cidades mortas

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Não é de hoje que acho cemitérios lugares calmos. Quando era pequena e acompanhava minha mãe ao túmulo da família, onde ela ia com regularidade limpar, polir, trocar toalhas e fotos ( minha mãe tinha mania de limpeza no mundo dos vivos e no dos mortos), eu ficava brincando por ali. Olhando as estátuas, abrindo portinholas de túmulos, metendo o nariz em toda parte. No nosso túmulo, eu cansava de chamar por uma irmã que tive mas morreu muito antes de eu nascer. Fez-me muita falta, uma irmã.

Bem mais tarde, quando tive filhos, às vezes ia passear e ler no cemitério que havia perto de casa. Um grande jardim, sossegado, cheio de flores e nenhuma estátua.

Depois deixei de me interessar. Não sou religiosa e a ligação que tenho com mortos é a do meu afeto. Sinto muita falta de uns, humanos ou animais, de outros nem lembro. Quando minha mãe morreu, deixei ao encargo de uma prima os cuidados com o túmulo. Eu desejo ser cremada, então não preciso ter onde cair morta. Uma assopradela e voilá! Minhas cinzas se juntarão às infinitas cinzas e dejetos desta cidade.

Mas desde que encontrei uma máquina fotográfica que me acolhe e à minha miopia sem brigas, os cemitérios voltaram a me interessar.

São exemplos de estatuária muito bons. A maioria é tosca e comercial, mas alguns nos revelam muito mais do que o nome do morto. Vê-se que a estátua foi escolhida pra refletir um sentimento, às vezes pra refletir uma condição social, às vezes até mesmo a menção do que possa ter sido a vida do morto em questão.

Mais uma vez, você é capaz de aprender sobre a vida olhando os mortos. Ou melhor, o que os vivos que ficaram sentem em relação à morte. Eu sempre gostei de observar gentes. Passei a gostar de observar as cidades de gentes mortas, também.

Algumas fotos:

 

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sabia que você pode morrer cedo?

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Abro o mail e é essa a pergunta intempestiva que vem na caixa de spam. Sim, porque os intempestivos já vão direto pro spam, que é onde devem ficar, bando de mal-educados.

Mas voltando ao assunto,  como assim morrer cedo? Claro que eu sei que posso morrer. Não devia, mas posso. A qualquer momento. Engasgada com um caroço de azeitona ou atravessando a rua.

Isto posto, por que a pergunta? Se será cedo ou tarde depende muito de quem pergunta e de quem responde. E, principalmente, de quem me conhece ou não.

Eu já quis morrer. Na infância, em crise com os pais, mais especificamente com a mãe. Na vida adulta em momentos de depressão que quando vem funda não dá tempo de pensar em qualquer outra saída.

Mas foram momentos. Porque o instinto de sobrevivência em mim é forte pra cachorro. Aqueles vira-latas que ficam sem comer, apanham nas ruas mas resistem. Pelo menos é o que quero imaginar.

Então, pra mim, morrer sempre será cedo. Cedo pra fazer a montanha de coisas que quero e que vou ticando, com prazer. Se a lista diminui muito, eu vou pondo outros itens, qual sherazade fajuta inventando histórias pro sultão despótico.

Algumas pessoas talvez tenham querido que eu tivesse morrido bem mais cedo. Espero que não sejam muitas, mas já tive alunos que reclamaram de notas, colegas de trabalho que possivelmente tenham desejado isso em algum momento. Nunca tive inimigos declarados, mas no quesito ódio, a gente sempre tem surpresas.

Outras devem querer que eu viva bastante, aquelas que me amam. Também não são tantas assim, mas que as há, há.

Eu, pessoalmente, só me preocupo com isso em alguns momentos. Em aviões turbulentos, em gripes doloridas, em esperas angustiantes de resultados de exames médicos, enfim, aqueles momentos em que uma pessoa catastrofista como eu imagina ser chegada a hora final.

Mas em nenhum desses momentos, podem ter a certeza, me veio à cabeça pensar em um seguro de vida. Só valeria se um seguro de vida me garantisse, 100 % , a vida. Nem precisava ser eterna, só comprida o suficiente. E cumprida a contento.

Como nenhum garante isso, você, corretor ou corretora que me pergunta por e-mail, desavergonhadamente, se eu sei que posso morrer cedo, vá se catar!

Eu sei. E não tô nem aí.

 

 

 

biscoito e escada rolante

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Se alguém tem ou teve, como eu, uma mãe que nunca- eu disse nunca – subiu em uma escada rolante, saberá do que estou falando.

Tá certo que não existiam tantas escadas rolantes naquela época.. Ainda não existiam os shoppings e na loja mais próxima disso na época, o Mappin, a gente ia de um andar ao outro por elevador, com aqueles incríveis ascensoristas recitando tudo que havia em cada andar, sem hesitação e sem – tenho certeza disso- ganhar a mais pela performance.

Mas ela não subia na rolante. Pra mim, no auge da minha infância, aos seis, sete anos, isso era uma tortura. Porque no começo ela também não me deixava subir. Sabe com qual argumento? Se eu não descesse em tempo, a escada rolante ia me achatar, igual biscoito de forno. Eu morria de medo disso.

Aos poucos, porém, ela acabou por me deixar usar a rolante e aí era assim: quando saíamos juntas, ela ia de escada comum e eu subia sozinha na rolante, morrendo de vergonha alheia.

Hoje eu faço como ela. Subo sempre pela escada comum.

Medo de virar biscoito?

Não. Pra gastar calorias e exercitar as pernocas sempre.

Na realidade, por medo de virar pão de queijo, aqueles roliços…

pequenas coisas ridículas

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Vivemos tempos bicudos. Em todos os sentidos.

Em tempos bicudos, há que se buscar segurança.

Tudo bem, dinheiro dá segurança, ou compra; comida e despensa cheia também, como diziam meu pai e minha mãe, contemporâneos de guerras; família para uns, religião para outros, sei lá, um monte de coisas pode dar segurança para um monte de pessoas.

Eu tenho umas coisas estranhas para me dar segurança. Marido e filhos, alguns amigos, casa própria e despensa cheia, que eu sou bem filha dos meus pais, mas existem outras coisas pequenas, dessas que passam despercebidas pela vida e que quando vão embora a gente se sente assim, meio sem chão.

Minha cachorra medrosa, que morreu ano passado. Cheia de medo, mas eu podia ter certeza que quando ela me olhava nos olhos – o que ela fazia sempre – e me percebia mal, viria e se sentaria ao meu lado. Quanta segurança nesse simples ato!

Comer pipoca doce, daquelas cor de rosa. Custa um real. Ou três, agora com a inflação. Um pacotinho daqueles que existem em qualquer boteco, por pior ou mais longe que seja, me alivia.

Não como sempre. Nem todos os dias. Mas só saber que, se eu quiser ele não vai me faltar, me dá um alívio imenso. E será sempre igual, crocante e doce, quase um abraço apertado.

Meu velho robe de sair da cama. Só lembro dele no frio. Tem cheiro de banho, de talco, é peludo, quentinho. Fica me esperando atrás da porta. Fiel.

Cheiro de padaria. Em qualquer lugar do mundo, é sempre igual. Convidativo, repousante como uma velha trilha conhecida.

São coisas pequenas, vejo agora. Baratas. Coisas materiais, menos o olhar da minha cachorra, imaterial e triste. Mas todas passam carinho.

Em tempos bicudos, há que se armar de portos, aqui e ali, mas ir andando, lutando aqui, quebrando o pau ali, pulando obstáculos mas sabendo que a cada tanto pode-se ter um ponto de apoio.

Fala-se muito em coisas espirituais, em ajuda psicológica, em grupos de apoio. São bons. Mas eu gosto de pensar nas minhas pequenas coisas ridículas, que me seguram a cada tanto.  Um pacote de pipoca, um robe, um cheiro.

As pequenas coisas ridículas me fazem a existência menos.

Ridícula.

Em tempos bicudos.

as que vieram antes

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Eles eram bem pobres. Não pobres o suficiente pra passarem fome, mas pobres o suficiente pra não terem sapatos pra ir a escola. Pelo visto não eram os únicos naquela escola, mas ela tinha vergonha e escondia os pés debaixo da saia longa. No recreio não brincava. Ficava ali, escondendo os pés.

Isso até o primário. Depois disso o pai disse : lugar de menina é ajudando a mãe na cozinha. Chega de estudar. A mãe era bastante doente, um câncer indo e vindo. Por sorte, acabou indo e ela morreu bem mais velha, de outra coisa. Mas isso é outra história.

Ela saiu da escola contrafeita. Gostava de estudar.

Logo depois, o pai morre. A mãe, aquela com o câncer indo e voltando, teve que cuidar de tudo. A irmã mais velha foi trabalhar, a menor ainda era bem pequena e os dois do meio se viraram. Ela ficou com a mãe, na cozinha.

Aprendeu a cozinhar bem. Casou cedo. Teve quatro filhos. Uma morreu bem pequena, os outros “vingaram”.

A mais nova, nunca deixou chegar nem perto da cozinha. Filha minha tem que estudar. Pra trabalhar e pagar empregada, se quiser.

Quando o namoradinho da filha entrou na casa pela primeira vez, um longo discurso o esperava.

Nem pense em  casar se ela não acabar de estudar.

Ela estudou. E quando casou, não sabia fazer nem mesmo um cafezinho.

Tudo bem. Café se aprende a fazer. Mas a estudar e ter independência, foi com ela que aprendi a importância.

Minha mãe e minha avó. As que lutaram antes de mim.

sozinha

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A gente faz coisas meio esquisitas quando acha que ninguém está olhando.

Sei lá, eu faço.

Principalmente quando estou sozinha em casa.

Quando era pequena e ficava sozinha, lá com uns 10 ou 12 anos, eu fumava. Daí nem precisava me trancar no banheiro e ficar fumando com o chuveiro ligado e o cigarro saindo pela janelinha (como se ninguém fosse perceber depois). Como meu pai era fumante, cigarro havia em casa. Depois de um tempo eu passei a economizar o dinheiro do lanche e comprava cigarro, por unidade.

Depois de casada, com minha própria casa, com filhos, ficar sozinha significava que o pai havia levado as crianças pra algum lugar, cinema, teatro, algo assim. Aí eu descansava. E arrumava a bagunça da casa sem as crianças por perto.

Hoje, aposentada, ficar sozinha me faz fazer coisas patéticas. Eu faço comida para mim, que sou gulosa, mas nem pensar em usar pratos pra comer. E ter que lavar depois? Não mesmo. Como na panela. Ah, é claro que sozinha não tem aquela de fazer salada, prato principal, acompanhamento, legumes ou verdura. Faço aquele “tamo junto” e como com colher. Na panela.

Também não como na mesa. Acho que uma das piores formas de solidão é comer sozinha. Então pego minha panelinha, minha colher e vou pra frente da TV. Mesmo que seja só pra ouvir o som de uma voz humana.

Sozinha em casa também costumo falar comigo mesma. E respondo. E até já cheguei ao cúmulo de brigar comigo. E ficar mal- humorada. Isso é meio esquiso, eu sei, mas sou várias.

Canto também.

Se de garota eu adorava a chance de ficar sozinha, e ia correndo experimentar as roupas da minha mãe, as jóias, os sapatos, hoje fico bastante chateada com isso. Posso até comprar alguma coisa, mas evito. Porque se eu falo comigo mesma e respondo, sou, porém, incapaz de dar uma opinião na qual eu confie sobre uma roupa, um cabelo, uma bijou. Aí confio mais em outras pessoas. Eu mesma sou muito crítica.

Ficar sozinha ainda tem seu lado bom, hoje em dia. Mas por pouco tempo. Embora goste de dormir sozinha, porque de manhã a cama está arrumadíssima – que eu me mexo pouco- por outro lado não ter interlocutor de peso me derruba.

Eu respondo a mim mesma. Mas meu outro eu não me leva a sério.

A resposta que eu costumo ouvir de mim mesma, quando sozinha, querendo saber a opinião de alguma coisa, sempre é:

– ah, sério que você quer saber isso mesmo?

Eu fico sozinha, mas eu e meus outros eus não conseguimos manter a ordem aqui dentro.

aos aniversariantes do dia

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Dois amigos aniversariam hoje. Um amigo presencial, de longuíssima data. Outra, amiga virtual, de bastante tempo.

Amizades diferentes mas que têm algo em comum: gosto bastante deles.

De um eu sei o cheiro, a pele, o cabelo liso e a língua afiada, seguindo o pensamento rápido.

Da outra só sei o que vejo na planura das fotos. E o que leio. Da calma, da cerveja, do gosto pela história de um país e do bom senso de quem sabe das coisas.

Gosto disso tudo.

Nunca me arrependi das amizades virtuais. Algumas, quando consegui trazer pra realidade, só mostraram o que eu já sabia. Só confirmaram o que eu já sentia.

Este – o mundo virtual – é estranho. Pode-se – e é o que acontece hoje – odiar muito nele. Porque é o ódio diferente daquele do olho no olho, da narina que se abre, do olho que se fecha. O ódio virtual parece não ter culpa. O linchamento virtual parece não seguir nenhuma regra de moral ou ética conhecidas.

Não gosto nem um pouco disso, embora na vida real odeie bastante coisas. Mas a vida real me permite refletir, a virtual não dá tempo.

Então prefiro gostar. Quem não gosto, não olho. Ou não sigo. De quem gosto, fico feliz com os sucessos, com as alegrias. E, de alguma forma, compartilho.

Meus aniversariantes do dia, gosto de poder dizer a vocês: parabéns. Fiquem felizes.

Que eu, aqui deste lado do monitor, também ficarei.

Os outros, ora, os outros…

piano e graffiti

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graffiti

Havia um piano na sala. Daqueles brilhantes. Fiquei fascinada quando percebi que dentro dele, na barriga, eu podia obter som do mesmo jeito que ao apertar as teclas. Passei a tocar semi-deitada em cima dele, com a tampa aberta, movendo com as mãos as teclas (acho que não se chama assim) de feltro de lá de dentro. Tá certo, devo ter detonado a afinação que já não era lá essas coisas.

Mas depois de pesquisar aquele piano e suas possibilidades, quis deixar uma marca minha. Uma coisa que durasse mais do que minhas brincadeiras. Com a ponta seca do compasso, escrevi meu nome.

Choro e ranger de dentes. A família quando descobriu deu a maior bronca. Mas nunca descobriram a minha forma peculiar de “tocar piano”. Ou seja, ataques à propriedade em sua forma era proibido. Minha mãe passava lustra-móveis toda semana naquele piano, mas era incapaz de tocar um oh suzana pra perceber o que eu fazia com a afinação dele. O piano era um adorno na sala. E como tal devia ser tratado.

Parece que aquele sujeito que hoje é o prefeito desta cidade deve pensar algo assim. Embora nem de longe eu queira comparar meus garranchos de criança com certos trabalhos grafitados nos muros desta cidade. Tem gente que expõe em galerias. Quem pode, por variados motivos, dentre os quais a qualidade é só um deles e, em muitas  galerias, nem mesmo o principal deles.

Outros, com muita qualidade, só têm os muros pra se expressar. E, de quebra, enfeitar uma cidade desumana, poluída e suja. Fazem poesias gráficas, às vezes poesias em palavras mesmo, trabalham com moldes, a mão livre, com spray ou com tintas. Houve um, absolutamente original, que fez arte limpando com paninhos a sujeira de um túnel. Ficou lindo! Foi preso. E não adiantou explicar que ele não estava pintando, mas limpando…

Existem outros bem feios. Mas, como toda expressão artística, tem sempre quem goste. Não deve existir um padrão para as artes. Já basta a gente ter que aguentar padrões de comportamento, estéticos, legalistas, de moda, de nutrição, do diabo a quatro. Padrão não é ruim em si, mas se for em tudo acaba por matar a maior riqueza humana: a diversidade de pensamentos, que é o que nos faz avançar.

Existem uns que ficaram sujos demais, pixados demais, de tal forma que a intenção inicial não dá mais pra se entender. Pintar pra limpar e achar quem refaça é a coisa mais fácil. Porque graffiti é uma forma de arte que não tem idade. Nem gênero. Nem raça.

Não cubram os graffitis! Não tapem a expressão de tanta gente! Sujou? Limpa e pede pra fazer outro. Sem limitar espaços. Porque seria como dizer para os passarinhos só cantarem em certas áreas, por mais que o canto deles incomode certas pessoas. Graffiti é arte de rua. Não é no meu muro, no seu muro, no piano da sua casa, a não ser que você queira.

Minha mãe, por exemplo, não queria rabiscos no nosso piano. Mas estava se lixando para o que eu fazia com a afinação. Certos prefeitos não querem arte na rua, mas estão se lixando para a miséria social, o desemprego, a baixa escolaridade, a saúde. As ruas devem estar limpas. Com lustra-móveis, limpam seu piano toda semana. Nunca tocam. Não sabem que piano serve pra fazer música. Não sabem que rua serve pra andar e sorrir, não pra passar de carro e poluir.

feliz ano novo!

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festa

Ano novo tem o dom de renovar esperanças. Só porque a gente quer, entretanto. Porque calendário, assim como várias outras coisas, pra não dizer quase tudo, é uma invenção humana.

A matemática é uma invenção humana. A filosofia é uma invenção humana. A religião é uma invenção humana.

A superstição também. E o mesmo homem que inventou a matemática, a filosofia e a religião é o homem que gostosamente inventa e acredita em superstição. Em magia. Em elementos que não pode explicar e não obstante crê. E, provavelmente, muitos ainda ficam indignados com isso que acabo de escrever.

Aqui entre nós, o que a cor de uma calcinha feminina tem que poderá mudar o rumo dos acontecimentos e fará você, que ficou desempregado, de repente, tornar-se rico no próximo ano de 2017? Heim? Heim?

E, é claro, por que as coisas sempre são assim: “tornar-se rico”, nunca remediado ou tendo o necessário pra pagar as contas básicas?

Ora, porque se é pra sonhar, vamos sonhar alto, dirão alguns. E, na dúvida – se é que as há – botam calcinhas amarelas. Ou brancas. Ou sei lá a cor adequada para enriquecer….

Por que aqueles religiosos que passam  o resto do ano desfazendo das religiões africanas saem correndo no réveillon pra jogar flores, velas, ou o que for pra Iemanjá?

Meu pai mesmo, um católico não praticante, carregava na carteira o maior resumão sincrético que já vi, para um modesto senhor de classe média: um incenso, um pé de coelho, uma imagem de nossa senhora e um santinho de S. Cipriano. Ficou rico? Evitou problemas? Foi saudável? É claro que não. Eu diria até, muito pelo contrário.

A gente acredita naquilo que quer acreditar e quem sou eu pra contestar as crenças de cada um! Mas que causam espanto, causam. E vão se acumulando com o passar dos anos.

Acho que a desesperança vem acompanhada de perto pelo misticismo. Onde não posso modificar a realidade com minhas ações, tento através da magia.

Mesmo que não resulte em nada. Acho que o fato de tentar já aplaca a necessidade de mudar.

Só não sei como as pessoas administram tantas coisas ao mesmo tempo: cor de calcinhas, cor de roupas, romãs e lentilhas em tudo que é lugar, jogar toda sorte de agentes poluentes no mar em nome de Iemanjá, pular um sem número de ondinhas e ondões, soltar rojões que fazem o terror dos animais e dos meus ouvidos também, que eu sou um animal sensível, e por aí afora.

Eu acredito em desejos. Não que eles se realizem só pela força da minha crença neles, mas em como eu me sinto bem em desejá-los.

Assim, mesmo sabendo que não depende de mim, desejo um bom ano a todo mundo. Desejo meu Corinthians campeão (mais uma vez), meu país menos desigual, minha família feliz e a dos outros também.

Mas a minha calcinha será da cor que sair da gaveta, não ponho os pés no mar em réveillon nem morta, romã e lentilhas só na minha barriga e detesto vestido branco.

 

plvs e ps

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Eu fui ensinada a não falar enquanto os mais velhos estivessem falando. Parece que eles tinham prioridade, não sei bem, ou então a algaravia de vozes tornava difícil a conversa.

O caso é que eu falava demais. Num tempo em que havia boletim nas escolas e notas de aproveitamento e de comportamento, eu sempre tirava as piores notas de comportamento. Não que fizesse alguma besteira naquela época – só fui fazê-las um bocado depois – mas falava demais. Minha mãe foi chamada na escola, a professora reclamou. Minha mãe confirmou que eu falava demais também em casa. Não lembro, evidentemente, mas deve ter rolado um suspiro resignado das duas. Muitas vezes eu ouvi esse suspiro da minha mãe.

Daí começaram a me cercear. Só podia falar se alguém falasse comigo, não podia me intrometer em conversa de adultos, não devia distrair as coleguinhas de classe, essas coisas.

Deve ter funcionado essa repressão toda. Passei a falar pouco. Até fazer terapia e soltar a franga, mas isso é outra história.

Se falar demais era tido como falta de educação, escrever bobagens, então, era pior ainda. O papel aceita tudo, é certo, mas a palavra escrita tem força. E alcance.

Por conta de palavras escritas e não assinadas, o clima lá em casa piorou muito entre meu pai e minha mãe. Por conta de palavras escritas e essas sim, assinadas, meu pai perdeu o emprego. Por conta de palavras escritas, rimadas e apaixonadas, eu me apaixonei também. Mas não só por isso, é claro, que só isso não daria conta das décadas e décadas que estamos juntos.

A palavra tem poder. Eu acredito nisso.

Por isso me espanto muito com o que tem de bobagem nas redes sociais da vida. Porque se ao falar a gente é rápido e às vezes nem pensa direito antes (no meu tempo de tagarela nem dava tempo de pensar antes) já escrevendo dá tempo de pensar. De rever e reler.

A naum ser q a gt escreva dp jto que hj se escrv.

Aí não precisa nem pensar.

Nem assinar.

De repente me vejo suspirando com aquele suspiro da minha mãe…

 

PS: apesar de não ser religiosa, gosto de natal. No que ele tem de congraçamento, de tentativas sempre renovadas de sermos pessoas melhores, no que ele tem de união entre pessoas. Então é isso: um felicíssimo natal pra quem é de natal. Que ninguém se sinta só.