ditirambo

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Todo mundo sonha. Alguns lembram, outros não.

Sou das que lembram. Com riqueza de detalhes. 

Apesar disso, e apesar de, como todos, ter tanto bons sonhos quanto pesadelos, nunca senti dor em sonho. Mesmo quando sonhei que fui atropelada por um ônibus. Vi o bichão vir pra cima de mim, o parachoque dianteiro se agigantar, ele todo passar por cima e …nada de dor. 

Estranho. 

Embora adore interpretar os sonhos e use isso como um instrumento efetivo de reflexão e auto-conhecimento, nunca consegui entender isso. 

Prazer eu sinto. Estranheza, curiosidade, ansiedade. 

Aquele clássico sonho de ter uma prova na escola e nem saber disso ou não ter estudado nada, que causa uma profunda ansiedade, que todo mundo já teve, já tive várias vezes. Nos sonhos e na vida real também. Fui péssima aluna no fundamental. 

Bom, posto isso, hoje sonhei com uma palavra. 

Sim, clara e legível, em letras garrafais (oops, olha o ato falho aí, gente) . 

Sonhei com a palavra Ditirambo. 

Acordei com ela na cabeça. Pensei até em escrever pra não esquecer, mas convenhamos, ditirambo é palavra inesquecível!

Como quando acordo no meio da noite – o que é comum, pra ir ao banheiro – levo um certo tempo pra pegar no sono novamente. Aí fiquei pensando o que seria essa palavra. 

Não me era estranha. Pelo contrário, parecia sonora e bem brasileira. De raízes africanas, até. 

Fiquei pensando em frases, coisas que faço quando não sei uma palavra e o google está longe. 

Seria um bicho? Tipo: fui atacada por um ditirambo que me mordeu a panturrilha?

Seria uma comida? Esta noite vou preparar um ditirambo que vai ficar na memória…

Seria uma figura de linguagem? Não me venha com ditirambos…

Seria uma doença? Peguei um ditirambo que vou te contar…

Fiquei nessa por uns bons quinze minutos, que é o que levo pra adormecer de novo.

Quando acordei esta manhã, a palavra me voltou. 

Pai google foi curto e grosso: Ditirambo é uma ode a Dionísio, o deus do vinho. 

Agora tudo faz sentido. Até as letras garrafais, lembram?

Aquelas duas taças de cabernet antes de dormir não caíram tão bem assim. 

Um ditirambo a Dionísio, porém. Adoro vinho, embora não goste de deuses. 

Mas como nome de comida ainda acho melhor. Vou pra cozinha reciclar uma alcatra de ontem pra virar o ditirambo ao molho curry de hoje. 

caos no calendário

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Eu sei que não é natal. Bom, acho que não mas outro dia ainda era 9 de julho e um outro foi junho, mas a gente está em maio. Olha, pode até ser Natal. 

Bom, na varanda do meu vizinho é. O papai Noel está ali, de bunda para o sol de maio, junho ou dezembro, xii, deixa pra lá. 

Está ali fazendo não sei o quê. Talvez arejando, talvez alguém entediado que resolveu começar já os preparativos de natal, vai saber… Minha mãe, por exemplo, dedicava o mês inteiro ao natal. E olhe que ela nunca foi religiosa. Não me lembro nem mesmo de ela ter ido assistir a minha primeira comunhão. 

Mas ela começava limpando a casa. Não uma faxina qualquer, dessas que a gente faz a cada quinze dias ou mais, sabe como é, pandemia, ninguém tem entrado aqui em casa, não precisamos exagerar. Mas ela começava lavando as paredes. Todas. De cima a baixo. Depois limpava o chão de tacos, o que significava raspar o excesso de cera ( eu adorava fazer isso com gilete) e passar querosene ou removedor em todo o chão. Todo não. Na cerâmica da cozinha era soda. 

Depois ela tirava toda a roupa dos armários e punha no quintal, ao sol. Limpava os armários por dentro e por fora, com carnaúba. 

Depois ela polia todos os metais. Todas as maçanetas, chegando ao cúmulo de polir as dobradiças de latão. Meu irmão do meio ia para o sacrifício. Ele também tinha que limpar todos os lustres ( alguém já limpou lustre com contas de vidro? ) e arandelas. Ele era o mais alto da família. 

Aí escolhia o mais bonito jogo de crochê, dos que a minha avó fazia ( crochê na minha família pulou geração: quem faz hoje sou eu) e trocava as toalhas da casa. Depois de ter engomado o jogo com maisena. 

Aí, casa limpa, grama cortada no quintal, já faltava mais ou menos uma semana para o natal. Era a hora de fazer a lista do mercado. Dois ou mais dias antes, era a hora de cozinhar pra toda a família. 

Daí acontecia o natal. 

Daí acontecia, dois dias depois, meu aniversário. 

“Mas essa menina tinha que ter nascido nessa época (como se fosse eu a responsável), dizia ela. 

Não aguento cozinhar mais nada. Não sobrou um bolo aí na geladeira? 

bacalhau

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Hoje pela primeira vez estou cozinhando um bacalhau que não é seco nem salgado. Um bacalhau como devem ser todos os bacalhaus em seu lugar de origem. Um bacalhau sem maquiagem, sem preparos, ao vivo não diria, porque ele está bem morto e fatiado mas assim, um bacalhau puro em sua integridade de bacalhau.

Também, ando me sentindo meio assim, um bacalhau. 

Maquiagem nem pensar. Nem o batonzinho básico que eu gostava. Pra que? A boca não tem ajudado, nem os dentes. Uma das jaquetas (será assim que fala?) caiu e está lá, o dente falta mas tantas outras coisas mais importantes também faltam que eu nem ligo mais. Afinal, a máscara esconde também isso. 

E assim la nave va. 

São sessenta dias em casa. Adoro minha casa.  Pelo menos adorava. Na realidade, ando um pouquinho entediada com ela. 

Não se modifica. O sol tem nascido todos os dias no mesmo lugar e todos os dias se põe do lado oposto. Se chove ou faz frio nem ligo. Aqui dentro a temperatura é quase constante. Os domingos se diferenciam um pouco porque insistimos em comer na sala, mesa mais arrumada. Mas preciso sempre verificar no jornal se é domingo mesmo. 

Nosso treino esportivo limita-se a subir e descer escadas, 704 degraus por dia. Estamos muito bons nisso. Nunca mais reclamarei dos apartamentos franceses no quinto andar sem elevador. Fichinha. Quero ver no décimo quarto como aqui! 

De vez em quando bate um desespero. Quando lembro do neto, dos filhos e da nossa idade. Sei lá se resistiremos. Grupo de risco e as tais de comorbidades, que antes disso tudo eu nem sabia o que era. 

Ficar em casa. 

A gente fica. 

A gente tem uma casa e tem dinheiro pra comer.Lembrar de quem não tem nada disso desespera mais ainda. 

E pensar que antes disso tudo eu só tinha medo de câncer e de avião cair…

Mas vai passar, é o que dizem. 

E eu, será que vou passar? 

coronariando em casa

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Meu apartamento não chega a 100 ms. É grande, porém, para os padrões de hoje. 

Eu não sou de acumular nada. Entre outras coisas, porque, como mostrei acima, não caberia. 

Roupas não usadas por um ano, no máximo, são doadas. As que deixam de servir também, que eu não sou mulher de ficar me martirizando com aquilo de “um dia vou voltar a usar, ou um dia vai caber de novo”. Isso nunca funciona, nem pra homens nem pra roupas. 

Coisas de cozinha só tenho as que uso diariamente. Meia dúzia de pratos rasos, meia dúzia de fundos. Lembro apenas de uma vez em que vieram sete e não seis pessoas para comer em casa. O sétimo teve que sentar numa mesinha de canto (eu também só tenho seis cadeiras) e comer em prato fundo. 

Sei, no entanto, que esses são pequenos e ridículos problemas de classe média. Que não deveriam importar neste momento, mas acabam incomodando. 

Os pratos, as cadeiras? Não. A falta de coisas inúteis. 

Um amigo fez umas colagens lindas. Aí lembrei que eu também, na adolescência, gostava de fazer colagens. Resolvi tentar. 

Cadê que eu tenho revistas? Desde a época em que o Mino Carta era editor da Veja que eu não assino mais nada. Sim, a Veja já foi razoável. Priscas eras. 

Quando meus filhos eram crianças havia alguma coisa em casa. Gibis, fanzines, por aí. Os dois chegaram aos quarenta e só eu os acho crianças ainda. 

Então, nada de revistas. 

Tenho fotos antigas, poucas mas tenho. Mas não pretendo recortá-las. Embora devesse. Algumas espero que só sejam (re)vistas quando eu já não estiver mais aqui. São humilhantes. 

Tenho livros com imagens. Mas lembro bem do que senti quando descobri que minha filha, bem pequena e com dentes nascendo e coçando, resolveu comer minha edição do Dom Quixote. Eu amo minha filha, mas a relação balançou nesse dia. Eu amo meus filhos mas meus livros são sagrados. 

Então vou procurar coisas. Qualquer coisa. Nas minhas caixas de artesanato guardo sobras de tecidos. Têm sido úteis. Todas nossas máscaras vieram de lá. Guardo coisas de natal. Deve haver algo.

Guardo broches antigos, da época em que a gente fazia campanha de fundos. Já fiz muito bazar, já fiz muito broche, já fiz muita torta de beringela pra vender em eventos de campanhas. Bons e honestos tempos, em que os fundos vinham desse tipo de ações. Guardei alguns broches. 

Vou ver o que posso fazer. 

Em breve, nos melhores posts do ramo.

Vocês não perdem por esperar.

Parece uma ameaça.

E é.

literatura pro avião não cair

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Quando viajo de avião costumo me preparar com antecedência. Isso significa comprar um monte de palavras cruzadas nível desafio e livros que me ajudem na provação. Não livros de autoajuda mas livros que me ajudem, o que é diferente.

Cada um sabe onde lhe aperta o calo, já dizia meu pai que, como eu, também gostava de provérbios. Um livro pra me ajudar precisa ser cheio de diálogos, precisa tratar de assuntos leves ou tratar de forma leve assuntos pesados. Quando o avião chacoalha e eu me imagino vivendo meus últimos minutos na vida, o que menos preciso é de filosofia ou digressões à respeito da nossa passagem na terra. Eu preciso de tramas envolventes, de muito papo, de situações intrincadas. Quase como livro policial, mas para mal dos meus pecados eu sou ruim de memória. Então não consigo nunca resolver crimes em livros policiais porque ou tenho que fazer diagramas em papel ou simplesmente esqueço o nome dos suspeitos e às vezes até da vítima. 

Livros agitados. Já li Rubem Fonseca, embora o ache um pouco pesado pra avião. Os temas, não o autor.

Já li muito Veríssimo, mas esse é leve demais. De novo, os temas, não o autor. 

Gosto muito de Rubem Braga, mas já li quase tudo dele e se releio não mantenho a atenção da mesma forma que da primeira vez. E aí fico sentindo o balanço do avião. E aí fico refletindo sobre a finitude da vida. E aí não adianta nada estar lendo …

Certa vez um amigo me recomendou Nick Horby. Um achado, mas cansa um pouco com o tempo. Durou algumas viagens só. 

Nesta quarentena também tenho procurado ler coisas mais leves. Mas na falta de sair pra comprar livros e não gostando de comprar virtualmente ( livro pra mim é que nem fruta na feira: preciso cheirar, sentir, ler orelhas e contracapas e só aí pedir: me embrulha meia dúzia…) tenho lido o que estava encalhado na fila de espera aqui em casa. Amei ter conhecido Eric Nepomuceno em livro, já que só o conhecia em entrevistas onde, diga-se de passagem, tinha dele uma impressão ruim. Como entrevistador ele é um ótimo escritor!

Estou lendo Luis Aragon. Em português de Portugal, um livro da década de 30. Uma dificuldade mas interessante. Os bairros elegantes, chama-se. Onde se aprende que na França do século retrasado a diferença entre a Republique e os Jardins em Sampa deste século é pequena. 

Agora bom mesmo pra voar, em todos os sentidos, foi ter lido e relido uns 4 Júlios Verne que tinha na estante esperando a vez. Recomendo. Embora, como sempre em Verne, a premonição esteja presente e isso às vezes me faz ficar pensando em nossa realidade. Mas Verne é Verne. 

Daqui a uns 80 dias teremos feito a volta ao mundo e talvez possamos descobrir que, sim, ganhamos esta parada. 

Em todo caso, preferia estar num balão nesta quarentena. 

corona e máscaras

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Tenho pensado muito em máscaras nestes dias de corona. Não só nas máscaras físicas, aquelas que eu tive que comprar a preços absurdos. Mas nas máscaras outras, essas que a gente põe sem nem perceber, que a gente usa em variadas situações e lugares.

Explicando.
Eu costumo olhar pelas janelas. Desde que me mudei para apartamento, eu que sempre só havia morado em casas térreas, adoro olhar pelas janelas deste meu décimo quarto andar. Tudo fica pequeno, deixa de me assustar, parece que eu consigo olhar mais longe e melhor.
Bom, sempre olho pelas janelas.

Ultimamente é o máximo de diversão que me permito : olhar os outros pela janela. O que não deixa de ser interessante em relação a algumas pessoas mas esse é outro assunto.
Mesmo do décimo quarto andar tenho percebido que as pessoas andam se vestindo mais relaxadas, no mau sentido. Neste bairro era raro ver alguém relaxado, mesmo pra ir à farmácia era comum ver mulheres arrumadas, com baton, cabelo e unhas feitas, roupa esportiva mas de grife. Bairro besta, eu sei. Fora os que iam à farmácia de carro, morando a poucas quadras. Falo muito em farmácia porque moro ao lado de uma.

Agora a coisa mudou. A minha teoria é que tudo isso deixou de importar muito. O que está em jogo é muito, muito maior do que meu vizinho me ver de havaiana chumbrega e desgrenhada. A questão crucial é: tem ou não álcool gel nessa porra de farmácia?

Com comida a mesma coisa. Fico pensando nas hordas de milenials que já cresceram a base de Nuggets, hamburgueres, miojos e que tais. Sem saberem cozinhar.
Daí o que resta, neste bairro de classe média é fazer pedidos. E haja motoboy de entrega. Da manhã à noite, é só o que se ouve. Deve ter gente que pede desde o café da manhã até o petisco antes de dormir. Tem sido a última coisa que eu ouço antes de dormir e a primeira que ouço ao acordar. Bons tempos em que ouvia as maritacas locais.

Daí, fico pensando como ficam as circunstâncias.
Sim, porque se o homem é o que é mais as circunstâncias, o que dizer de um hambúrguer comido sozinho em casa, de pijama esmulambento, meio frio, trazido pelo motoboy? Será que sobrevive em paladar ? Será que mudando o entorno e as máscaras usadas (no sentido de caras e bocas e repertório ) o sabor será o mesmo?

Um romance engatado ao vivo resistirá online? Não online mascarado, aquele em que perde-se horas para dar à aparência um ar de “relaxamento casual”mas o online de coronavirus, aquele em que vc sempre pensa se deve ou não tomar banho, pentear o cabelo, fazer a cama, etc, já que…
E é este “já que”que mata. Além do vírus.

Talvez eu esteja sendo afetada pelo isolamento, mas ando pensando muito que, agora que a gente tem que por máscaras pelo vírus, acabe deixando cair as máscaras sociais.

coronariando

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Nossa capacidade de fantasiar ou de assumir nossas fantasias parece diminuir com a idade.

Bom, pra mim parece. As fantasias permanecem mas só em determinadas horas, nas quais preciso fugir um pouco da realidade.

Horas de baixa autoestima, horas de preocupação, mas também horas de descanso, de devaneios.

Em criança, ou porque precisasse fugir mais da realidade, ou porque minha autoestima não fosse exatamente cultivada pela família ou só porque eu tenha sempre gostado de devanear, eu fantasiava mais.

Eu fantasiava, e era bem constante isso, que a cidade, por qualquer motivo, ficava absolutamente vazia. Quando eu digo “a cidade” estou falando do centro da cidade, que é como se dizia quando a gente tomava o ônibus pra ir ao centro.

Como eu dizia, meu sonho era a cidade vazia. Eu poderia entrar nas lojas que quisesse (geralmente eu queria o próprio Mappin, primeira loja de departamentos que conheci, que tinha de tudo), experimentar tudo que quisesse, poderia entrar em todas as lanchonetes (meu sonho de consumo não incluía restaurantes) e comer tudo que quisesse, poderia entrar nas docerias e, é claro, ir de bolo em bolo.

Dificilmente queria entrar em loja de brinquedos. Em joalherias queria. Coisa que, de adulta, deixei de querer, ainda bem, suponho.

Eu gostava de loja de tranqueiras. Meu pai era leiloeiro, então tranqueiras pra mim incluía objetos bizarros, enfeites, livros estranhos e raros.

Continuo gostando. Muito.

Mas a cidade vazia era o grande sonho. Não só por conta do que me permitiria fazer, sem nenhum tipo de restrição, mas pelo silêncio – que sempre prezei- pela calma, pela possibilidade de fazer as coisas devagar.

Nunca previ, nem fantasiei nenhum tipo de vírus. Literatura de ficção nunca foi minha predileta, com exceção do Júlio Verne, que não ponho nessa categoria.

E cidade vazia, como estou vendo ficarem as mais lindas, por conta de doença, nunca imaginei.

Uma coisa é a fantasia, onde a gente realiza sonhos, sabendo que são só um refrigério pra realidade cansativa. Outra coisa é essa paz dos cemitérios.

E olhe que eu sempre gostei de cemitérios, exatamente pela paz.

Que dias!!

carnaval

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O ano era 1972.

Um ano de casados, nenhum filho, muito espírito de aventura, pouco dinheiro.

Pareceu razoável viajar para algum lugar bonito. Para baratear, viajar de carro. Aquele fusquinha verde, já velho em 72.

Como disse, era 72. Pra ser mais exata, carnaval de 72. Pra ser mais exata ainda, sábado de carnaval de 72 quando chegamos em Salvador, depois de ter guiado de São Paulo até lá, dormindo num posto de gasolina no caminho.

Só um detalhe nos escapou. Não tínhamos feito reserva em nenhum lugar porque, desconhecendo Salvador e seu carnaval, achamos desnecessário.

A gente além de ter pouco dinheiro e muito espírito de aventura, era ingênuo pra caramba, pra não dizer bobo.

Começou a ronda dos hotéis. Não havia internet (sim, já houve um mundo sem internet) e muito menos Waze ou GPS. Havia o guia 4 rodas.

O problema era que o guia, mesmo em suas indicações mais baratas, ainda era caro.

O jeito foi perguntar nos hotéis que nos pareciam simples.

De pergunta em pergunta, caímos no hotel República, acho. Em plena Avenida Sete de Setembro.

Tinha sobrado um quarto, desistência de alguém. De solteiro. Com só uma cama estreitinha. De fundos. Quase um quarto de gata borralheira, mas achamos foi bom.

De repente, desmanchando as malas, um monte de gente andando de cá pra lá, alguns já usando, outros ainda terminando de fazer suas mortalhas.

Ué, mortalha não é roupa de morto? Deixa pra lá, aqui é não. Aqui é roupa de muito vivo. De pular carnaval, barata e tamanho único.

E aí chegou o som.

O SOM.

Uma coisa que eu nunca havia ouvido e olhe que passei a infância morando ao lado da fábrica da BomBril com seus apitos.

Uma coisa que me pareceu desarmoniosa, dissonante, esganiçada, esquisita, indefinível.

Que é isso, minha gente?

O trio elétrico do Dodô e do Osmar.

Fui à varanda ver. O hotel era tão simples e aquele povo baiano tão alegre, que o pessoal que dormia nos quartos da frente, grandes e com varandas, deixava todo mundo entrar e ficar lá, na beira do desfile, quase encostando nos trios.

E quando saímos pro carnaval, nem precisou perguntar onde era. Foi só seguir a Sete de Setembro e desaguar na praça Castro Alves, embora desaguar não devesse ser a palavra.

Foi na Praça que pela primeira vez na vida eu saí do chão sem asas. Fiquei ali, desesperada(logo eu que tenho pavor de multidões) levantada por corpos e mais corpos, ocupando sim, o mesmo lugar no espaço, contrariando as leis da física, até conseguir voltar pro chão e escapar.

Quando conseguimos andar pelos próprios pés, ainda me diverti vendo o povo dançar, cercado por cordas (na época os blocos usavam cordas pra separar), mijando pelas ruelas (bastando alargar com as mãos a mortalha) e cantando sem parar.

Vi outros trios elétricos e acabei me acostumando com o som, embora não goste até hoje.

E quando voltamos pra nossa casinha na Vila Sônia, descobri, ao procurar a chave de casa, que, sem querer, havia trazido a chave do nosso quarto em Salvador.

Que abriu a minha casa perfeitamente.

Coincidências ou evidências.

Não sei.

Mas que foi bom, foi.

Elas

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Coisas são coisas e gente é gente. Gente tem nome, bicho também. De algum jeito é preciso caracterizar gentes e bichos, pois que são diferentes entre si. Embora eu não distinga um pinguim de outro, mas deve ser pela falta de contato.

O resto, as coisas, são, no máximo, nomeadas pelo ano ou pela marca. Tive uma Brasília azul celeste, logo que foi lançada, que era um horror de carro. Não obstante, nem pudemos escolher a cor, tal a fila de espera.

Mas é isso, coisas são distinguidas geralmente pelo modelo, pela marca, pelo ano.

Gente também, mas tem nome.

Nunca dei nome a nenhum carro, a nenhum objeto, a nenhuma coisa.

Mas tem certas coisas que, não sei explicar, são tão importantes, tão necessárias, que é quase irresistível nomeá-las de forma mais carinhosa, mais íntima.

Recuso-me a dar nome, porém.

Eu as chamo de “elas”. E ao chamá-las assim, as pessoas sabem a quem me refiro.

São de vida efêmera. Alguns meses, talvez nem isso.

Nem sempre eu as encontro.

Nem todo mundo as ama como eu amo.

Mas quando elas se vão, a vida fica mais triste. O resto do ano demora a passar. As cores ficam mais sombrias.

Elas, de presença tão marcante pra mim, são delicadas. Quase etéreas. Quando estão presentes, um leve olor paira no ar. Porque elas não têm cheiro, têm olor, como as heroínas de Alencar.

São minhas lichias.

“Elas”.

 

as coisas

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Eu sou capaz de aguentar situações difíceis por longo tempo. Sou corintiana. Passei 23 longos anos da minha infância e juventude longe de um campeonato, numa idade em que estar no topo, ou pelo menos entre os primeiros parecia ser fundamental.

Pra mim não era. Eu gostava e gosto do meu time. Campeonatos são só consequências. Benvindos, mas consequências.

Mas anda muito difícil aguentar a atual situação de nosso país. Que já foi pior, eu sei, mas numa época em que pelo menos havia resistência, luta e, portanto, esperança de mudar.

Hoje a luz no fim do túnel parece estar depois da última curva, aquela que a gente não vê. Mas eu ainda acredito nela. E gosto dela. Bom acreditar que ela está lá, ao andar nas trevas.

Dizem que falta um projeto. Pode ser. Nem me parece um projeto tão complexo. Saúde, educação, liberdade. O resto a gente vai dando um jeito.

Pessoas aos montes dormem e vivem nas ruas, debaixo de marquises (que caem matando, de vez em quando), comendo do lixo, na maior cidade do país.

Pessoas têm celular e estão em redes sociais, mal sabendo ler e escrever, o que dirá interpretar.

Pessoas que não pensam como a maioria ao lado são maltratadas, hostilizadas, agredidas.

As pessoas têm coisas. E são estimuladas a ter cada vez mais.

As pessoas vão se tornando, elas mesmas, coisas.

Coisas não têm dó nem piedade. Coisas que estragam podem ser trocadas. Coisas velhas devem ir para o lixo.

Se trocarmos a palavra coisas por pessoas, nenhuma diferença fará.

Lembro de Drumond: “ …mas eu não sou as coisas e me revolto…” e me sinto hoje, talvez pior do quer as coisas.

Eu nem sei como me revoltar.