sozinha

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A gente faz coisas meio esquisitas quando acha que ninguém está olhando.

Sei lá, eu faço.

Principalmente quando estou sozinha em casa.

Quando era pequena e ficava sozinha, lá com uns 10 ou 12 anos, eu fumava. Daí nem precisava me trancar no banheiro e ficar fumando com o chuveiro ligado e o cigarro saindo pela janelinha (como se ninguém fosse perceber depois). Como meu pai era fumante, cigarro havia em casa. Depois de um tempo eu passei a economizar o dinheiro do lanche e comprava cigarro, por unidade.

Depois de casada, com minha própria casa, com filhos, ficar sozinha significava que o pai havia levado as crianças pra algum lugar, cinema, teatro, algo assim. Aí eu descansava. E arrumava a bagunça da casa sem as crianças por perto.

Hoje, aposentada, ficar sozinha me faz fazer coisas patéticas. Eu faço comida para mim, que sou gulosa, mas nem pensar em usar pratos pra comer. E ter que lavar depois? Não mesmo. Como na panela. Ah, é claro que sozinha não tem aquela de fazer salada, prato principal, acompanhamento, legumes ou verdura. Faço aquele “tamo junto” e como com colher. Na panela.

Também não como na mesa. Acho que uma das piores formas de solidão é comer sozinha. Então pego minha panelinha, minha colher e vou pra frente da TV. Mesmo que seja só pra ouvir o som de uma voz humana.

Sozinha em casa também costumo falar comigo mesma. E respondo. E até já cheguei ao cúmulo de brigar comigo. E ficar mal- humorada. Isso é meio esquiso, eu sei, mas sou várias.

Canto também.

Se de garota eu adorava a chance de ficar sozinha, e ia correndo experimentar as roupas da minha mãe, as jóias, os sapatos, hoje fico bastante chateada com isso. Posso até comprar alguma coisa, mas evito. Porque se eu falo comigo mesma e respondo, sou, porém, incapaz de dar uma opinião na qual eu confie sobre uma roupa, um cabelo, uma bijou. Aí confio mais em outras pessoas. Eu mesma sou muito crítica.

Ficar sozinha ainda tem seu lado bom, hoje em dia. Mas por pouco tempo. Embora goste de dormir sozinha, porque de manhã a cama está arrumadíssima – que eu me mexo pouco- por outro lado não ter interlocutor de peso me derruba.

Eu respondo a mim mesma. Mas meu outro eu não me leva a sério.

A resposta que eu costumo ouvir de mim mesma, quando sozinha, querendo saber a opinião de alguma coisa, sempre é:

– ah, sério que você quer saber isso mesmo?

Eu fico sozinha, mas eu e meus outros eus não conseguimos manter a ordem aqui dentro.

aos aniversariantes do dia

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Dois amigos aniversariam hoje. Um amigo presencial, de longuíssima data. Outra, amiga virtual, de bastante tempo.

Amizades diferentes mas que têm algo em comum: gosto bastante deles.

De um eu sei o cheiro, a pele, o cabelo liso e a língua afiada, seguindo o pensamento rápido.

Da outra só sei o que vejo na planura das fotos. E o que leio. Da calma, da cerveja, do gosto pela história de um país e do bom senso de quem sabe das coisas.

Gosto disso tudo.

Nunca me arrependi das amizades virtuais. Algumas, quando consegui trazer pra realidade, só mostraram o que eu já sabia. Só confirmaram o que eu já sentia.

Este – o mundo virtual – é estranho. Pode-se – e é o que acontece hoje – odiar muito nele. Porque é o ódio diferente daquele do olho no olho, da narina que se abre, do olho que se fecha. O ódio virtual parece não ter culpa. O linchamento virtual parece não seguir nenhuma regra de moral ou ética conhecidas.

Não gosto nem um pouco disso, embora na vida real odeie bastante coisas. Mas a vida real me permite refletir, a virtual não dá tempo.

Então prefiro gostar. Quem não gosto, não olho. Ou não sigo. De quem gosto, fico feliz com os sucessos, com as alegrias. E, de alguma forma, compartilho.

Meus aniversariantes do dia, gosto de poder dizer a vocês: parabéns. Fiquem felizes.

Que eu, aqui deste lado do monitor, também ficarei.

Os outros, ora, os outros…

piano e graffiti

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graffiti

Havia um piano na sala. Daqueles brilhantes. Fiquei fascinada quando percebi que dentro dele, na barriga, eu podia obter som do mesmo jeito que ao apertar as teclas. Passei a tocar semi-deitada em cima dele, com a tampa aberta, movendo com as mãos as teclas (acho que não se chama assim) de feltro de lá de dentro. Tá certo, devo ter detonado a afinação que já não era lá essas coisas.

Mas depois de pesquisar aquele piano e suas possibilidades, quis deixar uma marca minha. Uma coisa que durasse mais do que minhas brincadeiras. Com a ponta seca do compasso, escrevi meu nome.

Choro e ranger de dentes. A família quando descobriu deu a maior bronca. Mas nunca descobriram a minha forma peculiar de “tocar piano”. Ou seja, ataques à propriedade em sua forma era proibido. Minha mãe passava lustra-móveis toda semana naquele piano, mas era incapaz de tocar um oh suzana pra perceber o que eu fazia com a afinação dele. O piano era um adorno na sala. E como tal devia ser tratado.

Parece que aquele sujeito que hoje é o prefeito desta cidade deve pensar algo assim. Embora nem de longe eu queira comparar meus garranchos de criança com certos trabalhos grafitados nos muros desta cidade. Tem gente que expõe em galerias. Quem pode, por variados motivos, dentre os quais a qualidade é só um deles e, em muitas  galerias, nem mesmo o principal deles.

Outros, com muita qualidade, só têm os muros pra se expressar. E, de quebra, enfeitar uma cidade desumana, poluída e suja. Fazem poesias gráficas, às vezes poesias em palavras mesmo, trabalham com moldes, a mão livre, com spray ou com tintas. Houve um, absolutamente original, que fez arte limpando com paninhos a sujeira de um túnel. Ficou lindo! Foi preso. E não adiantou explicar que ele não estava pintando, mas limpando…

Existem outros bem feios. Mas, como toda expressão artística, tem sempre quem goste. Não deve existir um padrão para as artes. Já basta a gente ter que aguentar padrões de comportamento, estéticos, legalistas, de moda, de nutrição, do diabo a quatro. Padrão não é ruim em si, mas se for em tudo acaba por matar a maior riqueza humana: a diversidade de pensamentos, que é o que nos faz avançar.

Existem uns que ficaram sujos demais, pixados demais, de tal forma que a intenção inicial não dá mais pra se entender. Pintar pra limpar e achar quem refaça é a coisa mais fácil. Porque graffiti é uma forma de arte que não tem idade. Nem gênero. Nem raça.

Não cubram os graffitis! Não tapem a expressão de tanta gente! Sujou? Limpa e pede pra fazer outro. Sem limitar espaços. Porque seria como dizer para os passarinhos só cantarem em certas áreas, por mais que o canto deles incomode certas pessoas. Graffiti é arte de rua. Não é no meu muro, no seu muro, no piano da sua casa, a não ser que você queira.

Minha mãe, por exemplo, não queria rabiscos no nosso piano. Mas estava se lixando para o que eu fazia com a afinação. Certos prefeitos não querem arte na rua, mas estão se lixando para a miséria social, o desemprego, a baixa escolaridade, a saúde. As ruas devem estar limpas. Com lustra-móveis, limpam seu piano toda semana. Nunca tocam. Não sabem que piano serve pra fazer música. Não sabem que rua serve pra andar e sorrir, não pra passar de carro e poluir.

feliz ano novo!

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festa

Ano novo tem o dom de renovar esperanças. Só porque a gente quer, entretanto. Porque calendário, assim como várias outras coisas, pra não dizer quase tudo, é uma invenção humana.

A matemática é uma invenção humana. A filosofia é uma invenção humana. A religião é uma invenção humana.

A superstição também. E o mesmo homem que inventou a matemática, a filosofia e a religião é o homem que gostosamente inventa e acredita em superstição. Em magia. Em elementos que não pode explicar e não obstante crê. E, provavelmente, muitos ainda ficam indignados com isso que acabo de escrever.

Aqui entre nós, o que a cor de uma calcinha feminina tem que poderá mudar o rumo dos acontecimentos e fará você, que ficou desempregado, de repente, tornar-se rico no próximo ano de 2017? Heim? Heim?

E, é claro, por que as coisas sempre são assim: “tornar-se rico”, nunca remediado ou tendo o necessário pra pagar as contas básicas?

Ora, porque se é pra sonhar, vamos sonhar alto, dirão alguns. E, na dúvida – se é que as há – botam calcinhas amarelas. Ou brancas. Ou sei lá a cor adequada para enriquecer….

Por que aqueles religiosos que passam  o resto do ano desfazendo das religiões africanas saem correndo no réveillon pra jogar flores, velas, ou o que for pra Iemanjá?

Meu pai mesmo, um católico não praticante, carregava na carteira o maior resumão sincrético que já vi, para um modesto senhor de classe média: um incenso, um pé de coelho, uma imagem de nossa senhora e um santinho de S. Cipriano. Ficou rico? Evitou problemas? Foi saudável? É claro que não. Eu diria até, muito pelo contrário.

A gente acredita naquilo que quer acreditar e quem sou eu pra contestar as crenças de cada um! Mas que causam espanto, causam. E vão se acumulando com o passar dos anos.

Acho que a desesperança vem acompanhada de perto pelo misticismo. Onde não posso modificar a realidade com minhas ações, tento através da magia.

Mesmo que não resulte em nada. Acho que o fato de tentar já aplaca a necessidade de mudar.

Só não sei como as pessoas administram tantas coisas ao mesmo tempo: cor de calcinhas, cor de roupas, romãs e lentilhas em tudo que é lugar, jogar toda sorte de agentes poluentes no mar em nome de Iemanjá, pular um sem número de ondinhas e ondões, soltar rojões que fazem o terror dos animais e dos meus ouvidos também, que eu sou um animal sensível, e por aí afora.

Eu acredito em desejos. Não que eles se realizem só pela força da minha crença neles, mas em como eu me sinto bem em desejá-los.

Assim, mesmo sabendo que não depende de mim, desejo um bom ano a todo mundo. Desejo meu Corinthians campeão (mais uma vez), meu país menos desigual, minha família feliz e a dos outros também.

Mas a minha calcinha será da cor que sair da gaveta, não ponho os pés no mar em réveillon nem morta, romã e lentilhas só na minha barriga e detesto vestido branco.

 

plvs e ps

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Eu fui ensinada a não falar enquanto os mais velhos estivessem falando. Parece que eles tinham prioridade, não sei bem, ou então a algaravia de vozes tornava difícil a conversa.

O caso é que eu falava demais. Num tempo em que havia boletim nas escolas e notas de aproveitamento e de comportamento, eu sempre tirava as piores notas de comportamento. Não que fizesse alguma besteira naquela época – só fui fazê-las um bocado depois – mas falava demais. Minha mãe foi chamada na escola, a professora reclamou. Minha mãe confirmou que eu falava demais também em casa. Não lembro, evidentemente, mas deve ter rolado um suspiro resignado das duas. Muitas vezes eu ouvi esse suspiro da minha mãe.

Daí começaram a me cercear. Só podia falar se alguém falasse comigo, não podia me intrometer em conversa de adultos, não devia distrair as coleguinhas de classe, essas coisas.

Deve ter funcionado essa repressão toda. Passei a falar pouco. Até fazer terapia e soltar a franga, mas isso é outra história.

Se falar demais era tido como falta de educação, escrever bobagens, então, era pior ainda. O papel aceita tudo, é certo, mas a palavra escrita tem força. E alcance.

Por conta de palavras escritas e não assinadas, o clima lá em casa piorou muito entre meu pai e minha mãe. Por conta de palavras escritas e essas sim, assinadas, meu pai perdeu o emprego. Por conta de palavras escritas, rimadas e apaixonadas, eu me apaixonei também. Mas não só por isso, é claro, que só isso não daria conta das décadas e décadas que estamos juntos.

A palavra tem poder. Eu acredito nisso.

Por isso me espanto muito com o que tem de bobagem nas redes sociais da vida. Porque se ao falar a gente é rápido e às vezes nem pensa direito antes (no meu tempo de tagarela nem dava tempo de pensar antes) já escrevendo dá tempo de pensar. De rever e reler.

A naum ser q a gt escreva dp jto que hj se escrv.

Aí não precisa nem pensar.

Nem assinar.

De repente me vejo suspirando com aquele suspiro da minha mãe…

 

PS: apesar de não ser religiosa, gosto de natal. No que ele tem de congraçamento, de tentativas sempre renovadas de sermos pessoas melhores, no que ele tem de união entre pessoas. Então é isso: um felicíssimo natal pra quem é de natal. Que ninguém se sinta só.

 

 

caminhantes, não há caminhos

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Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.      

Antonio Machado

Fala-se em divisão. Em discursos de ódio nas redes sociais. Em linchamentos virtuais e até reais.

Fala-se em lutar pelo fim da corrupção.

Quem não quer o fim da corrupção? Não conheço ninguém que a defenda ou mesmo que a releve. Hoje todos parecem ser contra a corrupção desde criancinhas.

Não acho que a divisão por si só seja um mal. Afinal, corintiana que sou e isso sim, desde criancinha, nunca me incomodei com outros times e sua existência. Atéia que sou desde muito tempo, nunca me incomodei nem quis abolir a religião de ninguém, mesmo quando professava – e é essa a palavra mesmo – o marxismo leninismo. O Estado tem que ser laico, não as pessoas, embora acho que seria melhor que elas fossem. Mas é pessoal a escolha.

Agora ver esses discursos de “quem é brasileiro vai em tal ou qual protesto”, ou “quem é contra a corrupção tem que fazer isto ou aquilo”é de doer.

Política é, acima de tudo, um modo de agir frente aos acontecimentos da vida. É fazer escolhas, o que implica em diversidade de opiniões e de caminhos. Se soubéssemos de antemão o correto, nada mais haveria a fazer. Só seguir em frente, rotineiramente. Mas existem as nuances. Existem os fins e os meios. Existem as companhias. Existem as formas de se chegar a isto ou aquilo.

Eu quero chegar naquilo que acredito com as mãos limpas. Dormindo em paz. Respondendo pelos meus atos. Aceitando meus erros.

Se as pessoas seguem estes ou aqueles caminhos, quero estar com estas ou aquelas pessoas. E buscar sempre.

Batam panelas, se assim o desejarem. Batam palmas para quem for de palmas e apupos para quem for de apupos. Sabendo que quem é apupado hoje pode ser aplaudido amanhã. Uma certeza, dentre as poucas que se tem, é que os rios correm. E a água que passa aqui hoje não é a mesma que passou aqui ontem e bla,bla,bla, mas é fato.

Não acho que todo mundo deva se unir em todas as lutas da mesma forma. Se assim fosse não haveria partidos políticos, nem times, nem religiões, nem tango nem samba.

Existe tudo isso. E gente que gosta e apóia tudo isso junto, alguma coisa em particular ou mesmo nada. Livre arbítrio é bom e eu adoro.

Menos manada. Menos pensamentos únicos. Mais leitura e humildade.

Será que é desejar muito ou será talvez pedir pouco?

 

corrupçãozinha

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Uma tosse que não parava. Nem podia ir pra aula, que ficava chateada de chamar a atenção dos outros e de fazer barulho. Tosse é fogo.

Solução: farmacêutico vir em casa e dar injeção não sei do quê. Eu só sabia mesmo que era injeção.

Eu sabia que era ele. Eu conhecia o farmacêutico do bairro. Eu sabia o que ele vinha fazer. Eu morava em casa térrea que não tinha campainha e era eu quem gostava de atender quem batia palmas no portão baixinho.

Me tranquei no quarto. Fechada a chave eu sabia que não tinha como entrar, só arrombando e minha mãe era muito ciosa da casa dela pra permitir isso.

A princípio só o farmacêutico e minha mãe do lado de fora. Batendo na porta. Depois juntaram-se a eles meu irmão do meio e minha avó. A coisa estava virando multidão, ali no corredor.

Até que o farmacêutico, conhecedor das manhas infantis e, pelo que hoje sei, das manhas infantis femininas em especial, me prometeu vários vidrinhos daqueles de injeção, pequenininhos, bons pra brincar, e a própria ampola de injeção, que na época não era descartável.

Todo homem tem seu preço, não é o que dizem os mais cínicos?

Toda menininha também.

mudando de canal

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Li num comentário nas redes sociais que o buliyng é filho do ócio, dando a entender que ele existe hoje por falta do que fazer nas escolas. Era um comentário argentino, mas já vi a mesma opinião por aqui. Faz parte do pacote “antigamente não tinha nada disso”.

Em primeiro lugar, nossas memórias são seletivas. Até por proteção a gente costuma apagar dela coisas que nos são penosas. Outras vezes, esquecemos ou fingimos esquecer por comodismo.

Ainda outras, com o decorrer do tempo e a idade aumentando, a gente esquece sem segundas intenções, conscientes ou inconscientes. Simplesmente esquece e isso faz parte.

O que quero dizer com isso é que não se pode confiar inteiramente em nossas memórias como verdades. Não são nem mesmo as nossas verdades.

Eu esqueço um monte de coisas. E finjo que esqueci outras tantas quando me interessa. De repente, posso esquecer como cozinhar num dia de almoço para muitos, ou esquecer de devolver um livro que tenha gostado demais para quem me emprestou…Fora as coisas que esqueço mesmo e essas nem chego a lembrar que esqueci. São apagadas como em filme de ficção.

Mas lembro de bulliyng sim. Comecei a usar óculos com 10 anos de idade, já lá vai mais de meio século. E fui chamada de quatro olhos sim, inclusive por membros da família. Tanto incomodou que durante muito tempo me envergonhei de usá-los e só o fazia em último caso. Já tomei muito ônibus errado, já copiei da lousa muitas equações absurdas, embora minhas dificuldades com matemática não se devam a isso, tenho que admitir.

Era magra demais. Então fui varapau, esqueleto, graveto, e outros termos que esqueci. Viram? Foi melhor ter esquecido…

Antigamente não era melhor do que hoje. Mas olhando pra trás a gente acha que sim. Porque a gente parecia saber lidar melhor com certas situações que hoje, bem mais velhos, nos assustam. O número de carros, o jeito de atravessar as ruas, as atividades do dia a dia, a tecnologia. Mas acredito ser só impressão. É claro que quem nasceu na era do computador e celular, acha isso muito natural e eu não. Em compensação, gestei e pari dois filhos, cozinho minha comida, passo minha roupa, tudo com bastante facilidade. E bordo, e tricoto e chocheteio. Aprendi tudo isso numa época em que as meninas aprendiam tudo isso.

Minha avó ficava olhando pra televisão impressionadíssima. Eu também, hoje, mas por motivos diversos. Ela se encantava com a tecnologia, mas nunca mudou um canal. Muito difícil, segundo dizia.

Mas nunca a ouvi falando dos seus tempos como melhores. Tinha duas guerras como bagagem e mesmo que quisesse, não conseguia esquecê-las.

Eu também tenho más lembranças que ficam atazanando, impossíveis de serem esquecidas. Mas fazem parte. Testemunhos do passado que afinal construiu o presente.

Tinha buliyng sim. E muita violência. E muita doença que hoje nem faz cócegas, era fatal na época.

Eu já nem sei muito bem “mudar de canal”. É difícil, como dizia minha avó.

Mas também me entusiasmo com as possibilidades.

o que tem debaixo da cama?

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Bicho papão não tem. Não porque eu não fosse aterrorizada pelos adultos com esta nefasta figura, mas como nunca ninguém me mostrou uma fotografia, um desenho, um indício que fosse da presença dele, nunca acreditei. Sabe aquela história do “não entendeu, quer que eu desenhe? “pois é, sou eu. Eu sempre quero que alguém desenhe.

Os desenhos do Doré da Divina Comédia chegaram bem perto. Tinha lá em casa e eu folheava por conta dos desenhos. Ah, quantos pesadelos não renderam!!

Mas não eram chamados de bicho-papão.

Debaixo da cama, pelo menos de uma tia que morava no interior – meu deus, naquela época a gente achava Franco da Rocha interior! – havia um penico. Esse era sim, um bicho papão. Nunca acertei fazer qualquer coisa naquele lugar fedido e mal equilibrado. E o medo de cair sentada? Eu quase preferia ir ao banheiro lá fora na casa. O problema é que o banheiro lá fora era um buraco cimentado numa casinha escura. O que vale é que a tia era um encanto de pessoa. Mas a infra deixava muito a desejar.

Em compensação se debaixo da minha cama não tinha nada, nem mesmo poeira, não fosse D. Antonieta a maníaca por limpeza que era,  havia outros medos. Nada de escuro, que nunca liguei, nem os avisos xenofóbicos da família contra as ciganas que vinham vender correntinhas de ouro no portão e, segundo a família, se eu não tivesse cuidado, me levariam para vender junto.

Eu não devia ser artigo com saída, nunca ligaram pra mim.

O que pegava mesmo, era o colégio interno.

A ameaça era de ser mandada pra lá ( nunca entendi onde seria o “lá”) e só voltar aos dezoito anos.

E “lá”, seja lá onde isso fosse, ser tratada aos trancos e barrancos, esfregar chão, paredes e o que mais houvesse. Isso eu entendia. Tinha lido Dickens. E Raul Pompéia. E vários Dumas pai.

Por isso, por gostar de ler, os medos foram muitos. E a família contribuía gostosamente pra aumentar minha tortura. A cada travessura, ameaças.

Nem por isso acho que ler é prejudicial. Aumenta o universo dos medos – que o diga Freud – das atribulações – Nelson Rodrigues sabia das coisas – das possibilidades aterrorizantes de apocalipse total, mas se não fosse isso, como seria a vida?

Ter que se contentar com bicho-papão?

Hoje porém, acredito ter encontrado um bicho-papão. Dois, pra falar a verdade.

Efeito T. Temer e Trump.

Prefiro colégio interno, seja lá onde for.

 

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óculos e modernidade

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oculos-roxoDizem que a filosofia ensina a pensar.

Dizem que a religião ensina a pensar no imaterial.

Dizem que o estudo organiza o pensamento.

Dizem que a vida ensina a tolerar.

Bom, dizem, dizem, dizem isto e aquilo, mas também, sempre se desdizem. Por isso é que o cara que disse que a única coisa que sabia, de certeza mesmo, é que nada sabia, tinha muita chance de estar certo.

A que vem essa digressão de boteco?

Fui mandar fazer óculos. Já que tenho de usá-los, uma vez que lente de contato, desde que me deu uma deformação de córnea, nunca mais quis usar, tenho que trocar óculos a cada tanto.

Tá bom, troco mais do que devia, porque ninguém é de ferro e eu gosto de variar.

Fui trocar óculos. Trouxe um modelito da França que tem tudo pra me agradar: ou seja, é roxo. E não é de plástico.

Bom, chegando lá a moça me diz que eu sou bastante tradicional. Que me mantenho fiel a marca e coisa e tal.

E ela me diz isso portando o mesmo modelo que meu pai usava nos anos 50. Grande, de aros escuros, quadradão.

Minha filha, tradicional é você, usando a mesma coisa que meus pais usavam quando eu nasci.

Eu sou mais é moderna. Óculos de metal com pintura eletrostática, artesanal, quase um fogão na minha cara. Dos de seis bocas.

A moda muda a cada tanto. A indústria faz com que mude, senão ninguém trocava nada, Afinal, óculos e fogão duram bastante. Mas a gente tenta seguir a moda.

No meu caso, tento seguir a moda do roxo, que eu devo ter uma tara qualquer por semana santa, embora atéia. Adoro as coisas todas cobertas de roxo.

Então tá, moça dos óculos dos meus pais, sou tradicional e conservadora em relação a cores, então vamos combinar assim, você me cobra o preço de antigamente e eu não comento nada sobre teus óculos de priscas eras, tá combinado?

Não colou. Essas moças são muito inflexíveis. Ou meu papo pra pedir desconto é muito antigo.