou dando uma ajudinha pra que eles fiquem pelo menos registrados. Minha galeria virtual já passa de duzentos. E continua crescendo.

E olhe que só ando pela zona oeste e um pouco do centro!

Bem-aventurados os grafiteiros porque deles é o reino da criatividade, da generosidade, da arte espalhada sem cobrança, pra todo mundo, indiscriminadamente!

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meninos, eu vi!

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Ela vende espetinhos de carne na esquina.
Numa esquina bem movimentada, onde passam ônibus e carros mais um monte de pedestres.
E cachorros.
Ela gosta de cachorros. Muito.
O vira-lata chega de mansinho, como vira-lata costuma chegar quando vai aprontar alguma e pula na churrasqueira.
Não alcança, mas um dos espetos cai.
Ela, a princípio de costas pra cena, dá um grito e pega o espeto.
Não, meu amor, você não pode comer isso. Tem muita pimenta! Vai te fazer mal!
O vira-lata, ressabiado, se afasta.
Ela repõe o espeto que havia caído na calçada da esquina movimentada, cheia de ônibus, carros e pedestres, e logo depois o vende.
Ela gosta muito de cachorros.

cidade

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Dois braços, duas pernas, um nariz, pulmões e rins não fazem um ser humano. Pode somar todos os pedacinhos que temos que ainda assim não teremos um ser humano.

Por que? Porque o ser humano é muito mais do que a simples soma de seus pedaços. Conforme o estado desses pedaços, conforme o alimento que nutre esses pedaços, conforme o ar que respiram estes pedaços, conforme a personalidade que habita o ser que detém esses pedaços, enfim, conforme o que somos e tudo que nos cerca, podemos então ser chamados de seres humanos.

Uma cidade não é muito diferente. Diz-se que uma cidade está doente se o ar que as pessoas respiram nela está contaminado. Diz-se que uma cidade está mal se as pessoas que nela habitam não têm qualidade de vida decente. Diz-se que uma cidade não é hospitaleira se as pessoas que chegam nela não encontram abrigo, emprego, condições de viver com dignidade.

Minha cidade pinta as unhas. Minha cidade canta alto. Mas não consegue mais esconder seus tumores e febres, cada vez mais constantes, suas perebas cada vez mais recorrentes.

Quando você vai ao médico, ela não pergunta o que está bem. Pergunta o que vai mal. Porque é isso que precisa ser cuidado.

Se eu estou com micose nas unhas, não quero manicure que as pinte nem verdugo que decepe meus dedos.

Por que um prefeito teria que ser diferente?

Tenho medo das respostas.

cidades mortas

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Não é de hoje que acho cemitérios lugares calmos. Quando era pequena e acompanhava minha mãe ao túmulo da família, onde ela ia com regularidade limpar, polir, trocar toalhas e fotos ( minha mãe tinha mania de limpeza no mundo dos vivos e no dos mortos), eu ficava brincando por ali. Olhando as estátuas, abrindo portinholas de túmulos, metendo o nariz em toda parte. No nosso túmulo, eu cansava de chamar por uma irmã que tive mas morreu muito antes de eu nascer. Fez-me muita falta, uma irmã.

Bem mais tarde, quando tive filhos, às vezes ia passear e ler no cemitério que havia perto de casa. Um grande jardim, sossegado, cheio de flores e nenhuma estátua.

Depois deixei de me interessar. Não sou religiosa e a ligação que tenho com mortos é a do meu afeto. Sinto muita falta de uns, humanos ou animais, de outros nem lembro. Quando minha mãe morreu, deixei ao encargo de uma prima os cuidados com o túmulo. Eu desejo ser cremada, então não preciso ter onde cair morta. Uma assopradela e voilá! Minhas cinzas se juntarão às infinitas cinzas e dejetos desta cidade.

Mas desde que encontrei uma máquina fotográfica que me acolhe e à minha miopia sem brigas, os cemitérios voltaram a me interessar.

São exemplos de estatuária muito bons. A maioria é tosca e comercial, mas alguns nos revelam muito mais do que o nome do morto. Vê-se que a estátua foi escolhida pra refletir um sentimento, às vezes pra refletir uma condição social, às vezes até mesmo a menção do que possa ter sido a vida do morto em questão.

Mais uma vez, você é capaz de aprender sobre a vida olhando os mortos. Ou melhor, o que os vivos que ficaram sentem em relação à morte. Eu sempre gostei de observar gentes. Passei a gostar de observar as cidades de gentes mortas, também.

Algumas fotos:

 

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sabia que você pode morrer cedo?

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Abro o mail e é essa a pergunta intempestiva que vem na caixa de spam. Sim, porque os intempestivos já vão direto pro spam, que é onde devem ficar, bando de mal-educados.

Mas voltando ao assunto,  como assim morrer cedo? Claro que eu sei que posso morrer. Não devia, mas posso. A qualquer momento. Engasgada com um caroço de azeitona ou atravessando a rua.

Isto posto, por que a pergunta? Se será cedo ou tarde depende muito de quem pergunta e de quem responde. E, principalmente, de quem me conhece ou não.

Eu já quis morrer. Na infância, em crise com os pais, mais especificamente com a mãe. Na vida adulta em momentos de depressão que quando vem funda não dá tempo de pensar em qualquer outra saída.

Mas foram momentos. Porque o instinto de sobrevivência em mim é forte pra cachorro. Aqueles vira-latas que ficam sem comer, apanham nas ruas mas resistem. Pelo menos é o que quero imaginar.

Então, pra mim, morrer sempre será cedo. Cedo pra fazer a montanha de coisas que quero e que vou ticando, com prazer. Se a lista diminui muito, eu vou pondo outros itens, qual sherazade fajuta inventando histórias pro sultão despótico.

Algumas pessoas talvez tenham querido que eu tivesse morrido bem mais cedo. Espero que não sejam muitas, mas já tive alunos que reclamaram de notas, colegas de trabalho que possivelmente tenham desejado isso em algum momento. Nunca tive inimigos declarados, mas no quesito ódio, a gente sempre tem surpresas.

Outras devem querer que eu viva bastante, aquelas que me amam. Também não são tantas assim, mas que as há, há.

Eu, pessoalmente, só me preocupo com isso em alguns momentos. Em aviões turbulentos, em gripes doloridas, em esperas angustiantes de resultados de exames médicos, enfim, aqueles momentos em que uma pessoa catastrofista como eu imagina ser chegada a hora final.

Mas em nenhum desses momentos, podem ter a certeza, me veio à cabeça pensar em um seguro de vida. Só valeria se um seguro de vida me garantisse, 100 % , a vida. Nem precisava ser eterna, só comprida o suficiente. E cumprida a contento.

Como nenhum garante isso, você, corretor ou corretora que me pergunta por e-mail, desavergonhadamente, se eu sei que posso morrer cedo, vá se catar!

Eu sei. E não tô nem aí.

 

 

 

biscoito e escada rolante

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Se alguém tem ou teve, como eu, uma mãe que nunca- eu disse nunca – subiu em uma escada rolante, saberá do que estou falando.

Tá certo que não existiam tantas escadas rolantes naquela época.. Ainda não existiam os shoppings e na loja mais próxima disso na época, o Mappin, a gente ia de um andar ao outro por elevador, com aqueles incríveis ascensoristas recitando tudo que havia em cada andar, sem hesitação e sem – tenho certeza disso- ganhar a mais pela performance.

Mas ela não subia na rolante. Pra mim, no auge da minha infância, aos seis, sete anos, isso era uma tortura. Porque no começo ela também não me deixava subir. Sabe com qual argumento? Se eu não descesse em tempo, a escada rolante ia me achatar, igual biscoito de forno. Eu morria de medo disso.

Aos poucos, porém, ela acabou por me deixar usar a rolante e aí era assim: quando saíamos juntas, ela ia de escada comum e eu subia sozinha na rolante, morrendo de vergonha alheia.

Hoje eu faço como ela. Subo sempre pela escada comum.

Medo de virar biscoito?

Não. Pra gastar calorias e exercitar as pernocas sempre.

Na realidade, por medo de virar pão de queijo, aqueles roliços…

pequenas coisas ridículas

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Vivemos tempos bicudos. Em todos os sentidos.

Em tempos bicudos, há que se buscar segurança.

Tudo bem, dinheiro dá segurança, ou compra; comida e despensa cheia também, como diziam meu pai e minha mãe, contemporâneos de guerras; família para uns, religião para outros, sei lá, um monte de coisas pode dar segurança para um monte de pessoas.

Eu tenho umas coisas estranhas para me dar segurança. Marido e filhos, alguns amigos, casa própria e despensa cheia, que eu sou bem filha dos meus pais, mas existem outras coisas pequenas, dessas que passam despercebidas pela vida e que quando vão embora a gente se sente assim, meio sem chão.

Minha cachorra medrosa, que morreu ano passado. Cheia de medo, mas eu podia ter certeza que quando ela me olhava nos olhos – o que ela fazia sempre – e me percebia mal, viria e se sentaria ao meu lado. Quanta segurança nesse simples ato!

Comer pipoca doce, daquelas cor de rosa. Custa um real. Ou três, agora com a inflação. Um pacotinho daqueles que existem em qualquer boteco, por pior ou mais longe que seja, me alivia.

Não como sempre. Nem todos os dias. Mas só saber que, se eu quiser ele não vai me faltar, me dá um alívio imenso. E será sempre igual, crocante e doce, quase um abraço apertado.

Meu velho robe de sair da cama. Só lembro dele no frio. Tem cheiro de banho, de talco, é peludo, quentinho. Fica me esperando atrás da porta. Fiel.

Cheiro de padaria. Em qualquer lugar do mundo, é sempre igual. Convidativo, repousante como uma velha trilha conhecida.

São coisas pequenas, vejo agora. Baratas. Coisas materiais, menos o olhar da minha cachorra, imaterial e triste. Mas todas passam carinho.

Em tempos bicudos, há que se armar de portos, aqui e ali, mas ir andando, lutando aqui, quebrando o pau ali, pulando obstáculos mas sabendo que a cada tanto pode-se ter um ponto de apoio.

Fala-se muito em coisas espirituais, em ajuda psicológica, em grupos de apoio. São bons. Mas eu gosto de pensar nas minhas pequenas coisas ridículas, que me seguram a cada tanto.  Um pacote de pipoca, um robe, um cheiro.

As pequenas coisas ridículas me fazem a existência menos.

Ridícula.

Em tempos bicudos.