feira de quinta-feira

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Quinta-feira: dia de feira.

Eu podia comprar no supermercado, eu podia comprar pela internet, eu podia comprar na feira de orgânicos, eu podia ter uma horta, eu podia matar e roubar. Mas eu faço feira toda quinta-feira.

Na feira, quase sempre as mesmas barracas. Pela qualidade dos produtos, pela simpatia do feirante, pela discrição. Porque ser discreto também é qualidade para mim. O cara está lá para vender, mas não precisa assediar, abordar, ser interativo ou proativo ou que raio de ativo os tempos modernos e as modinhas definam. Não quero nenhuma atividade a não ser estar lá, trazer bons produtos e me deixar sossegada.

Tá bom, estou velha e chata, provavelmente. Ou não.

Quinta-feira eu faço feira.

Barraca de tomates. Bons tomates. Pras minhas saladas, pro molho de macarrão – ótimo- do maridão. O feirante, discreto como gosto, pergunta pelo maridão, ausente.

Está fazendo um curso, digo, pra não me estender muito.

Curso? Diz ele. Sabe que eu nunca fiz um curso?

Penso com meus botões que ele lamenta e eu não devia ter dito isso porque posso ter constrangido e detesto constranger as pessoas.

Mas não. Ele continua: desde os meus quinze anos nunca mais fiz curso nenhum.

Faço as contas com meus botões. Deve ter acabado só o fundamental.

Tenho 34 anos, diz ele. ( puxa, reflito sempre com meus botões. Tão novo!) E tenho casa. Carro e não tenho patrão. Tá ótimo, né não?

Dou um sorriso o menos amarelo que consigo. Pago os tomates e sigo a feira.

Um garoto de 34 anos e já “realizado na vida” , segundo ele. Trabalha de sol a sol, de domingo a domingo. Nâo tem patrão mas também não tem nenhum direito trabalhista assegurado, não tem aposentadoria ( a não ser que pague, o que duvido), não tem plano saúde, não tem férias, não tem décimo terceiro. Mas não tem patrão e deve se sentir um Roberto Lehman dos tomates.

Não precisa gostar de estudar. Entendo isso. O que não entendo é a ambição de uma vida se estender a casa e carro. E terminar aos 34 anos.

Mas enfim…Cada um sabe de si.

Eu só estou fazendo minha feira das quintas-feiras.

 

 

 

vento na cara

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Medo de faltar o ar. Gosto tanto de ar!

Pode ser até parado, mas gosto mesmo é do ar com pressa, do vento na cara. Super simpatizo com aqueles cachorros que botam a cabeça do lado de fora da janela do carro e deixam as orelhas ao vento!

Vai daí, água é um problema. Não pro banho, que também gosto muito, mas botar a cabeça debaixo dágua, por vontade própria ou não.

De qualquer forma, já que em criança íamos a um clube que ficava nas margens da Guarapiranga, era prudente que eu soubesse nadar. Mãe nunca fui ao clube, nunca entendi bem por quê. Dizia que alguém tinha que fazer o almoço, que não gostava de sol, mas acho mesmo é que não gostava de ver meu pai bebendo demais da conta. Eu também não, então ficava sozinha na represa, olhando o mundão de água, pescando com ele  às vezes, aqueles pobres lambaris e carás que morriam à toa, só pelo prazer – se é que havia algum – de uns pescadores dominicais. Eram pequenos demais pra comer. Embora eu tivesse comido alguns de petisco, na churrasqueira improvisada.

Meu pai era dono de um indefectível estilo cachorrinho de nadar.

Já viu cachorrinho pequeno na água? Bate perninhas , as quatro, em movimentos curtos e frenéticos, mantendo a cabeça bem longe da água.

Então. É assim. Assim que eu aprendi com meu pai. Manter a cabeça alta pra respirar e as patinhas batendo freneticamente.

Funciona. Estou viva até hoje.

Na represa havia um cocho. Uma estrutura de madeira para aqueles que estavam aprendendo ou para as crianças que ainda não nadavam bem. Eu tinha um certo nojo do cocho. AS tábuas do piso eram cobertas de um limo escorregadio. Aí preferi sempre a represa onde havia limo no fundo sim, mas tão longe que eu nem encostava. Era funda a represa.

No mar a coisa toda muda. A água é salgada, muito ruim de beber quando se toma um caldo. E as ondas não são amigáveis. Não gosto de mar.

Tudo isso porque gosto de ar. Em grande quantidade. Em movimento. Batendo na cara.

Aí vem maridão de noite e me faz fechar a janela.

Porque maridão é friorento.

E como eu gosto mais do maridão do que do vento na cara, eu fecho.

Ressabiada mas fecho.

brincadeiras

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Desenho com botões

Você só precisa de um tapete liso (estampado estraga o visual final) e muitos botões, de todas as cores e tamanhos, desses que a mãe da gente guardava antigamente. Bom, daí é só imaginar um desenho e ir fazendo com os botões. A técnica não é diferente da do mosaico, só que você não precisa quebrar nada, nem colar depois. Só monta e depois desmonta. Não danifica os botões nem o tapete. Não requer prática (bom, talvez só um pouquinho) nem habilidade.

 

Castelo de cartas

Cartas de baralho, de preferência de cartão. As de plástico são muito rígidas e costumam quebrar. Se vierem com aquela caixinha melhor ainda. É só utilizar a caixinha como piso e ir montando as cartas, umas sobre as outras, formando quartos e sacadas. Requer habilidade e paciência. E um lugar sem vento.

Bom, eu costumava ir mais além, depois do castelo montado: imaginava cenários e enredos românticos, geralmente entre o valete de ouros e a dama de paus, que sempre achei os mais bonitos do baralho. Mas você pode imaginar o enredo que quiser. O baralho é seu e ninguém tem nada com isso.

 

Bonecos de manga ( com variação com batata doce)

Manga espada é a melhor. As Tommy ou Palmer são muito grandes e quase não têm pelos. Além de caras. Pegue umas mangas espada de vários tamanhos, chupe-as e deixe ao sol, pra secar. Depois de secas, com um pente fino, penteie os pelos do jeito que quiser. Pode fazer crinas de cavalo, moicanos, pelos de cachorro, à vontade. Daí é só pintar uns olhos e uma boca com caneta Bic mesmo (daquelas que o presidente, eca, usa) e botar quatro palitinhos pra serem os pés do bicho. Ou dois, se for boneco. Ou três se for ferido de guerra. Ou oito se for aranha, Bom, bote o número de pés que quiser e divirta-se!

 

Pintura com água

Tem que ter um quintal Dentro de casa as mães reclamam muito. E sol, pra secar rápido depois e você poder fazer outra pintura. Eu usava água em chão de caquinhos de cerâmica, mas acho que tem décadas que não se encontra mais piso de caquinhos. Pode usar porcelanato. Daí, com o dedo, num dia de calor e sol, pinte o que quiser. E vá fazer outra coisa. Quando voltar, depois de uns dez minutos, a pintura terá secado. Daí você pode fazer outra! Nem precisa dar DEL nem ESC. Não é sensacional?

 

Móveis pra casinha de bonecas

Precisa de caixinhas de fósforo. Com pai que fume cachimbo você terá muitas. Ou mães com fogões antigos, sem acendedor automático. Ou com lugar com muita falta de luz. Enfim…Com as caixinhas você cola umas nas outras e vai montando os móveis. Mesas, sofás, estantes. Pode fazer uma casa inteira de caixas de fósforo. Para as paredes é só desmontar as caixinhas e terá uma linda parede de lambri de madeira. Pode também fazer trincheiras e fortes militares. Mas eu sempre fui contra violência e nunca fiz isso.

 

E é isso. Essas são algumas das brincadeiras que eu costumava fazer quando pequena. Se alguém lembrar de mais alguma, aceito contribuições. Vou ser avó em breve e preciso por o repertório em dia. Se é que alguma delas será páreo para os games de hoje…

 

 

 

 

 

aniversário

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Ele me levava ao dentista com seis anos. Segurava minha mão quando o Renato (esqueci a cara mas jamais me esquecerei do nome. O primeiro trauma a gente nunca esquece) avançava com aquela broca medieval da época. Depois me levava numa padaria e me dava um copo de leite frio. Até hoje leite frio me acalma.

Ele me indicou os primeiros livros para ler, assim que aprendi a ler. Muita aventura, muito Mark Twain, muito Julio Verne, o diário de Anne Frank. Logo eu lia mais que ele e aí passei a escolher pelo nome original ou pelas capas elaboradas…

Ele me dava presentes do dinheiro de seu minguado salário de estagiário.

Quis me ensinar a jogar voley. Eu tentei aprender. Ambos ficamos decepcionados.

Ele me levava ao cinema pra ver Totó e Vittório Gassman. E mais um monte de comédias italianas.

Ele teve paciência pra me ensinar o pouco que sabia de piano, as notas iniciais, os pedais. Daí eu fui em frente, só tocando com a mão direita, até hoje. Acho que não fui muito em frente, afinal.

Ele, em momentos em que a família perdeu a paciência comigo, ficava ao meu lado e me dizia do orgulho que teria se um dia tivesse uma filha como eu.

Ele, que nunca fumou, nunca bebeu, passou a vida fazendo esporte, morreu de um câncer estúpido, como são todos.

Era meu irmão do meio. O xodó de todos. Inclusive meu.

Faria hoje 82 anos. Desde os 68 porém, nunca mais aniversariou.

Um beijão, Miltola!

a terceira onda

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No início foram os filhos.

Era muito raro, quando eu era nova e em idade fértil, optar por não ter filhos, tendo condições e parceiro, estável ou não. As mulheres tinham filhos.

Não como na época de nossos pais e mesmo dos avós. O número de filhos foi diminuindo em escala quase geométrica, pelo menos para quem podia escolher.

Meus avós tiveram 18 e 10 filhos cada um. Paternos foram dezoito filhos, dez sobreviventes e maternos dez filhos, cinco sobreviventes. E olhe que minha avó materna, por conta de doença, parou de ter filhos aos 36 anos.

Meus pais tiveram 4 e eu dois.

Sou da geração pílula, o que veio tornar a opção filhos de fato uma opção. Pelo menos para a classe média.

Meus filhos já optaram, um deles, por não deixar descendência e a outra terá filhos agora, quase no fim do segundo tempo. Provavelmente meu único neto.

Digo isso para meus botões – com os quais costumo ter diálogos ou monólogos usuais- por conta de uma ideia que me surgiu. A de que os filhos foram a primeira onda.

A segunda onda, que tem relação com esta primeira e muita relação com o estilo de vida de hoje, diz respeito à pets. Aqueles bichos, cachorros, gatos, peixes, e outros que tais que as pessoas mantêm e cuidam e prezam e tratam como filhos.

Eu também já tive pets e adoro. Minhas cachorras sempre foram cachorras, vivendo no quintal e comendo ração. Nunca dormiram comigo nem comeram minha comida, exceto quando estavam tão velhinhas que a ração passou a fazer mal. Aí foram tratadas a canja de galinha, que eu sempre fiz só para elas. Mas para mim nunca passaram de cachorras. Amadas mas cachorras.

Esta segunda onda acho que vem suprir a falta de filhos e, ao mesmo tempo, “dar menos trabalho” que filhos. Mas também dá um trabalhão. Que pode ser terceirizado sem tanto drama de consciência, tipo hotel pra cachorro, banho e tosa, passeadores de cachorro quando o dono não pode, essas coisas.

E, finalmente, descobri nesta minha última viagem, a terceira onda.

Levain, ou fermento natural de pão.

Não, não é a minha que eu nunca primei pela paciência. Mas é a do maridão. Para o prazer da minha gula.

Fermento natural tem que ser alimentado a cada dois dias. Tem que ter cuidados quanto a temperatura, quanto a luz e sombra, essas coisas.

Em viagem, um problemão. Ou você designa alguém pra ir na tua casa alimentar o bicho, digo, o fermento, ou a coisa toda degringola e você tem de começar tudo de novo.

Já se pensou até em creche de fermento para esses casos mas ainda não surgiu o empreendedor.

Esta terceira onda ainda dá ao ser humano a impressão de cuidados com outro, mesmo que o outro sejam as bactérias da levedura. Dá menos trabalho, porém, que os filhos e os pets.

Talvez seja isso. Numa sociedade futura, uma quarta, quinta ou sexta onda talvez seja alguma coisa eletrônica que precise ser alimentada.

OOpps… acho que já existiu!

Alguém lembra dos tamagochis??

 

a curiosidade mata o gato e a avó do gato

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Eu sou curiosíssima.

Presentes de natal debaixo da árvore sempre dei um jeito de abrir. Começava balançando, chacoalhando, depois descolava ou tirava o durex e abria, de preferência de noite, com a casa dormindo. Como eu nunca fui boa pra fazer pacotes, suponho que todo mundo descobrisse. Mas não me perturbavam por isso. Acho que eu era a única criança da casa e merecia, nesse quesito, uma dose a mais de paciência.

Sou curiosa com tapumes nas ruas. Sempre dou um jeito de olhar por algum buraco pra saber do que se trata.

Sou curiosa com janelas abertas à noite. Quando caminhamos de noite e alguma janela está aberta sem cortinas, não consigo não olhar.

Também com professores novos, com casas novas, enfim, sou curiosa pra caramba.

Então, como não ficar curiosa com o sexo dos filhos? Embora não acreditasse em superstições, como evitar todas que me indicavam só pra saber o sexo da criança? Às vezes dava certo, o que não é de estranhar, com 50% de chance de ser menino ou menina. De vez em quando havia acertos. E, como os ratos de laboratório com estímulos intermitentes, eu sempre fazia todas as simpatias.

Quando nasciam, a primeira pergunta: menino ou menina? Impossível evitar.

Agora estou pra ser avó, daqui uns meses. Já sei o sexo, a previsão do peso, o nome, e um monte de outras coisas. Cadê a graça?

Espero que ele goste também de abrir presentes escondido debaixo da árvore.

Se não houver surpresa quanto ao sexo e um monte de outras coisas, que haja quanto ao jeitão.

Porque no que depender da avó, ela está morrendo de curiosidade.

Será corintiano? Será leitor? Será comedor de queijo? Será bem humorado?

Ainda bem que os exames não entram em todos os detalhes e não influenciam tanto assim.

Porque a avó vai fazer de tudo pra influenciar…

uma saga gelada

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Eu já nasci com uma delas em casa. Uma pequena, da época da segunda guerra. Dava e sobrava pra todo mundo.

Durou muito tempo. Elas duravam sempre muito tempo. Começou na casa dos meus pais e terminou na casa do meu irmão do meio, depois que ele se casou e não tinha muita grana pra ter uma. Quando ele teve grana pra comprar outra, passou ela pra frente. Ainda funcionava muito bem.

E assim a vida foi seguindo. Quando eu casei, uma vez que elas eram caras pra nós e para os familiares, houve uma vaquinha e a gente ganhou uma. Uma lindeza na época. Vermelha, na última moda.

Durou bastante também. Por insistência familiar – filhos, principalmente, foi trocada porque “ora, mãe, vermelha não se usa mais faz tempo…”. Funcionava ainda e foi fazer seu serviço na  casa de amigos.

Aí a coisa foi degringolando um pouco. Elas até funcionavam, mas enferrujavam, descascavam às vezes, quebravam principalmente os puxadores. As novidades se acumulavam, não no sentido de melhorar significativamente a coisa, mas no sentido de fazer as pessoas gastarem mais trocando de modelo. Como carro. Já não bastava mais gelar e conservar os alimentos, porque, como vocês já adivinharam, estou falando de geladeiras, mas de ter água na porta, de ter freezer enorme, de ter puxadores diferentes, de abrir a porta ora de um lado, ora de outro.

Eu não ligava muito pra moda, mas a minha quebrou o puxador e como já era velha, não havia mais no mercado peça de reposição. Aí maridão esculpiu um puxador. Ficou lindona, mas quebrou a refrigeração. Só o freezer se mantinha. A gente foi aguentando até onde deu. Seis meses atrás deu o que tinha que dar. Compramos outra. Bonita, marca conhecida, cheia de trique-triques e nhem-nhem-nhens.

Há seis meses.

Quebrou. Irremediávelmente. Voltei de viagem longa e ao abrir me deparei com um cavalo morto e podre. Bom, quase. O cheiro e os líquidos escorrendo eram iguais. Todas as carnes e peixes deixados no super freezer podres. E bote podre nisso.

Agora estamos aqui. Sem geladeira há mais de uma semana, recuperando hábitos bem europeus, de comprar só a comida a ser cozinhada no dia, tomando todos os líquidos a temperatura ambiente.

Mas, diz o fabricante, ganharemos uma nova e maior ( coisa absolutamente desnecessária) em 15 dias.

Tá bom.

Saudade da Philco da segunda guerra da minha casa de infância…

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parece que foi ontem

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Foi quando eu conheci batida de amendoim.

Foi lá, mais ou menos em 70 ou 69. Enfim, outro século.

Estou falando do Cu do padre, aquele boteco atrás da igreja de Pinheiros. Acreditem, ele existe há muito tempo. Eu também, mas isso não vem ao caso.

Lá, no cu do padre, eram dois irmãos que tocavam o boteco. Faziam umas batidas de tomar de joelhos, de coco, de amendoim, de maracujá, de limão. E traziam uns queijinhos regados a algum molho escuro e desconhecido – e bom – que a gente também comia lambendo os beiços.

A gente era estudante da USP e um monte de gente que lotava o boteco também. E todos podiam pagar pelo que comiam e bebiam, mesmo os moradores do CRUSP mais sem grana.

Lembro de ter ido lá com meu namorado, hoje marido, com amigos, até com a Raquel Moreno, pra fazer um esquenta antes de uma passeata no centro da cidade. Lembra, Raquel?

Os irmãos tinham sempre cara enfezada, mas eram boas pessoas. A gente nunca sabia o que punham nas batidas, por mais que olhasse, porque as coisas vinham em garrafas não identificadas e eram despejadas nos copos. O lugar era bem sujo e isso não é gracinha, como a maioria dos sujinhos de hoje. Lá era sujo-raiz, desses de passar guardanapo nos copos antes de beber, vai que…

Mas era bom. A gente olhava aqueles queijos provolones e parmesãos pendurados do teto, cheios de picumã, de pó, de cagada de moscas e insetos outros e não ligava. Pedia as porções e adorava.

A gente tinha sonhos, tinha pouca idade, nada doía a não ser as dores de amores e as dores sociais. A gente era feliz, apesar de tudo. Porque a gente acreditava.

Voltei lá ontem. Com o maridão, das poucas coisas que não mudaram desde aquela época.

Meus cabelos embranqueceram, a situação política escureceu, os sonhos ainda existem mas bem mais realistas, o tempo urge e os prazos de validade se aproximam.

Os irmãos não estão mais lá. Acho que morreram, pois eram bem mais velhos que a gente e a gente já está meio que com o pé na cova…A batida de amendoim não dá mais vontade de tomar ajoelhado. O queijo veio sem molho nenhum. A sujeira continua lá, mas agora é só sujeira. Não é mais tradição.

E o preço: mano do céu!!

As coisas mudam bastante de um século pra outro, é só o que posso concluir.

Nem todas, porém.  Os milicos no poder agora lá estão pelo voto, mesmo que de carona. E a situação continua escurecendo.

A distância entre o sonhos de outrora e o pesadelo de hoje é curta.

Parece que foi ontem mas é hoje.P1020070

mudanças

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Existem coisas, se é que posso chamar assim, que a gente se torna. E coisas que a gente nasce sendo. E hoje, felizmente, a gente pode mudar quase todas elas.

Eu nasci mulher. Uma alegria para os pais que já tinham dois homens e haviam perdido uma menina, sete anos atrás. Depois que nasci não sei se fui alegria todos os momentos, acho que não, mas na época me contaram que ficaram radiantes. Sempre relacionavam com essa irmã morta e sempre me faziam sentir uma espécie de peça de reposição, mas enfim…

Depois me tornei tia pela primeira vez aos 12 anos. Um choque pra mim. Na época as crianças não chamavam de tias e tios os professores dos primeiros anos. Tias e tios eram seres mais velhos. Ou solteironas. Ficar para tia, era a maldição. Fui bastante zoada na escola. Não se chamava de bulliyng. Aliás, nem de zoação. Digamos que minhas coleguinhas se divertiram bastante fazendo piadinhas com essa minha condição. De qualquer forma, porém, proibi meus sobrinhos de me chamarem de tia.

Daí, aos 21, me tornei uma mulher casada. Bem cedo, para a época. E tive que mudar o sobrenome. Era a lei. Hoje poderia mudar de novo, mas a trabalheira que isso deu não quero novamente. E, afinal, o nome de solteira era o nome de um homem também, meu pai. É duro ser feminista – embora não ache isso um exemplo de feminismo considerável- em mundo machista burocrático.

Daí fui me tornando outras coisas, por escolha algumas, outras por necessidade. Eu não pude escolher todos meus empregos. Como sempre escolhi pagar minhas contas, épocas houve em que ou bem eu pagava contas ou bem gostava do emprego. Parecia que as duas coisas eram excludentes.

E fui envelhecendo. Não foi, nem é uma escolha. Mas é a lei da vida. Ou isso ou a morte precoce.

Tá bom, na minha idade hoje nem seria uma morte precoce, dirão alguns…

Daí que a grande escolha que o amadurecimento me deu, e que tem sido a única das últimas décadas, é ser feliz. Eu abomino tudo que me leve pra longe desse caminho.

Enquanto isso, e enquanto espero ser avó- o que acontecerá em breve e essa condição nem penso em mudar e sim, netinho poderá me chamar de vó-  fico arquitetando como mudar todas as outras condições desse país. Ando meio sem rumo. Desanimada que só. Sei que não estou sozinha mas me sinto assim como formigueiro quando a gente pisa em cima, cada um para um canto diferente. Muita gente mas rumo nenhum.

Isso que falei no começo, de a gente poder mudar nossas condições continuo acreditando.

Mas que é difícil é.

E, como diz a música, não dá pra ser feliz sozinho.

breve história

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A marca era Brasil. Como nunca ouvi qualquer menção a essa marca, suponho que fosse vagabundo. O piano, que é disso que estou falando. O piano lá de casa.

Não era de cauda, não, era daqueles altos. Tampouco era de apartamento, era grande demais.

Ficava do lado direito de quem entrava na sala. Pensando bem, do lado esquerdo. Às vezes direito, às vezes esquerdo. Minha mãe, como eu, gostava de mudar as coisas de lugar. A sala era retangular, mas as opções para o piano ficar não podiam incluir a frente da janela nem no arco que dividia a sala de estar da de jantar. Então minha mãe ficava mudando ele de lugar, da direita pra esquerda, a cada seis meses, mais ou menos. A sala tinha ranhuras profundas no taco, encobertas por um tapete.

Lembro do fascínio que senti quando descobri que a tampa de cima abria e lá dentro – pasmei- um monte de teclas tortinhas de feltros que faziam som! Eu brincava de tocar ali direto. E usava pra esconder coisas dentro dele.

A cada tanto, vinha lá em casa o afinador. Um velho alemão, que mal ouvia.

Nunca contei que gostava de tocar “de dentro para fora”.

Um dia a situação financeira apertou bastante. Ele  foi vendido. Bem barato, me lembro.

Doeu muito.