allons enfants

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Eu vou viajar! Nada me deixa mais feliz.

Já pensei no porquê disso. Conhecer gente nova? Não exatamente, primeiro porque as possibilidades de comunicação com gente que fale qualquer outra coisa que não italiano e espanhol para mim são muito primárias. Aquela coisa de “por favor, quero comer aquilo “ou “que clima este, não é? ” Enfim, conversa de elevador entre crianças pequenas, tal a limitação do meu vocabulário em outras línguas.

Então não é isso. Até porque eu acho que gente é tudo igual, independentemente de cor, de raça, de gênero, de localização.

Será pelas novas paisagens? Pode ser, mas depois do advento da internet e das telas de alta definição, gosto muito de assistir Discovery, BBC, essas coisas que nos transportam para lugares incríveis mesmo sem a gente ir lá de verdade.

Acabei descobrindo que gosto de viajar por dois motivos bem estranhos.

Em primeiro lugar – FORA TEMER -, adoro mudar de casa, embora tenha mudado muitas poucas vezes na minha vida. Ou até por isso mesmo, quem sabe.

Não fico em hotel. Alugamos apartamentos ou casas por poucos dias. Então, a cada três ou quatro dias estamos em uma casa nova, numa cidade nova, às vezes até num país novo. O que significa casas com cheiros diferentes, com decoração diferentes, com divisões diferentes. Adoro isso!

Em segundo lugar, é ficando longe do meu país e da minha casa que eu posso sentir saudade, que, ao contrário do que as pessoas acham é a coisa mais gostosa de sentir!

Ter vontade de voltar é a melhor coisa de ir.

Mesmo que uma semana depois eu já esteja fuçando novos lugares para conhecer.

Então o próximo mês será só alegrias. Porque viajar, mesmo quando é ruim, é bom.

Até a volta! E me desejem bon voyage, porque é pra lá que vou..

já ouvi esse papo…

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Não sei o que aconteceu com as roupas.

Quando eu era pequena, minha mãe costumava virar ao contrário as golas das camisas do meu pai e os punhos, quando ficavam puídos.

Duvido que muita gente saiba hoje o que quer dizer “puído”. Hoje não dá tempo de nada ficar puído.

Ando pelas ruas aqui do centro e vejo, jogados pelas calçadas, cobertores, jaquetas, sapatos, roupas. São de sem teto que deixam por aí ou perdem. Roupa é coisa fácil de achar para doação por aqui. Eu mesma costumo deixar numa igreja aqui perto uma sacola todo mês.

Ou a gente era muito pobre – acho que éramos- ou os hábitos mudaram. Mas aquela coisa de reaproveitar e usar uma roupa até puir hoje parece não existir mais, quer a pessoa seja pobre ou não.

Sapatos. Eu, pessoalmente, ganhava um par por ano. Geralmente marrom, que era a cor dos sapatos da escola. Mas eu herdava de cunhada, de primas. Até meu pé ficar tão grande que eu só seria capaz de herdar do meu pai, mas aí quem não queria era eu. Gosto de androginia, mas na época não.

Então, quando o sapato furava, era um tal de recortar papelão e botar na sola por dentro, costurar alguma sola com linha comum mesmo e meu irmão, jogador de vôlei, costumava usar esparadrapo pra evitar o efeito “boca aberta “nos tênis. A gente se virava. E tem também uma coisa que nunca mais vi, que era cortar a parte de trás dos sapatos para ainda usá-los mais uns anos para lavar quintal. Transformar em chinelo o que nasceu sapato.

Hoje não vejo mais isso. Sapateiro mesmo é profissão em extinção. Ninguém conserta, joga fora.

Panelas e louças duravam a vida inteira. Não disse que duravam intactas. Disse que duravam uma vida, fosse do jeito que fosse. As panelas lá de casa tinham cabos improvisados de madeira, eram desentortadas com martelo e tampa era qualquer coisa que tampasse. Louças duravam. Se eu quebrasse – e como eu quebrava- qualquer copo que fosse, o mundo vinha abaixo. Pra vocês terem uma ideia, minhas taças de champanhe, as seis de uma dúzia, foram do casamento da minha mãe. Década de 30 do século passado.

Tenho a impressão que as outras seis que completariam a dúzia eu mesma devo ter quebrado nesse meu jeito rápido, porém não eficiente de lavar louça.

O mundo muda. Melhor dizendo, dá voltas. E não falo da rotação da terra.

Hoje está em voga o politicamente correto, o ecologicamente certo, a vida saudável, o reaproveitamento. Os recursos são escassos, é o que se diz.

São. Minha mãe quando remendava roupas já sabia.

Os nossos, então, eram escassíssimos. Menos na fartura da biblioteca e dos esforços para estudar, o que seria, segundo meu pai, a única coisa capaz de nos tirar da lama.

De fato, foi. E agora tenho que ler em toda parte que a gente deve remendar, reutilizar, reaproveitar.

Está bom. Eu faço sem problemas.

No meu caso, vem do berço.

 

 

olímpiada e sorte

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Eu entendo mais ou menos como devia ser a vida de nossos ancestrais. Aqueles bem ancestrais mesmo, de caçar com pedras e comer cru, na falta do conhecimento do fogo.

Devia ser bem duro. Sobreviviam os melhores. Os mais fortes. Os mais rápidos. Os mais sortudos em acharem boas pedras e sábios pra saberem o que fazer com elas na hora do aperto.

Enfim, os primeiros lugares.

O mundo mudou. Em algumas coisas bem pouco. Mas de maneira geral, mudou.

Hoje, eu que só sei fazer fogo virando o botão do fogão, que corro muito pouco e mesmo assim só na esteira, que não como cru carne nenhuma e não me venham com o papo de que sushi, sashimi e o escambau são deliciosos, enfim, euzinha que não sou primeiro lugar em nada, sobrevivo bem e, ouso dizer, sou bastante feliz.

Eu não preciso saber essas coisas, entendem? Não preciso ser a melhor em nada. Basta  ser. Ser da melhor forma – aí sim – que eu conseguir ser. E, na  minha concepção, ser de uma forma que não atrapalhe a vida de ninguém. Só isso já basta pra me fazer bastante feliz.

Então pra mim fica bastante complicado entender olímpiada. Apesar de adorar assistir.

Fico confrangida com as pessoas que se machucam, que saem chorando, que fazem cara de dor. Fico estarrecida com a plateia que vaia gente fazendo coisas que ninguém ali da plateia consegue fazer nem em sonhos. Como assim?

Por que cargas d’água ser o primeiro?

Será mesmo que o homem precisa estar sempre competindo pra se sentir estimulado? Será isso uma característica atávica, como fazer a corte de um certo jeito, como comer carne assada no fogo (aquele churrasco no qual eu não vejo a menor graça),  e outras coisas que a gente se percebe fazendo desde tempos imemoriais?

Sei não. Já é tão, mas tão bonito as coisas que a gente vê esses atletas fazendo, que a medalha não vem ao caso. A gente esquece no mês seguinte. Mas o espetáculo fica, qual um filme que a gente nunca esquece.

Sei não, ainda bem que eu não preciso competir com nada nem ninguém pra me sentir estimulada.

Embora eu tenha metas. De ser boa em algumas coisas.

Acho que é isso. Ser boa. Não ser a melhor.

Mais ou menos como achar uma pedrinha enquanto bate os pés num regato e atirar em seguida, pra ver pipocar na água e acertar num peixe legal. Daí, enquanto toma sol, o sol bater na lente do óculos ( uma vantagem dos míopes) e atear fogo num mato seco perto do peixe e virar um bom peixe assado. E por sorte isso tudo estar ao lado de umas frutinhas que podem perfeitamente servir de sobremesa…

Bom, é isso. Não quero ser a melhor.

Quero mais é ser sortuda.

Boa sorte pra todos!

 

instrumentos, crianças e brincos

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Acabo de ler uma reclamação dolorida do Abujamra de que roubaram instrumentos musicais dele. Espero que alguém ache, mas entendo perfeitamente o que ele sentiu.

Já passei por muitos e variados tipos de assalto e roubo. Aliás, esse foi um dos motivos pra ter vindo morar no “ar”, eu que nasci e sempre morei bem pertinho da terra, onde eu pudesse plantar e pisar.

Mas divago.

Contava de assaltos. Houve um deles em que levaram os bichos de pelúcia e bonecas da minha filha, criança. Foi muito duro, tal como os instrumentos do Abu, tinham sido ganhas e escolhidas com carinho. Não eram raras, que boneca e bicho de pelúcia não tem como ser rara, comprada por família de classe média. Mas foram escolhidas numa certa época. Depois não dá pra repor igual.

Doeu muito nela e muito em nós, vendo a dor dela. Mas de certa forma me acalmei, ao pensar que o ladrão talvez tivesse filhos crianças também, e que, afinal, alguma outra criança ia ser feliz com aqueles brinquedos.

Já eu colecionava – ainda coleciono – brincos.

Por que colecionar brincos, coisa tão trivial? Porque pra mim brincos são difíceis de achar.

Não tenho furo na orelha. Nem pretendo ter. Minha orelha intacta é motivo de orgulho e de estima da minha parte. Chegou até, segundo me contaram, a dar briga entre minha mãe e meu pai, uma querendo furar logo ao nascer, outro ameaçando briga se isso fosse feito. Meu pai ganhou e minha orelha está lá, ou melhor, aqui, inteirinha e bonitinha, sem furo.

Mas isso me traz alguns problemas na hora de escolher brinco. Os de pressão doem depois de algum tempo. Você se percebe de mau humor, com vontade de morder as pessoas ao redor e só aí percebe que é a dor provocada na orelha, constante qual tortura.

Existem os imantados. Funciona como imã de geladeira, só que uma vez que minha orelha é fria mas não é geladeira, tem que ter um imã de um lado e outro do lóbulo. Deliciosos, desde que você não encoste o rosto em ninguém nem penteie os cabelos. Não servem.

E existem os antigos, bem antigos, que eram feitos com uma espécie de tarracha, de enrosque. São ótimos e são os que mais tenho e uso. No Brasil só encontro mesmo em feirinhas de antiguidades, uma vez que, apesar do mecanismo existir a venda, ninguém se interessa por ele porque só uma minoria não tem furo. Na orelha.

São mais caros, são bem raros. Eu costumava tê-los todos numa caixinha de metal. Nenhum de ouro, é preciso que se diga. Não uso ouro. Só bijoux.

E não é que um ladrão desalmado invade minha casa e leva todos eles? Anos de coleção, de garimpo, de busca desenfreada.

Doeu.

Eu te entendo, Abu. E olhe que os brincos nunca tiveram nada a ver com minha profissão, que é de manter a orelha atenta, não necessariamente com brinco.

Espero que você ache teus instrumentos. Meus brincos nunca mais achei.

strega nonna

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Talvez meu mal-estar em relação a médicos venha da falta de contato com eles. Eram caros. Na minha infância, absolutamente raros.

Não que não fossem necessários. Hoje, pensando na coisa, penso que minha avó, meu pai e minha mãe talvez tivessem vivido mais e melhor se tivessem ido mais ao médico.

Mas como?

Na falta de grana, os conhecimentos médicos, quer tenham sido eles meras superstições, quer tenham   sido aquele tipo de conhecimento passado via oral pelos mais velhos e que depois se mostraram verdadeiros, era tudo que tínhamos.

Minha avó, por exemplo, era a médica, a psicóloga, a curandeira e a pesquisadora de casa.

Ela mesma tinha a saúde bastante precária, mas, estranhamente, sobreviveu a uma cirurgia de câncer intestinal e só foi morrer muito, muito tempo depois, de derrame.

Mas ela tinha outras coisas: artrite deformante, o que lhe rendeu mãos eternamente fechadas e dedos tortos, que, porém, jamais a impediram de nos fazer carinhos, massagens, e crochê diariamente. E calcanhares rachados, às vezes, até sangrar.

Os calcanhares ela fazia o seguinte: usava sempre meias de lã, mesmo com chinelos, e à noite, para dormir, quando eles ameaçavam sangrar de tantas rachaduras, amassava alguns tomates bem maduros e passava essa pasta neles, deixando lá e dormindo de meias. No dia seguinte tinham melhorado muito. Ainda outro dia li que isso, efetivamente, faz bem. Um hidratante cheio de vitaminas cicatrizantes, quem diria!

Minhas dores de cabeça. Era assim: toda vez que eu saía de ônibus, voltava com muita dor de cabeça. Ela diagnosticava como “mau-olhado” e me dava algum chá, de cidreira, camomila, hortelã ou alguma outra coisa. Passava. Só muitos anos mais tarde, já adulta, é que descobri minha alergia a cheiro de diesel. Houve um tempo em que não podia entrar no ônibus que já me vinham ânsias. Não podia nem mesmo passar em frente das antigas indústrias Matarazzo, onde hoje é o Memorial, que aquele cheiro de óleo me nauseava e me fazia descer imediatamente do ônibus. Às vezes nem dava tempo de descer.

De fato, a ingestão de algum líquido e me aquietar, longe do agente causador do mal-estar, até hoje resolve.

Mas a explicação da avó, de que uma menina, assim tão “bonitinha, levava a muita inveja e mau-olhado” era sem dúvida, mais interessante.

Já não posso dizer o mesmo dos conhecimentos odontológicos. Ter passado álcool em meus dentes, para aplacar a dor, fez-me perder alguns em tempo recorde. Para minha sorte, existem os implantes hoje, mas bem que eu podia ter ficado sem isso. Ou sem eles. Enfim…De qualquer forma, só o conhecimento foi capaz de mostrar que sim, muita coisa que os antigos diziam tinha fundamento e outras não. Algumas, como no caso dos dentes, paguei o preço da ignorância e da falta de dinheiro. Já outras, como a massagem que minha avó fazia em minha lombar, quem paga o preço hoje sou eu: e bem caro, pros massagistas, fisioterapeutas e errepegistas, pra me fazer, afinal, o que ela me fazia com tanto carinho e com mãos tortas.

Ah, essas avós bruxas, quem não as teve?

de tênis no mar

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Dizem que a melhor forma de educar uma criança é o exemplo. Não, não acho que seja assim tão simples.

Eu tive muitos maus exemplos de algumas coisas e não criei hábitos nem repeti bobagens. Outras, das quais tive as melhores referências, não me serviram para muito.

Provavelmente porque a gama de sentimentos, racionalidades, afetividades envolvidas em cada uma das nossas opiniões e preferências seja muito mais complexa do que a simples dissecção dos exemplos.

Em todo caso, tem coisas que eu considero absolutamente idiotas e que mantive e mantenho e provavelmente, devido ao adiantado da coisa, manterei até o fim dos meus tempos.

Medo do que pode haver no chão do mar.

Tá bom, eu nunca fiz pesca submarina nem mesmo utilizei um simples óculos de natação pra enxergar melhor o tal fundo do mar. Isso atrapalha bastante o discernimento, assim como meus óculos de míope sempre atrapalharam o uso desses outros.

Mas eu tive exemplos em casa.

Meu irmão do meio, o atleta, o cara grandão, o boa praça , morria de medo do que tinha no chão do mar.

Eu adorava meu irmão. E aprendi com ele a entrar no mar de tênis! Era o que ele fazia em praias desconhecidas. Ele me jurava que bicho nenhum se atreveria a me morder se eu estivesse de tênis.

Bom, bicho nenhum nunca me mordeu no chão do mar. Mesmo quando eu já crescida aprendi a ter vergonha e não entrava mais no mar de tênis.

O que aconteceu é que eu me estrumbiquei no chão da piscina, pisando em uma ponta da escadinha e quase arrancando meu dedão.

Não, não passei a entrar na piscina de tênis.

Mas devia.

Assim como devia nunca ter aprendido a fumar e feito mais esporte. Tal como meu irmão.

Ele não existe mais. Morreu muito cedo. Sem nunca ter fumado, nunca ter bebido e sempre ter entrado no mar de tênis.

São exemplos. Que educam ou deseducam. E dos quais a gente imita sem nem saber porquê.

A gente quer fazer a coisa certa, tenho certeza. E quer viver para sempre. Mas os bons – e também – maus exemplos não colaboram tanto assim.

Queria ter meu irmão aqui. Com tênis e tudo.

aula de desenho

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O professor Rios me ensinou uma coisa bem interessante. Que eu nunca mais esqueci, já lá vão cinquenta e poucos anos.

Ensinou-me que se você misturar vários guaches em água, vai chegar um momento em que nada mais acontecerá. A cor será algo assim meio flicts, meio marrom-cocô-mole.

Pra que isso serve, dirá você? Sim, porque a gente teima em achar morais da história em histórias sem moral alguma.

Bom, eu desisti de encontrar uma cor diferente, dessas que o mundo jamais tinha visto. Porque marrom cocô todo mundo já viu. Eu misturava amarelo com azul, obtinha verde, acrescentava branco pra clarear, preto pra escurecer, um pouco de roxo pra ver no que ia dar e dava…marrom cocô. Depois da quarta ou quinta mistura de qualquer coisa, o resultado sempre era o mesmo.

Descobri sozinha que com cheiros a coisa é semelhante, pelo menos para mim. Eu começo, em loja de perfumes, com Chanel. Eu sempre começo com Chanel. Depois um pouco disso, um pouco daquilo, e ao fim de uns cinco minutos, não consigo nem mais distinguir um extrato de uma lavanda infantil. Vira marrom-cocô.

Com cheiro de comida. Mesma coisa. Em época de festas, tipo Natal, em que a gente mesmo não podendo comer, quer ter a sensação de fartura e orgia gastronômica, depois do peru e do chester, mais os purês de maçã e de batatas, mais os champignons e shimejis, mais um monte de coisas, o nariz fica…marrom cocô! A gente só sabe o que é sobremesa porque é o que vem por último. Com bebidas igual.

Bom, isso foi o que comecei aprendendo com meu professor de desenho e terminei o aprendizado com os anos de janela. Muitos. A coisa toda, quando misturada, acaba sempre por dar em marrom-cocô.

Mas e a moral, perguntarão?

Calma, nem vocês nem eu vivemos sem moral. O que acabei por constatar, neste ambiente político em que ora vivemos, em que a questão do marrom-cocô deixa de ser retórica pra se tornar terrivelmente alegórica, é que, ao se misturar vários desempenhos, várias delações, várias falcatruas, várias acusações e várias defesas, a coisa virou, ora, virou aquilo que todos intuímos.

E tem jeito?

O Rios me ensinou e nunca esqueci: tem jeito. A gente pegava aquele copo com águas e tintas variadas, jogava fora e começava tudo de novo. Desta vez, porém, tendo o cuidado de escrever num papel as cores misturadas, a proporção e buscando não a quantidade, mas a essencialidade. O básico. Poucas, porém boas.

Por que falei de política? Sei lá. Acho que é a insistência no marrom-cocô que me deu a idéia.

E o que eu quero, afinal, é só conseguir fazer um arco-iris bonito porque variado. Com cores definidas e límpidas.

 

 

Faz oitenta anos. Ou oito dias.

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Havia um coronelão do interior desta São Paulo. Ele não era exatamente um coronelão, era, por título, um comendador, seja lá o que isso queira dizer. Mas vestia-se e agia como um bom coronelão daqueles do nordeste, sua origem. Rico, ex-fiscal do imposto de renda (que é profissão que não dá pra ficar rico, a não ser que…se é que vocês me entendem), vestia-se sempre de linho branco e botas.

Teve vários filhos. Uns cinco, dos quais três eram mulheres.

Ficou viúvo cedo.

Não teve dúvidas: transou com duas das filhas, meninotas, deixando de lado a menor de todas, doente mental.

Filha é minha. Minha propriedade, seus corpos são meus, fui eu quem fez. Coronelão.

Se as pessoas da cidade sabiam? Sabiam. E admiravam o coronelão, filho prefeito, morador da melhor casa da cidade, na praça da matriz. Dono de fazenda. Dono de terras. Sobre as filhas? Ora, quem não?

Uma das filhas estudou. Magistério, que na cidade não havia outra carreira. Vocação? Nenhuma, mas era o que havia. Coronelão precisava de suas filhas mulheres em casa, pra cuidar da casa e dele.

E um dia ela casou.

Não, não exatamente casou. Juntou, como se dizia.

Afinal, na situação dela, não sendo mais virgem ( estupro? Ora, foi o pai…) que mais ela podia querer? Ou quem mais haveria de querer casar com ela?

Juntou-se com homem separado.

E teve algumas gravidezes.

Abortou todas as vezes. O tal homem separado, generoso ao se permitir juntar-se a ela, moça “desonrada”, não queria saber de botar bastardo no mundo. Cada vez que ela engravidava: “manda tirar”.

E ela tirava. Foi secando o corpo, o olhar, uma pessoa triste e feia. Que cuidou do seu companheiro até o fim, que o sustentou, inclusive financeiramente. E que sempre se sentiu grata.

Porque ele a quis do jeito que ela era, como ela mesma dizia.

Histórias da carochinha?

Não. Juro que não.

medo

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Não é bom nem ruim, por si mesmo, o medo.

De pequena, era utilizado, principalmente por minha mãe, pra me aquietar. Não, homem do saco nunca me disse nada, nunca me amedrontou. Os homens do saco que eu conhecia de pequena eram pobres catadores que vinham ao portão pedir um prato de comida ou jornais velhos. Sempre foram gentis, como poderiam me meter medo?

Mas minha mãe tinha outras cartas na manga. Lá pelos 9 anos, começou a vir com a história de colégio interno. Isso pegou. Eu morria de medo de ser afastada dos meus amigos, da minha família, dos meus livros e brinquedos. Se eu nunca tivera, nem tenho, medo de ficar sozinha, de ficar sozinha por imposição me apavora. Até hoje. Uma coisa é querermos estar sozinhos, outras é estarmos sós querendo calor humano. Meu primeiro medo.

Depois passei a ter medos mais difusos. Adolescente tem medo de um monte de coisa. Eu tinha medo mesmo é de , vejam só, ficar magra! Eu era esquelética e me entupia de rarical e aveia achando que poderia engordar. Como isso me parece idiota hoje! Quem me dera o mesmo medo…

Adultos, medo de não achar emprego. Passa quando a gente acha, mesmo que porcaria, como alguns que tive. Bicos que mal pagavam a pena o custo do trabalho. Mas pelo menos tiravam de mim o medo de não achar colocação.

Depois, medo de não ser amada. Medo de não conseguir amar. Medo do amor passar. Isso dura a vida inteira.

Medão mesmo foi depois de ter filhos. Aí o medo é por eles. Existem todos os medos anteriores, tipo não ter emprego e eles passarem alguma necessidade até, o pior deles, pela saúde dos filhos. Acho que é atávico. Não conheço uma mãe que não se sinta reconfortada com filho que come bem. Pena é que esse “bem”não necessariamente é bem, se é que me entendem.

Os meus comiam aos trancos e barrancos, ou aos aviõezinhos e broncas, mas comiam.

Medo de violência. No meu caso, plenamente justificado, vítima que já fui de montes de assaltos. Com arma, sem arma, de todo jeito.

Mas o medo tem seu lado bom também. Eu atravesso a rua bem pra caramba, de tanto medo de ser atropelada. Também acabo por ir a médicos, mesmo que os deteste (nada pessoal, meus amigos médicos) e dentistas, por medo de sofrer com dores. Taí, o medo da dor é constante.

O medo de falar bobagem ( muita) impele ao estudo. O medo de ofender impele ao mínimo de juízo.

Tem medo, como esses, que são bons.

Ultimamente tenho tido muito medo do dejavu.

Esse é um medo duplamente qualificado. O medo que já existiu, que você pensou estar extinto, tipo mamute, e volta. Volta outra vez.

Medo do fascismo, do ódio humano, do preconceito e da impulsividade.

Isso eu já vi. Morro de medo de ver de novo.

quem acha vive se perdendo

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Antigamente meu manual de sobrevivência na selva era tudo que eu fui capaz de aprender com a leitura de Robinson Crusoé, meu livro de cabeceira até hoje ( modo de falar, na minha cabeceira tem mais uns seis ou sete, mas entenda-se cabeceira como coração).

Depois o tempo passou. O tempo insiste em passar. Eu argumento, pondero que com pressa não dá pra fazer nada direito, mas o tempo não quer nem saber. Passa. Cada vez mais rápido.

Daí surgiu a TV. Eu parei por aí. Internet pra mim só é fonte de conhecimento de conhecimento que se compraz em ter esse meio como fonte. Se é que me entendem.

Pois foi na TV que descobri outros manuais incríveis de sobrevivência. Começou com Lassie, passando pelo McGyver, chegando hoje aos seriados Vida no Alasca, o Sobrevivente, Sobrevivendo com Bear Gills e outros no gênero.

Sei tudo sobre como fazer fogo, mesmo em dias chuvosos, sei tudo sobre culinária selvagem, tipo comer cobras e lagartos, literalmente, e tudo sobre a construção de abrigos, quer sejam de folhas, de troncos ou de cipós.

Sei como achar água e como ferver água. Sei o que comer e o que não comer. Sei que se deve afastar de costas devagar de cobras, de jacarés e de hipopótamos.

Agora só falta eu me perder na selva.

Mas como? Em dias de GPS, celular, satélites?

Vou ter que voltar a fazer o que fazia em criança: botar uma toalha em cima da mesa da sala, levar para lá galhos e folhas secas e botar fogo.

E depois sair correndo, não da minha mãe, que nem está mais aqui pra isso, mas do meu zelador.

Difícil botar em prática conhecimentos tão úteis como esses que tenho aprendido nesses programas.

Vou ter que continuar a me perder dentro de mim mesma.

Salvai-me Clarice Lispector!