da importância da chuva na minha cultura geral

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Se eu estiver com guarda-chuva grande e bota impermeável, não ligo muito pra chuva.

Não costumo, porém, levar esses itens em viagens, embora tenha uma razoável coleção de guarda-chuvas em casa. Se eu paguei por eles- e muito-em viagem, eu trago de volta. Mas, paradoxalmente, nunca levo.

Voltando ao ovo frio (a carne está cara): quando chove e eu estou sem os itens necessários, entro no primeiro lugar que encontro.

Foi assim que entrei no Museu Britânico. Eu não gosto de museus, com raríssimas exceções. Mas a chuva estava forte.

Aguentei ver uma parte do museu que devia se chamar museu egípcio e não de Londres, tal a quantidade de peças egípcias existentes. E, tenho certeza, trazidas sem a anuência dos donos.

As outras partes eu vi pela internet, acessada lá dentro mesmo. A chuva ainda não havia passado…

Assim também já visitei duas vezes o Centro Cultural da Caixa Econômica, o que, aliás, recomendo, mesmo em dias de sol. É muito bonito e interessante. Principalmente o próprio acervo remanescente da Caixa no último andar. Revi todas as máquinas de escrever do meu pai e avô. Quer dizer, as máquinas em que eles escreviam, porque tanto pai como avô só tinham da caixa a caderneta de poupança.

Já entrei em lojas em que nunca entraria. Em bares em que, em situações climáticas normais, nem passaria perto.

Alguns foram boas surpresas, outros só reafirmaram minhas crenças.

Já entrei em igrejas, tal como o cachorro da piada, que vê a porta aberta.

Já pedi para entrar numa guarita de guarda mas não deixaram.

O que me salva dessas incursões, sempre, é que, assim que começa a chover, aparecem vendedores de guarda-chuva. Aqui, em São Francisco, em Paris, sempre houve um camelô que surgiu do nada, como cogumelo.

E, sim, todos, absolutamente todos, os guarda-chuvas sempre foram chineses. Comprados aonde for.

Será que chove tanto assim na China??

 

de natal, de viagens, de vida e morte

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Leio num site qualquer que o gosto por viajar está nos genes. Não me dou ao trabalho de ler a matéria. Cada vez que algum título cita genética eu já fico com pé atrás, se não for texto científico. Se cita a palavra “gosto” então, fico com os dois pés atrás.

Embora, assim como eu me acabo por viajar, abrindo mão de quase qualquer coisa por isso, por quase qualquer viagem ( o quase boto só pra acalmar meus princípios quase científicos), meu pai também era assim. Mas minha mãe não.

Meu pai aceitava qualquer convite pra viagem, mesmo que fosse sabidamente uma roubada. Minha mãe evitava a maioria deles.

Ele saía com a roupa do corpo, se a pressa assim exigisse e minha mãe levava a casa com ela, todas as poucas vezes em que se dispôs a viajar.

Resultado, já acampei com eles em criança, com meu pai usando por dias  a mesma roupa que ele lavava no mar e minha mãe buscando madeira pra fazer mesa e bancos na areia, sem deixar de lado flores na mesinha. Cada um com suas dores e seus prazeres, não é o que dizem?

Mas não acredito em genética no caso. Acredito em exemplos.

Eu amo viajar, pra qualquer lugar. Já tomei trem com maridão pra conhecer a última estação da linha, na periferia de são Paulo. Ônibus também.

Mas nas viagens longas, de avião, apesar de cada vez levar menos bagagem, não esqueço nunca de arrumar o lugar onde vou ficar como se fosse minha casa. Na chegada e na saída. Faço camas até em hotel. É mais forte do que eu.

Parece que ao tentar transformar lugares de hospedagem em casa, mesmo que só por algum detalhe, me sinto mais reconfortada. Mas adoro sair de casa.

As contradições de cada um.

Porém agora, no Natal, quando boa parte das pessoas viaja, eu viajo nos meus mortos.

Tenho hoje mais família morta do que viva, o que mostra que estou velha e eu mesma mais pra lá do que pra cá.

Mas essa viagem, a última, não desejo fazer.

Não sem antes conhecer o expresso Paris- Moscou, a África, a muralha da China, a ilha de Páscoa e um monte de outros lugares, sem esquecer lençóis maranhenses, ilha de Marajó e Havana.

Isso demandará tempo. Muito tempo.

Dentro em breve faço setenta. Minha antiga meta de cem anos talvez não dê conta de cumprir esses objetivos.

E é aí que entra a genética do começo do texto de novo.

Não basta o gosto por viagens, cientistas de plantão, há que se estender a vida humana.

Mesmo que em certos momentos políticos como o que hoje vivamos, a gente queira morrer ou matar.  Enfim…Feliz Natal!

 

mamãe noel de olho puxado

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Existem pessoas que marcam nossa vida. Às vezes são parentes próximos, às vezes não.

Ela não era nada minha. Minha mãe dizia que poderia ter sido minha madrinha se a conhecesse na época. Mas não foi.

Ela era exótica no meu universo de criança porque, apesar de eu ter nascido em São Paulo, e, portanto, estar rodeada de japoneses na escola, nas ruas, por toda parte, não tinha nenhum japonês frequentando nossa casa. Só ela e família.

Dona Aparecida. Sim, ela era japonesa mas tinha um nome “brasileiro” também. Nunca eu soube seu nome real.

Ela veio para casar. Não conhecia o marido, arranjado pela família. Ele japonês também.

Teve uma única filha. Contavam, mas é claro, eu nunca pude comprovar, que o casamento desandou após o nascimento dessa filha. O que eu podia sim, comprovar, era que o casal, estranhamente, não dormia no mesmo quarto. Em ambos os quartos havia altares e, para meu espanto, com comida na frente, em tigelas. Tudo naquela casa me parecia espantoso e espantosa era também minha curiosidade, xeretando todos os cômodos.

Eles eram fotógrafos e moravam no Pari. Marido, mulher e filha.

A filha única, obesa mórbida numa época em que nem se sabia que isso era doença, gostava muito de mim e de brincar. Tinha uns 15 anos mais que eu mas era a criança com a qual eu brincava quando ia lá, sempre nas festas de fim de ano.

E que festas! No estúdio de fotografia, um grande salão, era armada uma mesa enorme em cima de cavaletes e em volta dela se ajeitavam os funcionários, parentes e amigos dela, da dona Aparecida. O marido era o chefe da casa mas quase não falava. Ela ria e falava pelos cotovelos. Tinha alguns funcionários e vizinhos que moravam em casas alugadas por ela. Acho que naquele tempo fotografia dava algum dinheiro.

Metade da enorme mesa continha perus, presuntos, e coisas de natal brasileiro. A outra metade continha comida japonesa. Eu amava os doces japoneses: de feijão e balas bonitas. Amo até hoje. Mas nunca consegui comer um sushi.

Ganhei presentes incríveis de natal dela. Incríveis porque eram os únicos verdadeiros presentes. Em casa eu ganhava sapatos marrons ou azuis marinho escolares e olhe lá. Apesar do meu aniversário logo depois do natal.

Dela ganhei minha primeira máquina fotográfica, minha primeira boneca (e única, eu nunca gostei de boneca), jogos de armar, o tecido chiquetésimo do vestido de minha primeira comunhão, bombons. Quando ela vinha nos visitar, pouco antes do natal, era a chegada do papai noel pra mim. E para os outros também, que ela nunca esqueceu ninguém.

Hoje acho que morreram todos. Perdi o contato. Já voltei ao Largo do Pari tentando achar o estúdio deles. Não existe mais.

Minha mamãe Noel se foi. Aquela que me tratava como afilhada. Não sem antes me deixar o álbum de fotos do meu casamento.

Mas isso faz tempo. Quase meio século.

Aparecida Yae. Talvez ela gostasse de saber que hoje eu também gosto de fotografar. E continuo comendo moti e manju. Só sushi não dá.

fantasmas da noite

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A primeira vez em que vi uma foi em Montevidéu.

Quando entendi para o que servia, adorei. Eu mesma sabia o que era fazer uma reforma e acumular detritos na calçada até chegar um caminhão pra levar tudo embora sabe-se lá para onde.

Falo das caçambas. Havia a promessa, quando apareceram por aqui, de serviço limpo, regulamentado, o lixo no lixo, enfim!

Algumas acho que são. Eu mesma, quando já precisei usar, procurava as que tinham identificação porque acreditava que com isso haveria um mínimo de controle. Sou otimista, sempre.

Mas hoje, além de otimista, sou idosa. Terceira idade. Ou última, depende do grau da depressão.

Então o sono fica leve e não o peso. Esse mundo é injusto.

Então, agora que moro em apartamento, rodeada de prédios por todos os lados, sou rodeada também por caçambas por todos os lados. Num quarteirão só de prédios altos, não passa uma semana sem haver uma ou mais caçambas estacionadas.

Tá certo. As pessoas reformam, consertam.

Então à noite, mas bem noite mesmo, tipo duas ou três da manhã, o lugar aqui fica parecendo as noites do fantasma de Canterville. Um profundo arrastar de correntes, imprecações, rangidos e estrondos.

E eu ali, de olho esbugalhado, esperando a última caçamba ser trocada e/ou retirada ou esperando o amanhecer, o que vier primeiro, pra poder dormir.

Eu bem que preferia o fantasma.

auto-ajuda

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Não gosto de livro de auto-ajuda. Até aí, eu e muita gente estamos juntos. 

Um dos motivos é que geralmente trata-se de um monte de clichês, de receitas de bolo, de frases panacéia para tudo, como se a vida fosse fácil de entender. 

No entanto, tentando pensar com isenção, eu mesma tenho um monte de frases que marcaram e marcam minha vida. 

Acho que nenhuma veio de livro, porém. E olhe que eu leio muito, desde sempre. 

Uma grande parte delas veio de minha avó. Talvez por eu ficar muito tempo com ela – que desde que eu nasci já morava conosco- e ela gostar de contar histórias. As histórias delas sempre vinham com moral, no bom sentido. 

Fui gostando das tais frases. Ao ponto de, lá pelos meus dez anos, começar uma coleção de provérbios. Quando cheguei aos mil, parei. Preenchi livros e livros contábeis velhos que meu pai me cedia, para anotar as frases. Depois devo ter jogado fora. Sou colecionista mas não acumuladora. 

Então por que não gosto de livro de auto-ajuda? 

Poderia ser por estar tirando o mercado da minha categoria, a psicologia, mas eu raramente me lembro da “categoria”. Mecanismo de defesa, provavelmente. 

Poderia ser pelo evidente mercantilismo de quem se dedica a tais livros. Mas posso estar sendo preconceituosa. 

No fundo, no fundo, acho que é porque os tais ensinamentos derivam de livros e não de seres humanos. 

O papel aceita tudo, é mais uma frase. Sim, aceita. Já minha avó, a tal das frases e provérbios, tinha no resto da família seu contraditório. 

Ela vinha com um “sê como o sândalo, que perfuma o machado que o fere”e meu pai revidava com um “quem com ferro fere, com ferro será ferido”. 

Minha mãe apregoava que “deve-se dar a outra face”e meu irmão apregoava que a “vingança é um prato que se come frio” e por aí afora. 

Pra cada frase, provérbio ou máxima, numa família que gostava de frases, havia sempre o contraditório. 

Isso nos fazia rir, tornava-se um jogo, no meu caso tornou-se uma coleção. 

E esses malditos livros de auto-ajuda só fazem dar a ilusão a quem os lê que tudo vai melhorar, bastando seguir certos preceitos. E comprar o livro, claro. 

Não, não gosto deles. Gostava era da minha avó futucando a memória pra achar alguma frase e o resto da família fazendo a mesma coisa pra achar outra que dissesse o contrário. 

Aprendi muito com isso. 

Aprendi o riso em família, as brincadeiras com palavras, o gosto por histórias. 

E também que ajuda quem não atrapalha…

material escolar

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Janeiro era mês de férias. Em janeiro eu ficava em casa, brincando sozinha do que conseguisse inventar. Esperando ansiosamente o começo das aulas.

Primeiro, por encontrar finalmente amigos. E depois, pelo novo material escolar.

Nada que se compare aos de hoje. Cadernos, lápis de qualquer tipo e tamanho, caneta idem, a cartilha. Mala de couro e pra quem pudesse, lancheira igual.

A minha era vagabunda. O couro. Por mais que eu cuidasse, engraxasse e não arrastasse no chão ou batesse em colegas com ela (coisas que os meninos faziam com frequência), o couro ressecava e ia se abrindo. Durou os quatro anos do primário, mas num estado lamentável.

Os lápis eu ganhava de um tio. Ele sempre andava com os bolsos cheios de lápis, o que lhe angariava um séquito de crianças correndo atrás dele pela Cerro Corá, onde ele morava. Grande tio Nicola!

As canetas eu pegava de uma gaveta do meu pai, em casa. Havia um montão delas. Sem meu pai perceber, eu usava as canetas parker 51, as Sheafer, as compactors e ia quebrando todas, de tanto apertar a pena junto ao papel. As penas se abriam. Ele ou não percebia ou não ligava. Nunca brigou comigo. Em qualquer circunstância.

Os cadernos eram brochuras, porque as professoras perceberam que a criançada ia tirando as páginas dos cadernos em espiral e logo os cadernos de 100 páginas ficavam fininhos. Elas adotaram as brochuras. Mas também havia técnicas para arrancar páginas: era só pegar as do meio. Maridão conta que chegou ao cúmulo de costurar cadernos, depois de tanto arrancar páginas.

Eu gostava de escrever só de um lado da página. Porque apertava tanto o lápis e a caneta para escrever que o outro lado ficava em alto relevo. Eu ia até o fim e depois, como não podia ter outro caderno, voltava, escrevendo do outro lado, aborrecida.

E como não tinha grana para comprar plástico para encapar os cadernos, fazia isso com papel de padaria ou, lembro um certo ano, com sobras de uma cortina de plástico do banheiro. Era a única da classe com cadernos encapados com peixinhos!!

Lápis de cor eram poucos. Aqueles de apenas uma dúzia. Eu ficava louca da vida porque nessa dúzia ainda tinham a pachorra de botar um branco, que não servia para nada..Nunca tive o de 36 cores. Acho que um dia desses vou comprar, só pra ficar olhando. Se é que ainda existem!

E esse era todo o material. A cartilha era o livro sagrado, que não podia estragar nunca. Eu morava em uma casa cheia de livros, a cartilha não me motivava pra nada. O compasso era um lápis no qual a gente amarrava um barbante. Funcionava perfeitamente. As borrachas eram duras e mais sujavam o papel do que apagavam. Pelo menos as minhas.

E nada disso teve a menor importância . Fui ótima aluna no primário (péssima no ginásio e bastante razoável na faculdade) e me virei bem com o material escolar.

Só sobrou mesmo hoje essa vontade de ter um estojo de 36 cores e um globo terrestre.

E uma vaga saudade daquela lancheira de couro com um sanduíche de goiabada.

Era ruim, mas como era bom!!

feira de quinta-feira

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Quinta-feira: dia de feira.

Eu podia comprar no supermercado, eu podia comprar pela internet, eu podia comprar na feira de orgânicos, eu podia ter uma horta, eu podia matar e roubar. Mas eu faço feira toda quinta-feira.

Na feira, quase sempre as mesmas barracas. Pela qualidade dos produtos, pela simpatia do feirante, pela discrição. Porque ser discreto também é qualidade para mim. O cara está lá para vender, mas não precisa assediar, abordar, ser interativo ou proativo ou que raio de ativo os tempos modernos e as modinhas definam. Não quero nenhuma atividade a não ser estar lá, trazer bons produtos e me deixar sossegada.

Tá bom, estou velha e chata, provavelmente. Ou não.

Quinta-feira eu faço feira.

Barraca de tomates. Bons tomates. Pras minhas saladas, pro molho de macarrão – ótimo- do maridão. O feirante, discreto como gosto, pergunta pelo maridão, ausente.

Está fazendo um curso, digo, pra não me estender muito.

Curso? Diz ele. Sabe que eu nunca fiz um curso?

Penso com meus botões que ele lamenta e eu não devia ter dito isso porque posso ter constrangido e detesto constranger as pessoas.

Mas não. Ele continua: desde os meus quinze anos nunca mais fiz curso nenhum.

Faço as contas com meus botões. Deve ter acabado só o fundamental.

Tenho 34 anos, diz ele. ( puxa, reflito sempre com meus botões. Tão novo!) E tenho casa. Carro e não tenho patrão. Tá ótimo, né não?

Dou um sorriso o menos amarelo que consigo. Pago os tomates e sigo a feira.

Um garoto de 34 anos e já “realizado na vida” , segundo ele. Trabalha de sol a sol, de domingo a domingo. Nâo tem patrão mas também não tem nenhum direito trabalhista assegurado, não tem aposentadoria ( a não ser que pague, o que duvido), não tem plano saúde, não tem férias, não tem décimo terceiro. Mas não tem patrão e deve se sentir um Roberto Lehman dos tomates.

Não precisa gostar de estudar. Entendo isso. O que não entendo é a ambição de uma vida se estender a casa e carro. E terminar aos 34 anos.

Mas enfim…Cada um sabe de si.

Eu só estou fazendo minha feira das quintas-feiras.

 

 

 

vento na cara

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Medo de faltar o ar. Gosto tanto de ar!

Pode ser até parado, mas gosto mesmo é do ar com pressa, do vento na cara. Super simpatizo com aqueles cachorros que botam a cabeça do lado de fora da janela do carro e deixam as orelhas ao vento!

Vai daí, água é um problema. Não pro banho, que também gosto muito, mas botar a cabeça debaixo dágua, por vontade própria ou não.

De qualquer forma, já que em criança íamos a um clube que ficava nas margens da Guarapiranga, era prudente que eu soubesse nadar. Mãe nunca fui ao clube, nunca entendi bem por quê. Dizia que alguém tinha que fazer o almoço, que não gostava de sol, mas acho mesmo é que não gostava de ver meu pai bebendo demais da conta. Eu também não, então ficava sozinha na represa, olhando o mundão de água, pescando com ele  às vezes, aqueles pobres lambaris e carás que morriam à toa, só pelo prazer – se é que havia algum – de uns pescadores dominicais. Eram pequenos demais pra comer. Embora eu tivesse comido alguns de petisco, na churrasqueira improvisada.

Meu pai era dono de um indefectível estilo cachorrinho de nadar.

Já viu cachorrinho pequeno na água? Bate perninhas , as quatro, em movimentos curtos e frenéticos, mantendo a cabeça bem longe da água.

Então. É assim. Assim que eu aprendi com meu pai. Manter a cabeça alta pra respirar e as patinhas batendo freneticamente.

Funciona. Estou viva até hoje.

Na represa havia um cocho. Uma estrutura de madeira para aqueles que estavam aprendendo ou para as crianças que ainda não nadavam bem. Eu tinha um certo nojo do cocho. AS tábuas do piso eram cobertas de um limo escorregadio. Aí preferi sempre a represa onde havia limo no fundo sim, mas tão longe que eu nem encostava. Era funda a represa.

No mar a coisa toda muda. A água é salgada, muito ruim de beber quando se toma um caldo. E as ondas não são amigáveis. Não gosto de mar.

Tudo isso porque gosto de ar. Em grande quantidade. Em movimento. Batendo na cara.

Aí vem maridão de noite e me faz fechar a janela.

Porque maridão é friorento.

E como eu gosto mais do maridão do que do vento na cara, eu fecho.

Ressabiada mas fecho.

brincadeiras

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Desenho com botões

Você só precisa de um tapete liso (estampado estraga o visual final) e muitos botões, de todas as cores e tamanhos, desses que a mãe da gente guardava antigamente. Bom, daí é só imaginar um desenho e ir fazendo com os botões. A técnica não é diferente da do mosaico, só que você não precisa quebrar nada, nem colar depois. Só monta e depois desmonta. Não danifica os botões nem o tapete. Não requer prática (bom, talvez só um pouquinho) nem habilidade.

 

Castelo de cartas

Cartas de baralho, de preferência de cartão. As de plástico são muito rígidas e costumam quebrar. Se vierem com aquela caixinha melhor ainda. É só utilizar a caixinha como piso e ir montando as cartas, umas sobre as outras, formando quartos e sacadas. Requer habilidade e paciência. E um lugar sem vento.

Bom, eu costumava ir mais além, depois do castelo montado: imaginava cenários e enredos românticos, geralmente entre o valete de ouros e a dama de paus, que sempre achei os mais bonitos do baralho. Mas você pode imaginar o enredo que quiser. O baralho é seu e ninguém tem nada com isso.

 

Bonecos de manga ( com variação com batata doce)

Manga espada é a melhor. As Tommy ou Palmer são muito grandes e quase não têm pelos. Além de caras. Pegue umas mangas espada de vários tamanhos, chupe-as e deixe ao sol, pra secar. Depois de secas, com um pente fino, penteie os pelos do jeito que quiser. Pode fazer crinas de cavalo, moicanos, pelos de cachorro, à vontade. Daí é só pintar uns olhos e uma boca com caneta Bic mesmo (daquelas que o presidente, eca, usa) e botar quatro palitinhos pra serem os pés do bicho. Ou dois, se for boneco. Ou três se for ferido de guerra. Ou oito se for aranha, Bom, bote o número de pés que quiser e divirta-se!

 

Pintura com água

Tem que ter um quintal Dentro de casa as mães reclamam muito. E sol, pra secar rápido depois e você poder fazer outra pintura. Eu usava água em chão de caquinhos de cerâmica, mas acho que tem décadas que não se encontra mais piso de caquinhos. Pode usar porcelanato. Daí, com o dedo, num dia de calor e sol, pinte o que quiser. E vá fazer outra coisa. Quando voltar, depois de uns dez minutos, a pintura terá secado. Daí você pode fazer outra! Nem precisa dar DEL nem ESC. Não é sensacional?

 

Móveis pra casinha de bonecas

Precisa de caixinhas de fósforo. Com pai que fume cachimbo você terá muitas. Ou mães com fogões antigos, sem acendedor automático. Ou com lugar com muita falta de luz. Enfim…Com as caixinhas você cola umas nas outras e vai montando os móveis. Mesas, sofás, estantes. Pode fazer uma casa inteira de caixas de fósforo. Para as paredes é só desmontar as caixinhas e terá uma linda parede de lambri de madeira. Pode também fazer trincheiras e fortes militares. Mas eu sempre fui contra violência e nunca fiz isso.

 

E é isso. Essas são algumas das brincadeiras que eu costumava fazer quando pequena. Se alguém lembrar de mais alguma, aceito contribuições. Vou ser avó em breve e preciso por o repertório em dia. Se é que alguma delas será páreo para os games de hoje…

 

 

 

 

 

aniversário

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Ele me levava ao dentista com seis anos. Segurava minha mão quando o Renato (esqueci a cara mas jamais me esquecerei do nome. O primeiro trauma a gente nunca esquece) avançava com aquela broca medieval da época. Depois me levava numa padaria e me dava um copo de leite frio. Até hoje leite frio me acalma.

Ele me indicou os primeiros livros para ler, assim que aprendi a ler. Muita aventura, muito Mark Twain, muito Julio Verne, o diário de Anne Frank. Logo eu lia mais que ele e aí passei a escolher pelo nome original ou pelas capas elaboradas…

Ele me dava presentes do dinheiro de seu minguado salário de estagiário.

Quis me ensinar a jogar voley. Eu tentei aprender. Ambos ficamos decepcionados.

Ele me levava ao cinema pra ver Totó e Vittório Gassman. E mais um monte de comédias italianas.

Ele teve paciência pra me ensinar o pouco que sabia de piano, as notas iniciais, os pedais. Daí eu fui em frente, só tocando com a mão direita, até hoje. Acho que não fui muito em frente, afinal.

Ele, em momentos em que a família perdeu a paciência comigo, ficava ao meu lado e me dizia do orgulho que teria se um dia tivesse uma filha como eu.

Ele, que nunca fumou, nunca bebeu, passou a vida fazendo esporte, morreu de um câncer estúpido, como são todos.

Era meu irmão do meio. O xodó de todos. Inclusive meu.

Faria hoje 82 anos. Desde os 68 porém, nunca mais aniversariou.

Um beijão, Miltola!