Livre pensar, Millor, está cada vez mais difícil

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Minha mâe, quando fazia comida, o que aconteceu por décadas, costumava ela mesma se elogiar. A gente achava engraçado porque ela nem dava tempo da gente opinar. Trazia a comida para a mesa já elogiando.

Eu gosto de escrever. Mas tenho pudor de elogiar o que eu mesma escrevo, embora  ache mesmo certos textos bons.

Então, boto no ar e fico feliz da vida se alguém gosta, além de mim. Sim, porque se eu não gostasse nem publicava.

Também no teatro ou mesmo na televisão, gosto mais da sutileza. Vocês já prestaram atenção na Fernanda Montenegro? Ela atua com os olhos, com a ruguinha do canto da boca, com as mãos, com a sobrancelha. E não, ela nunca faz careta. Porque careta é o arremedo da atuação.

Assim como escrever clichês também é o arremedo da literatura.

Aprendi com a literatura mesmo a gostar das entrelinhas, das sutilezas, do que fica subentendido. Descobrir um personagem aos poucos é fascinante. Autor que dá tempo pra isso acontecer dura mais. Dura enquanto se lê, dura enquanto se pensa sobre o livro, dura na memória. Porque instiga. Que o diga Capitu. Ou Machado. Capitu é tão real que poderia ela mesma dizer.

Os tempos hoje são sombrios. Ninguém acha, parece que todo mundo tem certezas.

Ninguém pede, parece que a maioria gosta de ordenar.

O Brasil, talvez mais do que outros povos, vive hoje momentos esquizóides. A propaganda oficial sempre alardeou o povo gentil, receptivo. A realidade é hoje, mais do que nunca, bem outra.

Sérgio Buarque foi preciso ao definir o homem gentil. Mas tem que ser lido nas entrelinhas e na sutileza. O homem gentil do Sérgio cumprimentava a empregada desde que ela não saísse do seu lugar, definido por ele, lógico. Muito gentil. Como aquelas pessoas que alardeiam que suas empregadas são “como se fossem da sua família”.

Hoje, há que se ler nas entrelinhas, embora alguém possa achar que esteja tudo claro por demais. Que os lados estejam bem demarcados. Que só se possa ser uma coisa ou outra.

Tem de haver espaço para o pensar.

Minha mãe trazia a comida se auto-elogiando. A gente não tinha que pensar. Tinha que concordar e comer.

Prefiro o pensar.

Correndo o risco de ficar sem comer.

viciada

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Vício é uma coisa complicada. Já tive alguns e tenho atualmente outros. 

Já fui fumante, por quase 38 anos. Parei há 20. Sim, não precisam fazer as contas, comecei com 12. 

Por que? Porque não tinha amigas e era muito tímida no ginásio. As meninas mais descoladas da escola fumavam. Aquelas que tinham namorados, as que sabiam o que queriam, as independentes. Ou pelo menos eu achava tudo isso.

Vai daí, comecei a fumar. Não foi difícil, não precisei procurar nenhuma boca de fumo, meu pai também fumava. Com o início do vício em cigarro (um dos vícios mais rápidos de se adquirir) também aprendi a roubar. Eu roubava cigarros dele. Como era Mistura Fina, um quebra-peitos da pior espécie, em breve comecei a tungar as moedas que ele não usava e guardava numa cesta. Ele não tinha – nunca teve- carteira. Não gostava. Então também não usava moedas nem moedeiro porque dizia que só faziam pesar nos bolsos. Enfim, eu usava as moedas pra comprar cigarros de marca melhor do que a dele. 

Parei com esse vicio aos 50. Uma boa data na vida da gente. Até porque eu sempre considerei 50 como a metade da vida. Uma otimista.

Sendo assim, se na primeira metade me deixei levar pelo vicio, na segunda iria ser diferente.

Está sendo. Parei de uma hora para outra e nunca mais voltei. 

Eu também bebo. Vinho. Acho que é vício, embora na quantidade em que beba até os médicos aceitem. Em todo caso, ainda paro sem problemas quando tenho que fazer exames médicos. 

Eu danço, mas não posso me considerar viciada. Dançava uma vez por semana, na pandemia acabou. Consigo suportar, até porque a música ninguém me tirou, e a música veio antes da dança. 

Mas uma coisa que aprendi há muito tempo, que nem dava tanto valor assim, foi aumentando nesta pandemia de forma avassaladora.

Nenhum médico reclamou ainda. Tá bom, a fisioterapeuta manda maneirar, que o meu pescoço, o meu ombro, minha postura, enfim, essas coisas que fisioterapeuta adora reclamar, estão mal. 

Eu sei. Tento fazer pausas. Mas vício é vício. 

Esse, ao contrário do fumo, demorou para engrenar.

Comecei aos oito anos. Minha avó havia morrido e a mãe da minha cunhada, uruguaia passando algum tempo aqui, me introduziu ao vício. Aprendi do jeito dela e até hoje faço do mesmo jeito. No fim da vida dela, ela estava toda tortinha…

Depois deixei de lado. Até quando tinha uns 30 e poucos anos, quando fiz parte de um clube de mães e, devido à minha formação passei a dar uma espécie de palestras sobre educação sexual e biologia. Falávamos de métodos anticoncepcionais, de saúde da mulher, essas coisas. 

Pra não ficar enfadonho, enquanto a gente conversava, mandava ver no vício. Foi aí que retomei o meu, depois de anos. 

E depois, fui mantendo o vício devagar. Como podia, quando tinha tempo. 

Aí me aposentei. Começou a sobrar um pouco de tempo. Ocupar com que? Vício, é claro.

Eu já sou – sempre fui – viciada em ler. Mas aposentada, mesmo lendo mais, ainda sobrava tempo.

Hoje estou aqui, mergulhada no vício, não podendo ficar um dia sem, entrando em crise quando meu material acaba. Procurando via internet todas as bocas pra garantir a compra do material.

Entrando em todos os grupos de internet ligados ao vício. 

Ponto cruz, crochê e tricô. Ah, tapeçaria também, iniciando. 

Só de falar no assunto minhas mãos já começam a tremer…

descoberta

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Sei dele pedaços de história. Pela única foto que tenho, tinha muito cabelo. Preto e basto, como se dizia na época. E por falar em época, estou falando do fim do século retrasado e começo do século passado.

Deve ter vindo com grande parte da família, uma vez que no mesmo bairro para onde vieram, a Lapa, morava um monte de parente. Primos alguns. Outros eram amigos.

Montou uma padaria. No centro da Lapa. Isso eu sabia. Conta-se que era um homem dedicado à esposa, que foi bastante doente, tanto que só teve dez filhos, dos quais só cinco sobreviveram. Parece uma estatística macabra, mas era muito comum isso na época, nas camadas mais pobres. Em compensação, violento e autoritário com os filhos. Lugar de mulher era na cozinha, depois de terminar o primário. Filho que fizesse algo que ele não gostasse era castigado. Havia um causo que me contavam que um dos filhos, com certo retardo mental, demorava pra fazer as coisas. Fazia xixi na cama até bem grande. Certo dia o pai castigou-o deixando-o amarrado a uma árvore no quintal o dia inteiro, sob o pranto da mulher que pelo visto não se atrevia a desobedecê-lo.

Estou falando do Luiz, meu avô materno. Morreu num acidente automobilístico quando minha mãe tinha 13 anos, deixando minha avó com cinco filhos pra criar. De alguma forma ela criou. Os cinco também criaram suas famílias, como puderam. Ele morreu num acidente automobilístico. Sim, ele tinha carro. Parece que a padaria tinha dado certo. Até aí chega o que eu sabia.

Daí, semana passada, vi na internet a foto de um desastre de automóvel de 1929, aqui na Lapa. Achei que podia ser o dele, sei lá por qual razão. Afinal, não deviam existir tantos carros assim na década de 30 e com acidente sério menos ainda. Mas não era. Soube porém, por quem postou a foto, que a Biblioteca Nacional possui uma hemeroteca já digitalizada. Era só procurar o nome dele e, quem sabe, eu descobriria alguma coisa!

Não deu outra. Em 1932, numa volta dum pic-nic de páscoa, meu avô que tinha bebido o dia inteiro, deixou o carro dele pra um amigo guiar. Ele veio no estribo. O carro estava lotado de familiares. Na Lapa, uma carroça de entrega de leite raspou o veículo com tudo do lado em que ele se dependurava no estribo. Muitas fraturas expostas e algumas horas mais tarde, no mesmo dia, a morte no hospital.E é isso. Pela mesma hemeroteca descobri o endereço da padaria, que eu não sabia. E até o preço que ele pagou por ela!

Fui hoje lá, a pé, de máscara e atravessando a rua cada vez que via alguém. Parecia que estava fugindo. Achei o lugar. No principal ponto comercial da Lapa, defronte ao shopping. Bar da Loira, chama-se hoje.

Quem diria que o italiano de cabelo preto e basto seria trocado pela loira, seja ela quem for…

ditirambo

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Todo mundo sonha. Alguns lembram, outros não.

Sou das que lembram. Com riqueza de detalhes. 

Apesar disso, e apesar de, como todos, ter tanto bons sonhos quanto pesadelos, nunca senti dor em sonho. Mesmo quando sonhei que fui atropelada por um ônibus. Vi o bichão vir pra cima de mim, o parachoque dianteiro se agigantar, ele todo passar por cima e …nada de dor. 

Estranho. 

Embora adore interpretar os sonhos e use isso como um instrumento efetivo de reflexão e auto-conhecimento, nunca consegui entender isso. 

Prazer eu sinto. Estranheza, curiosidade, ansiedade. 

Aquele clássico sonho de ter uma prova na escola e nem saber disso ou não ter estudado nada, que causa uma profunda ansiedade, que todo mundo já teve, já tive várias vezes. Nos sonhos e na vida real também. Fui péssima aluna no fundamental. 

Bom, posto isso, hoje sonhei com uma palavra. 

Sim, clara e legível, em letras garrafais (oops, olha o ato falho aí, gente) . 

Sonhei com a palavra Ditirambo. 

Acordei com ela na cabeça. Pensei até em escrever pra não esquecer, mas convenhamos, ditirambo é palavra inesquecível!

Como quando acordo no meio da noite – o que é comum, pra ir ao banheiro – levo um certo tempo pra pegar no sono novamente. Aí fiquei pensando o que seria essa palavra. 

Não me era estranha. Pelo contrário, parecia sonora e bem brasileira. De raízes africanas, até. 

Fiquei pensando em frases, coisas que faço quando não sei uma palavra e o google está longe. 

Seria um bicho? Tipo: fui atacada por um ditirambo que me mordeu a panturrilha?

Seria uma comida? Esta noite vou preparar um ditirambo que vai ficar na memória…

Seria uma figura de linguagem? Não me venha com ditirambos…

Seria uma doença? Peguei um ditirambo que vou te contar…

Fiquei nessa por uns bons quinze minutos, que é o que levo pra adormecer de novo.

Quando acordei esta manhã, a palavra me voltou. 

Pai google foi curto e grosso: Ditirambo é uma ode a Dionísio, o deus do vinho. 

Agora tudo faz sentido. Até as letras garrafais, lembram?

Aquelas duas taças de cabernet antes de dormir não caíram tão bem assim. 

Um ditirambo a Dionísio, porém. Adoro vinho, embora não goste de deuses. 

Mas como nome de comida ainda acho melhor. Vou pra cozinha reciclar uma alcatra de ontem pra virar o ditirambo ao molho curry de hoje. 

caos no calendário

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Eu sei que não é natal. Bom, acho que não mas outro dia ainda era 9 de julho e um outro foi junho, mas a gente está em maio. Olha, pode até ser Natal. 

Bom, na varanda do meu vizinho é. O papai Noel está ali, de bunda para o sol de maio, junho ou dezembro, xii, deixa pra lá. 

Está ali fazendo não sei o quê. Talvez arejando, talvez alguém entediado que resolveu começar já os preparativos de natal, vai saber… Minha mãe, por exemplo, dedicava o mês inteiro ao natal. E olhe que ela nunca foi religiosa. Não me lembro nem mesmo de ela ter ido assistir a minha primeira comunhão. 

Mas ela começava limpando a casa. Não uma faxina qualquer, dessas que a gente faz a cada quinze dias ou mais, sabe como é, pandemia, ninguém tem entrado aqui em casa, não precisamos exagerar. Mas ela começava lavando as paredes. Todas. De cima a baixo. Depois limpava o chão de tacos, o que significava raspar o excesso de cera ( eu adorava fazer isso com gilete) e passar querosene ou removedor em todo o chão. Todo não. Na cerâmica da cozinha era soda. 

Depois ela tirava toda a roupa dos armários e punha no quintal, ao sol. Limpava os armários por dentro e por fora, com carnaúba. 

Depois ela polia todos os metais. Todas as maçanetas, chegando ao cúmulo de polir as dobradiças de latão. Meu irmão do meio ia para o sacrifício. Ele também tinha que limpar todos os lustres ( alguém já limpou lustre com contas de vidro? ) e arandelas. Ele era o mais alto da família. 

Aí escolhia o mais bonito jogo de crochê, dos que a minha avó fazia ( crochê na minha família pulou geração: quem faz hoje sou eu) e trocava as toalhas da casa. Depois de ter engomado o jogo com maisena. 

Aí, casa limpa, grama cortada no quintal, já faltava mais ou menos uma semana para o natal. Era a hora de fazer a lista do mercado. Dois ou mais dias antes, era a hora de cozinhar pra toda a família. 

Daí acontecia o natal. 

Daí acontecia, dois dias depois, meu aniversário. 

“Mas essa menina tinha que ter nascido nessa época (como se fosse eu a responsável), dizia ela. 

Não aguento cozinhar mais nada. Não sobrou um bolo aí na geladeira? 

bacalhau

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Hoje pela primeira vez estou cozinhando um bacalhau que não é seco nem salgado. Um bacalhau como devem ser todos os bacalhaus em seu lugar de origem. Um bacalhau sem maquiagem, sem preparos, ao vivo não diria, porque ele está bem morto e fatiado mas assim, um bacalhau puro em sua integridade de bacalhau.

Também, ando me sentindo meio assim, um bacalhau. 

Maquiagem nem pensar. Nem o batonzinho básico que eu gostava. Pra que? A boca não tem ajudado, nem os dentes. Uma das jaquetas (será assim que fala?) caiu e está lá, o dente falta mas tantas outras coisas mais importantes também faltam que eu nem ligo mais. Afinal, a máscara esconde também isso. 

E assim la nave va. 

São sessenta dias em casa. Adoro minha casa.  Pelo menos adorava. Na realidade, ando um pouquinho entediada com ela. 

Não se modifica. O sol tem nascido todos os dias no mesmo lugar e todos os dias se põe do lado oposto. Se chove ou faz frio nem ligo. Aqui dentro a temperatura é quase constante. Os domingos se diferenciam um pouco porque insistimos em comer na sala, mesa mais arrumada. Mas preciso sempre verificar no jornal se é domingo mesmo. 

Nosso treino esportivo limita-se a subir e descer escadas, 704 degraus por dia. Estamos muito bons nisso. Nunca mais reclamarei dos apartamentos franceses no quinto andar sem elevador. Fichinha. Quero ver no décimo quarto como aqui! 

De vez em quando bate um desespero. Quando lembro do neto, dos filhos e da nossa idade. Sei lá se resistiremos. Grupo de risco e as tais de comorbidades, que antes disso tudo eu nem sabia o que era. 

Ficar em casa. 

A gente fica. 

A gente tem uma casa e tem dinheiro pra comer.Lembrar de quem não tem nada disso desespera mais ainda. 

E pensar que antes disso tudo eu só tinha medo de câncer e de avião cair…

Mas vai passar, é o que dizem. 

E eu, será que vou passar? 

coronariando em casa

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Meu apartamento não chega a 100 ms. É grande, porém, para os padrões de hoje. 

Eu não sou de acumular nada. Entre outras coisas, porque, como mostrei acima, não caberia. 

Roupas não usadas por um ano, no máximo, são doadas. As que deixam de servir também, que eu não sou mulher de ficar me martirizando com aquilo de “um dia vou voltar a usar, ou um dia vai caber de novo”. Isso nunca funciona, nem pra homens nem pra roupas. 

Coisas de cozinha só tenho as que uso diariamente. Meia dúzia de pratos rasos, meia dúzia de fundos. Lembro apenas de uma vez em que vieram sete e não seis pessoas para comer em casa. O sétimo teve que sentar numa mesinha de canto (eu também só tenho seis cadeiras) e comer em prato fundo. 

Sei, no entanto, que esses são pequenos e ridículos problemas de classe média. Que não deveriam importar neste momento, mas acabam incomodando. 

Os pratos, as cadeiras? Não. A falta de coisas inúteis. 

Um amigo fez umas colagens lindas. Aí lembrei que eu também, na adolescência, gostava de fazer colagens. Resolvi tentar. 

Cadê que eu tenho revistas? Desde a época em que o Mino Carta era editor da Veja que eu não assino mais nada. Sim, a Veja já foi razoável. Priscas eras. 

Quando meus filhos eram crianças havia alguma coisa em casa. Gibis, fanzines, por aí. Os dois chegaram aos quarenta e só eu os acho crianças ainda. 

Então, nada de revistas. 

Tenho fotos antigas, poucas mas tenho. Mas não pretendo recortá-las. Embora devesse. Algumas espero que só sejam (re)vistas quando eu já não estiver mais aqui. São humilhantes. 

Tenho livros com imagens. Mas lembro bem do que senti quando descobri que minha filha, bem pequena e com dentes nascendo e coçando, resolveu comer minha edição do Dom Quixote. Eu amo minha filha, mas a relação balançou nesse dia. Eu amo meus filhos mas meus livros são sagrados. 

Então vou procurar coisas. Qualquer coisa. Nas minhas caixas de artesanato guardo sobras de tecidos. Têm sido úteis. Todas nossas máscaras vieram de lá. Guardo coisas de natal. Deve haver algo.

Guardo broches antigos, da época em que a gente fazia campanha de fundos. Já fiz muito bazar, já fiz muito broche, já fiz muita torta de beringela pra vender em eventos de campanhas. Bons e honestos tempos, em que os fundos vinham desse tipo de ações. Guardei alguns broches. 

Vou ver o que posso fazer. 

Em breve, nos melhores posts do ramo.

Vocês não perdem por esperar.

Parece uma ameaça.

E é.

literatura pro avião não cair

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Quando viajo de avião costumo me preparar com antecedência. Isso significa comprar um monte de palavras cruzadas nível desafio e livros que me ajudem na provação. Não livros de autoajuda mas livros que me ajudem, o que é diferente.

Cada um sabe onde lhe aperta o calo, já dizia meu pai que, como eu, também gostava de provérbios. Um livro pra me ajudar precisa ser cheio de diálogos, precisa tratar de assuntos leves ou tratar de forma leve assuntos pesados. Quando o avião chacoalha e eu me imagino vivendo meus últimos minutos na vida, o que menos preciso é de filosofia ou digressões à respeito da nossa passagem na terra. Eu preciso de tramas envolventes, de muito papo, de situações intrincadas. Quase como livro policial, mas para mal dos meus pecados eu sou ruim de memória. Então não consigo nunca resolver crimes em livros policiais porque ou tenho que fazer diagramas em papel ou simplesmente esqueço o nome dos suspeitos e às vezes até da vítima. 

Livros agitados. Já li Rubem Fonseca, embora o ache um pouco pesado pra avião. Os temas, não o autor.

Já li muito Veríssimo, mas esse é leve demais. De novo, os temas, não o autor. 

Gosto muito de Rubem Braga, mas já li quase tudo dele e se releio não mantenho a atenção da mesma forma que da primeira vez. E aí fico sentindo o balanço do avião. E aí fico refletindo sobre a finitude da vida. E aí não adianta nada estar lendo …

Certa vez um amigo me recomendou Nick Horby. Um achado, mas cansa um pouco com o tempo. Durou algumas viagens só. 

Nesta quarentena também tenho procurado ler coisas mais leves. Mas na falta de sair pra comprar livros e não gostando de comprar virtualmente ( livro pra mim é que nem fruta na feira: preciso cheirar, sentir, ler orelhas e contracapas e só aí pedir: me embrulha meia dúzia…) tenho lido o que estava encalhado na fila de espera aqui em casa. Amei ter conhecido Eric Nepomuceno em livro, já que só o conhecia em entrevistas onde, diga-se de passagem, tinha dele uma impressão ruim. Como entrevistador ele é um ótimo escritor!

Estou lendo Luis Aragon. Em português de Portugal, um livro da década de 30. Uma dificuldade mas interessante. Os bairros elegantes, chama-se. Onde se aprende que na França do século retrasado a diferença entre a Republique e os Jardins em Sampa deste século é pequena. 

Agora bom mesmo pra voar, em todos os sentidos, foi ter lido e relido uns 4 Júlios Verne que tinha na estante esperando a vez. Recomendo. Embora, como sempre em Verne, a premonição esteja presente e isso às vezes me faz ficar pensando em nossa realidade. Mas Verne é Verne. 

Daqui a uns 80 dias teremos feito a volta ao mundo e talvez possamos descobrir que, sim, ganhamos esta parada. 

Em todo caso, preferia estar num balão nesta quarentena. 

corona e máscaras

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Tenho pensado muito em máscaras nestes dias de corona. Não só nas máscaras físicas, aquelas que eu tive que comprar a preços absurdos. Mas nas máscaras outras, essas que a gente põe sem nem perceber, que a gente usa em variadas situações e lugares.

Explicando.
Eu costumo olhar pelas janelas. Desde que me mudei para apartamento, eu que sempre só havia morado em casas térreas, adoro olhar pelas janelas deste meu décimo quarto andar. Tudo fica pequeno, deixa de me assustar, parece que eu consigo olhar mais longe e melhor.
Bom, sempre olho pelas janelas.

Ultimamente é o máximo de diversão que me permito : olhar os outros pela janela. O que não deixa de ser interessante em relação a algumas pessoas mas esse é outro assunto.
Mesmo do décimo quarto andar tenho percebido que as pessoas andam se vestindo mais relaxadas, no mau sentido. Neste bairro era raro ver alguém relaxado, mesmo pra ir à farmácia era comum ver mulheres arrumadas, com baton, cabelo e unhas feitas, roupa esportiva mas de grife. Bairro besta, eu sei. Fora os que iam à farmácia de carro, morando a poucas quadras. Falo muito em farmácia porque moro ao lado de uma.

Agora a coisa mudou. A minha teoria é que tudo isso deixou de importar muito. O que está em jogo é muito, muito maior do que meu vizinho me ver de havaiana chumbrega e desgrenhada. A questão crucial é: tem ou não álcool gel nessa porra de farmácia?

Com comida a mesma coisa. Fico pensando nas hordas de milenials que já cresceram a base de Nuggets, hamburgueres, miojos e que tais. Sem saberem cozinhar.
Daí o que resta, neste bairro de classe média é fazer pedidos. E haja motoboy de entrega. Da manhã à noite, é só o que se ouve. Deve ter gente que pede desde o café da manhã até o petisco antes de dormir. Tem sido a última coisa que eu ouço antes de dormir e a primeira que ouço ao acordar. Bons tempos em que ouvia as maritacas locais.

Daí, fico pensando como ficam as circunstâncias.
Sim, porque se o homem é o que é mais as circunstâncias, o que dizer de um hambúrguer comido sozinho em casa, de pijama esmulambento, meio frio, trazido pelo motoboy? Será que sobrevive em paladar ? Será que mudando o entorno e as máscaras usadas (no sentido de caras e bocas e repertório ) o sabor será o mesmo?

Um romance engatado ao vivo resistirá online? Não online mascarado, aquele em que perde-se horas para dar à aparência um ar de “relaxamento casual”mas o online de coronavirus, aquele em que vc sempre pensa se deve ou não tomar banho, pentear o cabelo, fazer a cama, etc, já que…
E é este “já que”que mata. Além do vírus.

Talvez eu esteja sendo afetada pelo isolamento, mas ando pensando muito que, agora que a gente tem que por máscaras pelo vírus, acabe deixando cair as máscaras sociais.

coronariando

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Nossa capacidade de fantasiar ou de assumir nossas fantasias parece diminuir com a idade.

Bom, pra mim parece. As fantasias permanecem mas só em determinadas horas, nas quais preciso fugir um pouco da realidade.

Horas de baixa autoestima, horas de preocupação, mas também horas de descanso, de devaneios.

Em criança, ou porque precisasse fugir mais da realidade, ou porque minha autoestima não fosse exatamente cultivada pela família ou só porque eu tenha sempre gostado de devanear, eu fantasiava mais.

Eu fantasiava, e era bem constante isso, que a cidade, por qualquer motivo, ficava absolutamente vazia. Quando eu digo “a cidade” estou falando do centro da cidade, que é como se dizia quando a gente tomava o ônibus pra ir ao centro.

Como eu dizia, meu sonho era a cidade vazia. Eu poderia entrar nas lojas que quisesse (geralmente eu queria o próprio Mappin, primeira loja de departamentos que conheci, que tinha de tudo), experimentar tudo que quisesse, poderia entrar em todas as lanchonetes (meu sonho de consumo não incluía restaurantes) e comer tudo que quisesse, poderia entrar nas docerias e, é claro, ir de bolo em bolo.

Dificilmente queria entrar em loja de brinquedos. Em joalherias queria. Coisa que, de adulta, deixei de querer, ainda bem, suponho.

Eu gostava de loja de tranqueiras. Meu pai era leiloeiro, então tranqueiras pra mim incluía objetos bizarros, enfeites, livros estranhos e raros.

Continuo gostando. Muito.

Mas a cidade vazia era o grande sonho. Não só por conta do que me permitiria fazer, sem nenhum tipo de restrição, mas pelo silêncio – que sempre prezei- pela calma, pela possibilidade de fazer as coisas devagar.

Nunca previ, nem fantasiei nenhum tipo de vírus. Literatura de ficção nunca foi minha predileta, com exceção do Júlio Verne, que não ponho nessa categoria.

E cidade vazia, como estou vendo ficarem as mais lindas, por conta de doença, nunca imaginei.

Uma coisa é a fantasia, onde a gente realiza sonhos, sabendo que são só um refrigério pra realidade cansativa. Outra coisa é essa paz dos cemitérios.

E olhe que eu sempre gostei de cemitérios, exatamente pela paz.

Que dias!!