caminhantes, não há caminhos

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Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.      

Antonio Machado

Fala-se em divisão. Em discursos de ódio nas redes sociais. Em linchamentos virtuais e até reais.

Fala-se em lutar pelo fim da corrupção.

Quem não quer o fim da corrupção? Não conheço ninguém que a defenda ou mesmo que a releve. Hoje todos parecem ser contra a corrupção desde criancinhas.

Não acho que a divisão por si só seja um mal. Afinal, corintiana que sou e isso sim, desde criancinha, nunca me incomodei com outros times e sua existência. Atéia que sou desde muito tempo, nunca me incomodei nem quis abolir a religião de ninguém, mesmo quando professava – e é essa a palavra mesmo – o marxismo leninismo. O Estado tem que ser laico, não as pessoas, embora acho que seria melhor que elas fossem. Mas é pessoal a escolha.

Agora ver esses discursos de “quem é brasileiro vai em tal ou qual protesto”, ou “quem é contra a corrupção tem que fazer isto ou aquilo”é de doer.

Política é, acima de tudo, um modo de agir frente aos acontecimentos da vida. É fazer escolhas, o que implica em diversidade de opiniões e de caminhos. Se soubéssemos de antemão o correto, nada mais haveria a fazer. Só seguir em frente, rotineiramente. Mas existem as nuances. Existem os fins e os meios. Existem as companhias. Existem as formas de se chegar a isto ou aquilo.

Eu quero chegar naquilo que acredito com as mãos limpas. Dormindo em paz. Respondendo pelos meus atos. Aceitando meus erros.

Se as pessoas seguem estes ou aqueles caminhos, quero estar com estas ou aquelas pessoas. E buscar sempre.

Batam panelas, se assim o desejarem. Batam palmas para quem for de palmas e apupos para quem for de apupos. Sabendo que quem é apupado hoje pode ser aplaudido amanhã. Uma certeza, dentre as poucas que se tem, é que os rios correm. E a água que passa aqui hoje não é a mesma que passou aqui ontem e bla,bla,bla, mas é fato.

Não acho que todo mundo deva se unir em todas as lutas da mesma forma. Se assim fosse não haveria partidos políticos, nem times, nem religiões, nem tango nem samba.

Existe tudo isso. E gente que gosta e apóia tudo isso junto, alguma coisa em particular ou mesmo nada. Livre arbítrio é bom e eu adoro.

Menos manada. Menos pensamentos únicos. Mais leitura e humildade.

Será que é desejar muito ou será talvez pedir pouco?

 

corrupçãozinha

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Uma tosse que não parava. Nem podia ir pra aula, que ficava chateada de chamar a atenção dos outros e de fazer barulho. Tosse é fogo.

Solução: farmacêutico vir em casa e dar injeção não sei do quê. Eu só sabia mesmo que era injeção.

Eu sabia que era ele. Eu conhecia o farmacêutico do bairro. Eu sabia o que ele vinha fazer. Eu morava em casa térrea que não tinha campainha e era eu quem gostava de atender quem batia palmas no portão baixinho.

Me tranquei no quarto. Fechada a chave eu sabia que não tinha como entrar, só arrombando e minha mãe era muito ciosa da casa dela pra permitir isso.

A princípio só o farmacêutico e minha mãe do lado de fora. Batendo na porta. Depois juntaram-se a eles meu irmão do meio e minha avó. A coisa estava virando multidão, ali no corredor.

Até que o farmacêutico, conhecedor das manhas infantis e, pelo que hoje sei, das manhas infantis femininas em especial, me prometeu vários vidrinhos daqueles de injeção, pequenininhos, bons pra brincar, e a própria ampola de injeção, que na época não era descartável.

Todo homem tem seu preço, não é o que dizem os mais cínicos?

Toda menininha também.

mudando de canal

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Li num comentário nas redes sociais que o buliyng é filho do ócio, dando a entender que ele existe hoje por falta do que fazer nas escolas. Era um comentário argentino, mas já vi a mesma opinião por aqui. Faz parte do pacote “antigamente não tinha nada disso”.

Em primeiro lugar, nossas memórias são seletivas. Até por proteção a gente costuma apagar dela coisas que nos são penosas. Outras vezes, esquecemos ou fingimos esquecer por comodismo.

Ainda outras, com o decorrer do tempo e a idade aumentando, a gente esquece sem segundas intenções, conscientes ou inconscientes. Simplesmente esquece e isso faz parte.

O que quero dizer com isso é que não se pode confiar inteiramente em nossas memórias como verdades. Não são nem mesmo as nossas verdades.

Eu esqueço um monte de coisas. E finjo que esqueci outras tantas quando me interessa. De repente, posso esquecer como cozinhar num dia de almoço para muitos, ou esquecer de devolver um livro que tenha gostado demais para quem me emprestou…Fora as coisas que esqueço mesmo e essas nem chego a lembrar que esqueci. São apagadas como em filme de ficção.

Mas lembro de bulliyng sim. Comecei a usar óculos com 10 anos de idade, já lá vai mais de meio século. E fui chamada de quatro olhos sim, inclusive por membros da família. Tanto incomodou que durante muito tempo me envergonhei de usá-los e só o fazia em último caso. Já tomei muito ônibus errado, já copiei da lousa muitas equações absurdas, embora minhas dificuldades com matemática não se devam a isso, tenho que admitir.

Era magra demais. Então fui varapau, esqueleto, graveto, e outros termos que esqueci. Viram? Foi melhor ter esquecido…

Antigamente não era melhor do que hoje. Mas olhando pra trás a gente acha que sim. Porque a gente parecia saber lidar melhor com certas situações que hoje, bem mais velhos, nos assustam. O número de carros, o jeito de atravessar as ruas, as atividades do dia a dia, a tecnologia. Mas acredito ser só impressão. É claro que quem nasceu na era do computador e celular, acha isso muito natural e eu não. Em compensação, gestei e pari dois filhos, cozinho minha comida, passo minha roupa, tudo com bastante facilidade. E bordo, e tricoto e chocheteio. Aprendi tudo isso numa época em que as meninas aprendiam tudo isso.

Minha avó ficava olhando pra televisão impressionadíssima. Eu também, hoje, mas por motivos diversos. Ela se encantava com a tecnologia, mas nunca mudou um canal. Muito difícil, segundo dizia.

Mas nunca a ouvi falando dos seus tempos como melhores. Tinha duas guerras como bagagem e mesmo que quisesse, não conseguia esquecê-las.

Eu também tenho más lembranças que ficam atazanando, impossíveis de serem esquecidas. Mas fazem parte. Testemunhos do passado que afinal construiu o presente.

Tinha buliyng sim. E muita violência. E muita doença que hoje nem faz cócegas, era fatal na época.

Eu já nem sei muito bem “mudar de canal”. É difícil, como dizia minha avó.

Mas também me entusiasmo com as possibilidades.

o que tem debaixo da cama?

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Bicho papão não tem. Não porque eu não fosse aterrorizada pelos adultos com esta nefasta figura, mas como nunca ninguém me mostrou uma fotografia, um desenho, um indício que fosse da presença dele, nunca acreditei. Sabe aquela história do “não entendeu, quer que eu desenhe? “pois é, sou eu. Eu sempre quero que alguém desenhe.

Os desenhos do Doré da Divina Comédia chegaram bem perto. Tinha lá em casa e eu folheava por conta dos desenhos. Ah, quantos pesadelos não renderam!!

Mas não eram chamados de bicho-papão.

Debaixo da cama, pelo menos de uma tia que morava no interior – meu deus, naquela época a gente achava Franco da Rocha interior! – havia um penico. Esse era sim, um bicho papão. Nunca acertei fazer qualquer coisa naquele lugar fedido e mal equilibrado. E o medo de cair sentada? Eu quase preferia ir ao banheiro lá fora na casa. O problema é que o banheiro lá fora era um buraco cimentado numa casinha escura. O que vale é que a tia era um encanto de pessoa. Mas a infra deixava muito a desejar.

Em compensação se debaixo da minha cama não tinha nada, nem mesmo poeira, não fosse D. Antonieta a maníaca por limpeza que era,  havia outros medos. Nada de escuro, que nunca liguei, nem os avisos xenofóbicos da família contra as ciganas que vinham vender correntinhas de ouro no portão e, segundo a família, se eu não tivesse cuidado, me levariam para vender junto.

Eu não devia ser artigo com saída, nunca ligaram pra mim.

O que pegava mesmo, era o colégio interno.

A ameaça era de ser mandada pra lá ( nunca entendi onde seria o “lá”) e só voltar aos dezoito anos.

E “lá”, seja lá onde isso fosse, ser tratada aos trancos e barrancos, esfregar chão, paredes e o que mais houvesse. Isso eu entendia. Tinha lido Dickens. E Raul Pompéia. E vários Dumas pai.

Por isso, por gostar de ler, os medos foram muitos. E a família contribuía gostosamente pra aumentar minha tortura. A cada travessura, ameaças.

Nem por isso acho que ler é prejudicial. Aumenta o universo dos medos – que o diga Freud – das atribulações – Nelson Rodrigues sabia das coisas – das possibilidades aterrorizantes de apocalipse total, mas se não fosse isso, como seria a vida?

Ter que se contentar com bicho-papão?

Hoje porém, acredito ter encontrado um bicho-papão. Dois, pra falar a verdade.

Efeito T. Temer e Trump.

Prefiro colégio interno, seja lá onde for.

 

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óculos e modernidade

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oculos-roxoDizem que a filosofia ensina a pensar.

Dizem que a religião ensina a pensar no imaterial.

Dizem que o estudo organiza o pensamento.

Dizem que a vida ensina a tolerar.

Bom, dizem, dizem, dizem isto e aquilo, mas também, sempre se desdizem. Por isso é que o cara que disse que a única coisa que sabia, de certeza mesmo, é que nada sabia, tinha muita chance de estar certo.

A que vem essa digressão de boteco?

Fui mandar fazer óculos. Já que tenho de usá-los, uma vez que lente de contato, desde que me deu uma deformação de córnea, nunca mais quis usar, tenho que trocar óculos a cada tanto.

Tá bom, troco mais do que devia, porque ninguém é de ferro e eu gosto de variar.

Fui trocar óculos. Trouxe um modelito da França que tem tudo pra me agradar: ou seja, é roxo. E não é de plástico.

Bom, chegando lá a moça me diz que eu sou bastante tradicional. Que me mantenho fiel a marca e coisa e tal.

E ela me diz isso portando o mesmo modelo que meu pai usava nos anos 50. Grande, de aros escuros, quadradão.

Minha filha, tradicional é você, usando a mesma coisa que meus pais usavam quando eu nasci.

Eu sou mais é moderna. Óculos de metal com pintura eletrostática, artesanal, quase um fogão na minha cara. Dos de seis bocas.

A moda muda a cada tanto. A indústria faz com que mude, senão ninguém trocava nada, Afinal, óculos e fogão duram bastante. Mas a gente tenta seguir a moda.

No meu caso, tento seguir a moda do roxo, que eu devo ter uma tara qualquer por semana santa, embora atéia. Adoro as coisas todas cobertas de roxo.

Então tá, moça dos óculos dos meus pais, sou tradicional e conservadora em relação a cores, então vamos combinar assim, você me cobra o preço de antigamente e eu não comento nada sobre teus óculos de priscas eras, tá combinado?

Não colou. Essas moças são muito inflexíveis. Ou meu papo pra pedir desconto é muito antigo.

França

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Conhecer um novo país demanda algumas disposições e predisposições.

Você tem que ter disposição de tentar, de se abrir, de ter trabalho e dificuldades.

E você tem que estar predisposto a, sobretudo, aceitar o que vem pela frente sem julgar.

Afinal, você está lá pra conhecer e isso significa estranhar, a princípio, depois tentar entender e só muito depois, julgar e/ou comparar com coisas já vistas e conhecidas.

Posto isso, tão democrático e bonito, vamos às coisas que eu vi e conheci na França e estranhei, tentei entender, fiz bastante esforço e depois…voilá! vamos fazer aquela listinha simplificada das dez coisas mais esquisitas que comi, fiz ou vi, tá legal?

1.Espaços: não é só um problema da França. A Europa, principalmente em se tratando dos seus centros históricos, é pequena. E vamos combinar que tendo nascido no Brasil, a gente tem mania de grandeza. Aqui é tudo grande demais, longe demais, espaçoso demais. Lá tudo é reduzido. Dá pra bater Paris a pé, em boa parte dos trajetos turísticos e o resto fazer em metrô, porque, sim, eles têm metrô há muuuito tempo, funciona legal, cobre a cidade toda e ainda um pouco mais. Inveja.Mas Paris, além de pequena, é baixinha. Cinco andares, em média. Sem elevador, em média. Vocë acostuma, depois de algum tempo, a subir escadas. Mas ficar num apartamento no quinto andar e ter mais de sessenta te faz refletir bastante toda vez que está lá em cima e esqueceu de comprar comida, por exemplo, se não vale a pena fazer seu dia de faquir e economizar descidas e subidas…

  1. Se tudo é pequeno, não há motivo nenhum para o box do banheiro ser grande. Melhor não deixar o sabonete cair, mas, se ele cair, aprenda a usar os músculos das coxas e desça e suba na vertical. E quanto a lavar o cabelo ( coisa que percebi que não fazem lá com tanta frequência), aprenda a fazê-lo com os cotovelos em ângulo de 45 graus. Na diagonal do quadrado do box, porque de outra forma a coisa não anda.
  2. Paris tem muitos mistérios. No resto da França menos. As pessoas de Paris são magras. Muito magras. Pelos nossos padrões atuais, eu diria quase anoréxicas. Eu ficava olhando o que e quanto elas comiam e nunca atinei com a solução desse mistério. Porque elas comem bastante, tudo tem muito molho, o melhor dos molhos, por sinal, tudo tem muita e deliciosa gordura e os doces são os melhores que já comi na vida. Como não engordam? Só se for o arroz. Não vi ninguém comendo arroz. É isso, só pode ser. Ou o vinho, que ainda ganha estourado da cerveja no consumo.
  3. Os franceses não são grosseiros, preconceito disseminado por aqui. São gentis e atenciosos. É claro que facilita você pelo menos tentar falar em francês, mas se não, vá de inglês. Eles estão perfeitamente acostumados com turistas e não paparicam mas também não perturbam, de jeito nenhum. Agora, vi muitas mães aos berros com seus próprios filhos. E bote berros nisso! Talvez as crianças francesas sejam sapecas mais do que o normal ou suas mamães magrelas mais estressadas do que o normal. Mistério…
  4. A França está – e tem razões para isso – bastante tensa com os últimos ataques. O que tem de milico nas ruas não foi fácil. E de metralhadora nas mãos. Fui revistada mais de uma vez, em lugares até vazios, e ficava bem nervosa com as metralhadoras nas mãos deles. Mas felizmente não são como os nossos. Espero.
  5. Paris adora comer nas calçadas. Um pouco Vila Madalena, sabe? As pombas também. E fica aquele congraçamento todo entre pessoas e pombas, pombas e pessoas. Me desculpem, mas eu sou daquelas que não aguenta isso. Daí você descobre que entrar pra comer nos restaurantes te faz demorar mais pra ser atendido e morrer de calor. Minha desforra foi presenciar pombas cagando em mesas ocupadas. Confesso que sou rancorosa, fazer o quê?
  6. Em Paris e em todas as outras cidades que fui, descobri contrafeita que ser velha não te dá nenhuma colher de chá. Ninguém cede lugar no metrô (mesmo aqueles destinados à terceira idade), não tem colher de chá nas filas nem em qualquer outro lugar. Mesmo em apartamentos que alugávamos, que ficavam sempre do terceiro andar em diante, sem elevador, é claro, ninguém nunca se ofereceu pra segurar minha mala. Doeu. No coração e na lombar.
  7. Se é mentira que francês é grosso, é verdade que em metrô cheio o ar fica pesado. Mas hoje, pensando melhor nas dificuldades pra se tomar banho em mini boxes, chego a ficar mais solidária. E também, ninguém aguenta subir e descer tantas escadas sem suar a camisa, né não? Daí também entendi esses desodorantes que prometem 24, 48 e já vi até de 72 hs!! E também vi umas toalhinhas que não entendia pra que serviam e depois me explicaram que era para o banho. Como assim?
  8. Paris é cara. Pra nós estupidamente cara. Eu que sou adepta de brechós – que lá chamam-se friperies- nem mesmo neles achava preços atraentes. Consegui voltar de Paris tendo comprado 3 brincos. Minimalismo puro. E euro lá em cima.
  9. E finalmente, Paris e a França em geral é linda. Um pouco Joãozinho trinta, cheia de barroco, de dourados, de rococós, mas é linda, sem dúvida. Preferi as cidades medievais, como sempre prefiro, mas Paris é linda e gostosa. Cheia de charme, de caras e bocas, mas acolhedora.

E Avignon, de todas que conhecemos, meu xodó. Picasso tinha razão. As demoiselles de Avignon são tudo!!

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allons enfants

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Eu vou viajar! Nada me deixa mais feliz.

Já pensei no porquê disso. Conhecer gente nova? Não exatamente, primeiro porque as possibilidades de comunicação com gente que fale qualquer outra coisa que não italiano e espanhol para mim são muito primárias. Aquela coisa de “por favor, quero comer aquilo “ou “que clima este, não é? ” Enfim, conversa de elevador entre crianças pequenas, tal a limitação do meu vocabulário em outras línguas.

Então não é isso. Até porque eu acho que gente é tudo igual, independentemente de cor, de raça, de gênero, de localização.

Será pelas novas paisagens? Pode ser, mas depois do advento da internet e das telas de alta definição, gosto muito de assistir Discovery, BBC, essas coisas que nos transportam para lugares incríveis mesmo sem a gente ir lá de verdade.

Acabei descobrindo que gosto de viajar por dois motivos bem estranhos.

Em primeiro lugar – FORA TEMER -, adoro mudar de casa, embora tenha mudado muitas poucas vezes na minha vida. Ou até por isso mesmo, quem sabe.

Não fico em hotel. Alugamos apartamentos ou casas por poucos dias. Então, a cada três ou quatro dias estamos em uma casa nova, numa cidade nova, às vezes até num país novo. O que significa casas com cheiros diferentes, com decoração diferentes, com divisões diferentes. Adoro isso!

Em segundo lugar, é ficando longe do meu país e da minha casa que eu posso sentir saudade, que, ao contrário do que as pessoas acham é a coisa mais gostosa de sentir!

Ter vontade de voltar é a melhor coisa de ir.

Mesmo que uma semana depois eu já esteja fuçando novos lugares para conhecer.

Então o próximo mês será só alegrias. Porque viajar, mesmo quando é ruim, é bom.

Até a volta! E me desejem bon voyage, porque é pra lá que vou..

já ouvi esse papo…

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Não sei o que aconteceu com as roupas.

Quando eu era pequena, minha mãe costumava virar ao contrário as golas das camisas do meu pai e os punhos, quando ficavam puídos.

Duvido que muita gente saiba hoje o que quer dizer “puído”. Hoje não dá tempo de nada ficar puído.

Ando pelas ruas aqui do centro e vejo, jogados pelas calçadas, cobertores, jaquetas, sapatos, roupas. São de sem teto que deixam por aí ou perdem. Roupa é coisa fácil de achar para doação por aqui. Eu mesma costumo deixar numa igreja aqui perto uma sacola todo mês.

Ou a gente era muito pobre – acho que éramos- ou os hábitos mudaram. Mas aquela coisa de reaproveitar e usar uma roupa até puir hoje parece não existir mais, quer a pessoa seja pobre ou não.

Sapatos. Eu, pessoalmente, ganhava um par por ano. Geralmente marrom, que era a cor dos sapatos da escola. Mas eu herdava de cunhada, de primas. Até meu pé ficar tão grande que eu só seria capaz de herdar do meu pai, mas aí quem não queria era eu. Gosto de androginia, mas na época não.

Então, quando o sapato furava, era um tal de recortar papelão e botar na sola por dentro, costurar alguma sola com linha comum mesmo e meu irmão, jogador de vôlei, costumava usar esparadrapo pra evitar o efeito “boca aberta “nos tênis. A gente se virava. E tem também uma coisa que nunca mais vi, que era cortar a parte de trás dos sapatos para ainda usá-los mais uns anos para lavar quintal. Transformar em chinelo o que nasceu sapato.

Hoje não vejo mais isso. Sapateiro mesmo é profissão em extinção. Ninguém conserta, joga fora.

Panelas e louças duravam a vida inteira. Não disse que duravam intactas. Disse que duravam uma vida, fosse do jeito que fosse. As panelas lá de casa tinham cabos improvisados de madeira, eram desentortadas com martelo e tampa era qualquer coisa que tampasse. Louças duravam. Se eu quebrasse – e como eu quebrava- qualquer copo que fosse, o mundo vinha abaixo. Pra vocês terem uma ideia, minhas taças de champanhe, as seis de uma dúzia, foram do casamento da minha mãe. Década de 30 do século passado.

Tenho a impressão que as outras seis que completariam a dúzia eu mesma devo ter quebrado nesse meu jeito rápido, porém não eficiente de lavar louça.

O mundo muda. Melhor dizendo, dá voltas. E não falo da rotação da terra.

Hoje está em voga o politicamente correto, o ecologicamente certo, a vida saudável, o reaproveitamento. Os recursos são escassos, é o que se diz.

São. Minha mãe quando remendava roupas já sabia.

Os nossos, então, eram escassíssimos. Menos na fartura da biblioteca e dos esforços para estudar, o que seria, segundo meu pai, a única coisa capaz de nos tirar da lama.

De fato, foi. E agora tenho que ler em toda parte que a gente deve remendar, reutilizar, reaproveitar.

Está bom. Eu faço sem problemas.

No meu caso, vem do berço.

 

 

olímpiada e sorte

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Eu entendo mais ou menos como devia ser a vida de nossos ancestrais. Aqueles bem ancestrais mesmo, de caçar com pedras e comer cru, na falta do conhecimento do fogo.

Devia ser bem duro. Sobreviviam os melhores. Os mais fortes. Os mais rápidos. Os mais sortudos em acharem boas pedras e sábios pra saberem o que fazer com elas na hora do aperto.

Enfim, os primeiros lugares.

O mundo mudou. Em algumas coisas bem pouco. Mas de maneira geral, mudou.

Hoje, eu que só sei fazer fogo virando o botão do fogão, que corro muito pouco e mesmo assim só na esteira, que não como cru carne nenhuma e não me venham com o papo de que sushi, sashimi e o escambau são deliciosos, enfim, euzinha que não sou primeiro lugar em nada, sobrevivo bem e, ouso dizer, sou bastante feliz.

Eu não preciso saber essas coisas, entendem? Não preciso ser a melhor em nada. Basta  ser. Ser da melhor forma – aí sim – que eu conseguir ser. E, na  minha concepção, ser de uma forma que não atrapalhe a vida de ninguém. Só isso já basta pra me fazer bastante feliz.

Então pra mim fica bastante complicado entender olímpiada. Apesar de adorar assistir.

Fico confrangida com as pessoas que se machucam, que saem chorando, que fazem cara de dor. Fico estarrecida com a plateia que vaia gente fazendo coisas que ninguém ali da plateia consegue fazer nem em sonhos. Como assim?

Por que cargas d’água ser o primeiro?

Será mesmo que o homem precisa estar sempre competindo pra se sentir estimulado? Será isso uma característica atávica, como fazer a corte de um certo jeito, como comer carne assada no fogo (aquele churrasco no qual eu não vejo a menor graça),  e outras coisas que a gente se percebe fazendo desde tempos imemoriais?

Sei não. Já é tão, mas tão bonito as coisas que a gente vê esses atletas fazendo, que a medalha não vem ao caso. A gente esquece no mês seguinte. Mas o espetáculo fica, qual um filme que a gente nunca esquece.

Sei não, ainda bem que eu não preciso competir com nada nem ninguém pra me sentir estimulada.

Embora eu tenha metas. De ser boa em algumas coisas.

Acho que é isso. Ser boa. Não ser a melhor.

Mais ou menos como achar uma pedrinha enquanto bate os pés num regato e atirar em seguida, pra ver pipocar na água e acertar num peixe legal. Daí, enquanto toma sol, o sol bater na lente do óculos ( uma vantagem dos míopes) e atear fogo num mato seco perto do peixe e virar um bom peixe assado. E por sorte isso tudo estar ao lado de umas frutinhas que podem perfeitamente servir de sobremesa…

Bom, é isso. Não quero ser a melhor.

Quero mais é ser sortuda.

Boa sorte pra todos!

 

instrumentos, crianças e brincos

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Acabo de ler uma reclamação dolorida do Abujamra de que roubaram instrumentos musicais dele. Espero que alguém ache, mas entendo perfeitamente o que ele sentiu.

Já passei por muitos e variados tipos de assalto e roubo. Aliás, esse foi um dos motivos pra ter vindo morar no “ar”, eu que nasci e sempre morei bem pertinho da terra, onde eu pudesse plantar e pisar.

Mas divago.

Contava de assaltos. Houve um deles em que levaram os bichos de pelúcia e bonecas da minha filha, criança. Foi muito duro, tal como os instrumentos do Abu, tinham sido ganhas e escolhidas com carinho. Não eram raras, que boneca e bicho de pelúcia não tem como ser rara, comprada por família de classe média. Mas foram escolhidas numa certa época. Depois não dá pra repor igual.

Doeu muito nela e muito em nós, vendo a dor dela. Mas de certa forma me acalmei, ao pensar que o ladrão talvez tivesse filhos crianças também, e que, afinal, alguma outra criança ia ser feliz com aqueles brinquedos.

Já eu colecionava – ainda coleciono – brincos.

Por que colecionar brincos, coisa tão trivial? Porque pra mim brincos são difíceis de achar.

Não tenho furo na orelha. Nem pretendo ter. Minha orelha intacta é motivo de orgulho e de estima da minha parte. Chegou até, segundo me contaram, a dar briga entre minha mãe e meu pai, uma querendo furar logo ao nascer, outro ameaçando briga se isso fosse feito. Meu pai ganhou e minha orelha está lá, ou melhor, aqui, inteirinha e bonitinha, sem furo.

Mas isso me traz alguns problemas na hora de escolher brinco. Os de pressão doem depois de algum tempo. Você se percebe de mau humor, com vontade de morder as pessoas ao redor e só aí percebe que é a dor provocada na orelha, constante qual tortura.

Existem os imantados. Funciona como imã de geladeira, só que uma vez que minha orelha é fria mas não é geladeira, tem que ter um imã de um lado e outro do lóbulo. Deliciosos, desde que você não encoste o rosto em ninguém nem penteie os cabelos. Não servem.

E existem os antigos, bem antigos, que eram feitos com uma espécie de tarracha, de enrosque. São ótimos e são os que mais tenho e uso. No Brasil só encontro mesmo em feirinhas de antiguidades, uma vez que, apesar do mecanismo existir a venda, ninguém se interessa por ele porque só uma minoria não tem furo. Na orelha.

São mais caros, são bem raros. Eu costumava tê-los todos numa caixinha de metal. Nenhum de ouro, é preciso que se diga. Não uso ouro. Só bijoux.

E não é que um ladrão desalmado invade minha casa e leva todos eles? Anos de coleção, de garimpo, de busca desenfreada.

Doeu.

Eu te entendo, Abu. E olhe que os brincos nunca tiveram nada a ver com minha profissão, que é de manter a orelha atenta, não necessariamente com brinco.

Espero que você ache teus instrumentos. Meus brincos nunca mais achei.