porque é preciso relaxar

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Hoje, quando entro em loja de brinquedos – e tenho entrado bastante- fico fascinada. Mas nunca sei bem o que dar para meu neto, que é por isso que entro.

Sei o que eu gosto. E que sempre gostei.

Eu adorava uma casa de bonecas que havia numa loja do bairro. Mas não havia dinheiro para comprar. Aí, acabei fazendo casas de bonecas com cartas de baralho. Pegava a própria caixa dos baralhos, eram dois baralhos, e montava as cartas de forma a virar uma casinha. Daí me divertia com os reis, valetes e damas, com minha franca predileção pela dama de espadas- sem dúvida a mais bonita- e o valete de ouros. Os reis eram muito velhos, acho. Entravam como personagens secundários. Figuração. Como alegoria serve até hoje.

Também quis muito um balanço de dois, uma cadeirinha de cada lado. Hoje sei também que era inviável pelo preço, mas na época vieram com a esparrela que eu era sozinha e não poderia brincar. De fato, com dois irmãos mais de uma década mais velhos do que eu e sem vizinhos num brooklin quase deserto, a coisa fazia sentido. Fui engambelada mas com lógica.

Já jogo de armar nunca gostei. Cheguei a ganhar mas nunca fui conhecida pela paciência, embora seja minuciosa.

Palavras cruzadas joguei desde que aprendi a escrever. Até hoje, em viagens de avião. São envolventes, Mais do que o meu medo de turbulência.

Quis muito também um carrinho – acho que era um jeep – vermelho , que era da vizinha. Ela nunca me permitiu andar nele. Alguns anos depois, quando ganhei um canivetinho de brinquedo, tentei furá-la com ele. Digamos que eu tinha meus motivos, mas não aconteceu nada além de terem me confiscado o canivetinho.

Hoje tenho dinheiro pra comprar brinquedos.

E quem disse que meu neto gosta? Ele se diverte mesmo com uma antiga caixa de CDs de plástico que parece uma sanfona e com um porta-copos.

Mas herdou meu ursinho de andar de avião. E tornou-se seu melhor amigo.

Acho que vou ter que comprar outro urso só pra mim, quando puder voltar a voar.

E vocês? Ainda conseguem se lembrar do que gostavam de brincar?

Pegando no tranco

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No começo de tudo, já lá vão bem mais de dez anos, nos tempos de internet movida a lenha e discada, eu abri o blog escrevendo a cada três dias. Entenda-se: eu não sabia que era tão fácil pensar e digitar, quase simultaneamente, coisa que a internet possibilitava. E também meu curso de datilógrafa autodidata, que começou aos sete anos, numa máquina que havia sido de meu avô. Máquina de escrever, aquela sem corretor e com fita monocromática. Enfim, só pra quem se interessa por arqueologia.

Eu digitava rápido. Pensava mais rápido ainda e falava…bom, quase tanto e tão rápido quanto.

O tempo é inexorável.

Meus dedos já não são os mesmos. Já operei o dedo médio da mão direita, que deu pra ter dedo em gatilho (logo eu que não suporto gatilho em coisa nenhuma) e agora está dando a mesma coisa no anular. Mas não pretendo operar novamente. Se ele desistir de flexionar algum dia, paciência. Vou considerar que é um direito dele, depois de tantos anos de prestação de serviço.

Meus pensamentos, quero crer, continuam rápidos como sempre. Embora a tendência para esquecê-los tenha aumentado muito.

E falar, aprendi com o tempo que no mais das vezes, o melhor é calar. Mas quem vê – ou ouve- de fora, diz que não mudou muito, não.

O que há e que nunca houve, pelo menos em meu tempo de vida, é a pandemia.

Nunca tive de lidar com tudo isso ao mesmo tempo. Governo genocida, eleitores agressivos e limitados, gente se orgulhando de vulgaridade e baixa inteligência, e mortes, muitas mortes.

Eu fui a pouquíssimos enterros na vida. Todos os que pude evitar, evitei.

Mesmo no de pessoas muito amadas, evitei olhar para seus rostos sem vida. Nunca quis reter essa imagem.

Agora está muito difícil. Fico sabendo, vejo pela TV e internet, estão em toda parte.

É muito difícil conviver com a morte. Apesar de ser a única certeza que temos nessa vida, é a mais difícil de aceitar. E mortes que podem ser evitadas, que poderiam nem ter existido…

Tá complicado viver.

Tá difícil navegar.

Vai passar. Sei que vai.

Mas a vida, tal como meu dedo anular que de manhã se recusa a esticar, tem sido assim: tem que tentar fazer pegar no tranco, todo o dia, todos os dias.

Até quando?

San Vitaliano

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Dormíamos, num mesmo quarto, minha avó, meu irmão do meio e eu, nessa ordem. Três camas de solteiro separadas por dois criados-mudos. Acima da cama da minha avó um quadro. 

Com o tempo me foi contada a história que aquele era o santo de devoção da avó, San Vitaliano. Era a figura de um padre ( na realidade papa, mas eu não sabia isso na época) sobre um pedestal, pelo menos era o que parecia. 

Eu era pequena, uns cinco ou seis anos. Quando ia dormir ficava olhando para aquela figura e imaginando histórias. 

É claro que eu não sabia o que era um papa e nem o que era devoção, mas minha avó me fazia rezar com ela, ajoelhada ao lado da cama, o pai nosso em italiano (que eu não entendia nada mas repetia) e depois íamos dormir. 

Aquele San Vitaliano do quadro eu sempre achei que fosse como esses pedintes que eu conhecia de ver no centro da cidade, que andavam sobre um carrinho, sem pernas, às vezes vendendo bilhetes de loteria. Eu tinha pena dele. Ficava imaginando o que era não ter pernas, eu que vivia subindo em muros e correndo. Acabava rezando assim, com pena do San Vitaliano, mesmo sem entender uma palavra do que dizia. 

Há muito pouco tempo descobri a história de San Vitaliano. Devo isso ao Google, meu santo de devoção se eu tivesse algum. Lá diz que ele foi um papa dos anos 600. E tinha pernas, sim. Os quadros que o retratam é que o fazem com ele no púlpito, o que dá idéia da falta de pernas. Só se vê da cintura pra cima. Ele é padroeiro de muitas cidades do sul da Itália.

Hoje, tantos anos passados, tenho ainda muita saudades da minha avó, que se foi quando eu tinha 12 anos. E até do San Vitaliano, que na morte dela foi doado para a igreja da Vila Ipojuca mas que não está mais lá. 

Ele passou de moda ou entrou no ostracismo sacro, se é que isso existe.

Mas é lembrado por mim, mulher de pouca ou nenhuma fé.

Porque ele tinha uma ótima relações públicas. 

A Dona Marianina, de Castelabatte, minha avó.  

tempo

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O ser humano criou a noção de tempo.

E eu achei que sabia o que era isso. Pelo menos tinha noção, digamos assim.

De início, foi bem difícil. No primário, a professora não tinha relógio, veja só! Então me mandava (queridinha da professora…)ir até a sala da diretora ver as horas num enorme relógio que havia na parede.

Eu ia. Tremendo por dentro. Se eu já tinha noções básicas de tempo ( “vem pra dentro, menina, já é hora do almoço” ou “te dou cinco minutos pra arrumar isso daí! ) ainda não sabia ler bem horas. Principalmente com a diretora me olhando. E ela fazia isso (a saudosa dona Jeanette) com laivos de sadismo: ela nunca me dizia a hora, ficava olhando eu olhar pro relógio com um sorrisinho.

Depois aprendi, lógico. E me orgulho de sempre ter usado relógios com números e não digitais. Tá, todos têm números, vocês entenderam…

Tempo de férias passava logo. Tempo de aula de matemática durava o dobro das outras aulas. Sempre foi assim. Tempo passa do jeito que a gente se sente.

O tempo que decorreu da morte do meu pai e do meu irmão demora muito a passar. Parece que foi ontem e não há anos e anos atrás.

O tempo da vida do meu neto passa muito rápido: “nossa, mas ele já está desse tamanho? A semana passada ainda era pequenininho…”.

O tempo atual, desde que começou esta pandemia, tem demorado mais que tudo. Cada dia é uma semana. Cada noite – mal dormida- é um mês.

O tempo que falta pra eu me vacinar, então, chega a durar anos. Por sorte maridão se vacina semana que vem. O que vai durar meses.

Mas o tempo que falta para mudarmos – em plena pandemia e cheio de percalços- tem corrido maratonas.

Tenho pouco tempo e muita coisa pra fazer.

E meus 71 anos vão ter que se virar em séculos, pra dar conta.

E, afinal, tudo isso só pra aliviar, porque dar conta dessa tristeza de pandemia mesmo, vai precisar de muito tempo.

Porque o tempo da dor dura muito a passar.

carnaval ?

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Hoje é sábado de carnaval. 

Todo diferente dos outros sábados de carnaval.

Não pra mim. A última e talvez a única vez em que estive num baile de carnaval eu tinha uns oito anos e me divertia em engatinhar pelo salão buscando serpentinas pra jogar de novo. 

Ah, e havia lança perfume! Era bem gostoso. Nunca tive um só pra mim, mas no salão havia um montão. Um recipiente dourado, carnavalesco. 

Tirando esses dois aspectos, nunca mais me vi dentro de um salão no carnaval. Até mesmo quando, em 1972, em Salvador, me senti levantada do chão na praça Castro Alves, sem ter a menor intenção de subir. A massa decidia por mim. Um sufoco.

Gosto das música mais antigas, do Lamartine, do Ary Barroso. 

E já gostei muito dos desfiles de fantasia. O exótico sempre me fascinou. E bote exótico nisso quando aparecia a Wilza Carla fantasiada de branca de neve com direito a sete anões! 

Os desfiles das escolas há muito deixaram de exercer qualquer fascínio. Há muitos anos  e há muitos milhares de turistas atrás. 

Pra quem, como eu, é encantada pela percussão, aquele ritmo frenético deixou de ter atrativo. Em matéria de banda militar, eu ainda prefiro Philip Souza. 

Então é isso. 

Carnaval do Covid só vai ter sentido pós pandemia. Pós vacina. 

Enquanto isso, ando atarantada com a compra de azulejos e pisos e a Telha Norte é pra mim, atualmente, minha apoteose carnavalesca. 

Vivas mesmo só pra vacina. O Momo que se lasque.

sofá

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Ando procurando desesperadamente sofá.

Não que eu não tenha nenhum. Tenho. Um bom sofá. Mas pequeno.

Com a compra e subsequente quase demolição do apartamento novo, bem maior, um sofá grande  se faz necessário.

Aí fiquei lembrando dos sofás que já passaram por minha vida. Tipo aquelas mulheres que tiveram muitos namorados e ficam lembrando – e catalogando- na velhice, as características dos ex.  

Eu tive muitos sofás.

Filha de pai leiloeiro, volta e meia mudavam os móveis lá de casa. Não por móveis novos, mas por móveis usados que apareciam nos leilões e se tornavam muito interessantes pro meu pai. Herdei isso dele, uma vocação para coisas antigas e/ou esquisitas.

Mas fujo ao assunto.

Sofá.

Não quero, nesta altura da vida, um sofá para me afundar nele. Até porque corro o risco de nunca mais voltar à tona.

Quero um sofá com braços de madeira bem fortes, que eu possa me agarrar pra me levantar.

Não quero um sofá mole demais. Ao contrário, um sofá rijo o suficiente pra me lembrar que posição de coluna ficar é ereta. Como…deixa pra lá.

Um sofá bastante colorido, mas não estampado. De cor eu gosto, de estampa eu canso.

Colorido o suficiente pra tornar a sala uma sala contemporârea mas não brega. O limite entre isso é um fio de navalha afiada.

Quero um sofá gostoso de alisar, como um Golden Retriever. Pode ser veludo ou suedine, mas gostoso de passar a mão.

Um sofá que não balance, que não ranja ( não sei se existe o verbo ranger dessa forma) que não trepide. Para isso tudo já basta minha máquina de lavar que lava bem mas divulga sua atividade melhor ainda.

Enfim, um sofá eficiente e gostoso.

Ah, esqueci de dizer: um preço compatível com meu bolso e não com a bolsa de Dubai.

Será querer muito?

palavras ao vento

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Eu sempre soube que ia morrer. Eu e todo mundo.

A única certeza que temos.

Mas esta pandemia não estava no repertório.

Convivemos todos as horas com as possibilidades de atropelamento, de doenças fatais, de balas perdidas, de peripaques cardíacos mas a possibilidade de pandemias só aparecia em filmes de ficção. Eu não vivi a gripe espanhola e pouco ouvi falar dela.

Vivi a gripe asiática, que matou bastante gente e nos pôs a todos em casa de cama com febre alta, menos minha mãe. Na realidade, hoje imagino que ela também ficou doente, sim, mas fingiu que não pra poder cuidar de todos nós.

Já tive coqueluche em criança mas me safei. Depois de alguns meses e muitas – arrghhh- injeções.

Esta pandemia é assustadora.

Já passei da fase em que queria acordar e tudo isto ser um sonho.

Agora eu queria mesmo acordar em 2022. E tudo isto ter passado.

Havia um conto, que sempre gostei muito, onde o personagem – Rip Van Winkle- dormia durante vinte anos.

Eu só quero dormir por dois.

Mas isso também é sonho.

Logo eu, que atualmente, não consigo mais dormir nem por um bom par de horas…

castratti

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Minha avó sempre me contava, extasiada, do que tinha sido pra ela conhecer desde o rádio galena até a televisão. Ela ficava maravilhada com o progresso.

Eu também. É incrível o que a mente humana é capaz de fazer, para o bem e para o mal, diga-se.

Eu conheci o LP. Long Play. Desde os do meu pai, que provavelmente tinham sido do pai dele, gravados só de um lado, grossos e pretos até os meus mesmo, de criança, coloridos, de um tipo de plástico translúcido. 

Depois havia também os compactos, de uma música de cada lado ou mais. Os LPs geralmente tinham 6 músicas por lado. 

Sim, porque havia lados. Era necessário virar mecanicamente o LP quando acabava de tocar um lado. 

E as agulhas das rádio-vitrolas, delicadíssimas, que tinham que ser manuseadas com cuidado para não riscar os discos. Motivo pelo qual meus filhos nunca foram autorizados a mexer nos discos até a maioridade. Que eu saiba, sempre obedeceram, o que pode ser provado pelo ótimo estado de conservação dos LPs que meu marido ainda mantém. 

Eu gostei e gosto mesmo é de CD. Não sou muito delicada nem enxergo bem o suficiente pra não riscar disco, então com CD  não tenho problemas. 

Só administrar o espanto das pessoas quando falo que ainda compro CDs. 

E compro. Embora cada vez mais difíceis de achar. 

Não é que não aceite a modernidade ou não saiba lidar com ela. Só não gosto. 

O som de um LP é muito mais “quente”e tem mais alma, se é que posso chamar assim, do que o som de um CD, de um podcast tocado no celular ou qualquer outra coisa. 

São gostos de cada um. Aquilo que nos diz mais. Se eu pudesse e tivesse vivido em reinos de priscas eras, ( e fosse a princesa, é claro) acho que manteria uma pequena orquestra pra uso próprio. Não exatamente como a orquestra de câmara de hoje, mas um pouco maior. 

E um coro. Adoro coro!

E não, não teria castratti em minha corte. Apesar dos músicos dizerem da diferença entre o som de um castratti e de uma soprano, eu, que nem tenho furo na orelha por ser contra mutilações, não aceitaria a castração como método de aprimoramento da voz. 

Não pra aprimoramento da voz. ..

coisas que eu fazia e não faço mais

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Coisas que eu fazia e não faço mais

Eu fazia parada de mão. Ou plantar bananeira. Acho que os dois termos já estão em desuso, mas consiste em ficar de cabeça pra baixo, apoiada só nas mãos. Sem ajuda de parede de apoio. Eu era boa nisso, e por ser boa nisso, meu irmão e meu pai ficavam me estimulando toda hora. Posso dizer que passei boas horas da minha infância de cabeça pra baixo…

Saudades.

Hoje nem pensar. Se abaixar rápido a cabeça e levantar (só uma flexãozinha de cabeça) o dia já fica noite.

Eu conseguia botar o dedão do pé na boca. Não imagino que vantagem isso pudesse me trazer, já que nunca roí unhas, nem do pé nem das mãos. Mas eu fazia isso. E depois conseguia voltar as pernas pro lugar certo. Sem rangidas, sem estiramentos, sem travamentos. Mudaram as pernas ou mudei eu?

Eu andava sobre o muro que separava minha casa da vizinha. Dois metros de altura. Tá, é pouco, mas nunca caí. Quando me mudei pra este apartamento, numa corrida atrás da minha cachorra, caí na calçada e quebrei o nariz! Na calçada!

Enfim, eu poderia dizer que era feliz e não sabia, mas não posso.

Eu era bem infeliz e sabia.

Hoje, em compensação, sou feliz e posso dizer isso.

Mesmo não podendo ficar de cabeça pra baixo nem morder o dedão do pé nem andar em muros, altos ou não.

Mesmo com este governo.

Que nem de cabeça pra baixo ou mordendo o dedão do pé dá pra engolir.

picadas

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Como eu sou da metade do século passado, posso falar de algumas coisas que vocês nem imaginam. Tipo seringa de injeção de vidro. Não descartável. Do tamanho de um elefante. A seringa e a – ô medo- agulha também. 

Não era, a injeção, uma coisa banal. Tomava-se penicilina, pra um montão de usos, mas não era comum como hoje. Farmacêuticos aplicavam, além de médicos e enfermeiros. E os ousados.

Minha cunhada era do ramo das ousadas. Minha avó estava morrendo, entre o primeiro AVC e o segundo que a matou, e havia a necessidade de injeções. Por questão de custo e de facilidade, uma vez que ela estava em casa, acamada, minha cunhada aprendeu. Aprendeu numa batata e em seguida encarou minha avó. 

Não, minha avó não morreu disso nem as injeções pioraram o estado dela. Pioraram o estado da minha cunhada que só faltava chorar cada vez que fazia isso. 

Eu também tive minha época de injeções. Aos sete anos tive tosse comprida ou coqueluche, não sei bem a diferença. Contagiosa, deixei de ir à escola. Vinha um farmacêutico em casa aplicar em mim aquelas injeções do tamanho de um elefante.

Eu sabia quando ele chegava e ato contínuo, ia me trancar no quarto e não abria por nada desse mundo. 

Bom, algum tempo depois de negociação, quando o farmacêutico me prometia o vidrinho da injeção e me dizia que eu podia colecionar ( já naquela época eu era colecionista) eu acabava abrindo. E suportava a dor, porque doía. Doía a picada da agulha e a noção que eu passei a adquirir que eu me vendia fácil. 

Muito mais velha, já neste século, precisei tomar benzetacil. Eu trabalhava, precisava sentar no trabalho e no carro que eu guiava. Banquei a durona e mandei aplicar no braço. Eu precisava da bunda. 

Aquilo entrava e a gente sentia cada mililitro do líquido. Átomo a átomo. Doía pra caramba. 

O braço ficou inutilizado por um bom tempo. 

Depois disso, só tomo injeções na dentista. Não digo que goste, mas é o melhor custo benefício que já encontrei. Só de pensar na dor de um canal tratado sem injeção, eu tomo quase sorrindo. E se for necessário eu mesma peço mais. 

Melhor que injeção de dentista, só peridural. Por conta do custo benefício, de novo. 

Mas peridural só tomei uma vez. No primeiro filho. Na segunda nem deu tempo. 

Afinal, eu posso ser do outro século e durar até hoje (e espero, muitos anos mais) mas a injeção não!